Delfino de Alencar Araújo

Delfino de Alencar AraújoDelfino de Alencar Araújo nasceu no dia 20 de maio de 1908 no Município de Canindé, que está localizado na região Norte do Estado do Ceará, distante 115 quilômetros da cidade de Fortaleza, sendo filho de Francisco Duarte de Araújo com Isabel de Alencar Araújo.
Os seus avós paternos se chamavam José Duarte de Araújo e Isabel de Araújo, já os maternos eram Delfino Alves Pinheiro e Lima e Maria Carolina de Alencar Lima.
No dia 17 de julho de 1943, contraiu núpcias com a Profª. Nilse Ayres de Alencar Araújo, que era nascida no dia 11 de novembro de 1916, sendo filha de Luís Ancilon de Alencar com Maria Pereira Ayres de Alencar:

“Numa tarde invernosa de 1939, para bem e felicidade desta terra, aqui chegava aquela bonita jovem, detentora de vastos conhecimentos e de elevada educação, atendendo ao convite do Sr. Francisco das Chagas Araújo.” (NASCIMENTO, 2002: p. 132)

Nessa mesma época, pouco tempo depois do seu matrimônio, por conta de rivalidades políticas, passou a ter problemas pessoais com o Cel. José Inácio de Carvalho, que formulou graves denúncias junto ao Governo do Estado contra o intendente do Município, Aluísio Ximenes de Aragão, que partilhava interesses dentro da “Oligarquia Araújo”.
Esse desafeto ganhou maior proporção depois da locação de uma propriedade particular nas cercanias da cidade de Boa Viagem:

“No verão de 1945, José Inácio de Carvalho arrendou a propriedade de Antônio Gonçalo, nos arredores da cidade, e nela soltou reses sua. Ocorre que, todo ano a mesma propriedade era arrendada a Delfino de Alencar Araújo. Vendo a pastagem ser destruída pelo gado do adversário, Delfino conseguiu com o Interventor Aluísio Ximenes de Aragão, prender o gado com fundamento numa portaria do secretário de Justiça do Interventor no Estado, Luís [Cavalcante] Sucupira. José Inácio foi a Fortaleza e conseguiu revogar a portaria, originando uma rixa de graves consequências entre os três: José Inácio, Delfino e Aluísio.” (MOTA, 1995: p. 64-65)

Enquanto isso, na cidade de Fortaleza, os ares da política estadual estavam passando por significativas mudanças, entre elas, nessa época, quando um grupo ascendia ao poder, operava-se uma faxina na máquina pública, magistratura, servidores, destacamento policial, tudo era removido sem nenhum tipo de justificativa:

“Não havia suspiro para os que não concordavam com o Estado Novo implantado no País em 1937. O interventor do Ceará era nomeado pelo ministro da justiça…, os seus seguidores nos Municípios implantavam o regime do terror usando e abusando dos delegados de polícia, dos juízes corruptos e dos coletores de impostos sem escrúpulos. Quase não havia organização. O interventor estadual nomeava o prefeito, o coletor, o delegado de polícia, não havia Câmara Municipal e os frustrados em seus pleitos não tinham para quem apelar.” (MOTA, 1995: p. 25)

Para quem saia do poder o seu destino já estava traçado, as demissões em massa, as remoções injustas, as destituições violentas multiplicavam-se no dia-a-dia; tudo para acomodar os parentes, correligionários e amigos de quem estava no poder, e agora chegava à vez do Cel. José Inácio de Carvalho:

“Boa Viagem, finalmente, entregou-se à sua liderança [José Inácio de Carvalho] depois de dez anos de oposição à família Araújo, do PSP.” (MOTA, 1995: p. 55)

Depois da formulação dessas denúncias, no dia 28 de novembro de 1946, Aluísio Ximenes de Aragão foi destituído do cargo e, em seu lugar, no intuito de apaziguar os mais exaltados, assumiu a interventoria do Município o Ten. José Silvino da Silva, que era ligado diretamente ao grupo denunciante:

“Era tudo uma manobra. Em novembro de 1946, para liquidar com a força política do Senador Olavo Oliveira, o Interventor [José] Machado Lopes demitiu todos os prefeitos do PSP, inclusive Aluísio Ximenes de Aragão, de Boa Viagem. Em Boa Viagem o interventor cooptou o Coronel José Inácio de Carvalho para fundar o PSD, dando-lhe todos os poderes políticos inerentes à nova chefia que surgia em apoio à candidatura do General Onofre Muniz [Gomes da Silva]. A família Araújo e Aluísio continuaram a apoiar a candidatura do Desembargador Faustino de Albuquerque [e Sousa]. Demitindo Aluísio, para o seu lugar foi nomeado o Tenente José Silvino [da Silva], com o aval político da liderança emergente, José Inácio de Carvalho.” (MOTA, 1995: p. 60-61)

Tudo parecia estar acontecendo perfeitamente de acordo com o que foi rigorosamente planejado, o Aluísio estava fora da Prefeitura e a Família Araújo sem o prestígio do poder municipal. Essa era, sem dúvida, uma excelente oportunidade para uma nova liderança que emergia aparecer com toda à força:

“José Inácio de Carvalho, nos idos de 1940, vivia no auge de sua carreira política. O interventor do Município, Tenente José Silvino [da Silva], obedecia à sua orientação política. O Coletor Fausto Costa era da sua grei política. O vigário da Matriz, Padre Pedro Vitorino Dantas, era seu confidente e orientador espiritual. O Juiz Lourival Soares todo dia passava em sua casa para troca de ideias. A sua casa vivia cheia de gente do Município e dos coordenadores da candidatura do General Onofre Gomes Muniz ao governo do Estado. Transbordava de felicidade.” (MOTA, 1995: p. 55)

Essa mudança repentina da chefia do executivo municipal poderia também ocasionar em uma alteração no pleito ao governo estadual que se aproximava, pois essa demissão gerou um forte descontentamento entre as fileiras do grupo que apoiava o intendente deposto:

“A adesão do Coronel Inácio de Carvalho às correntes partidárias que apoiam a candidatura do general, fez com que o ódio dos elementos olavistas se voltassem contra o Coronel José Inácio. E segundo informações que colhemos de fontes fidedignas, nesta capital, houve uma desinteligência entre o Coronel Inácio e o ex-prefeito daquela cidade, Dr. Aluísio, por causa de irregularidades na administração daquele cidadão. Denúncias que foram apresentadas ao Exmo. Sr. interventor federal e parece que a veracidade das mesmas foram apuradas, porque, sexta-feira passada, foi lavrado o ato de demissão daquele cavalheiro.” (MOTA, 1995: p. 55)

Depois desses acontecimentos, no dia 28 de dezembro de 1946, por volta das 20 horas e 30 minutos, coincidentemente um mês após a destituição de Aluísio Ximenes de Aragão do cargo de intendente, ocorreu o lamentável assassinato do Cel. José Inácio de Carvalho.
Nessa noite, duas pequenas rodas de amigos debatiam sobre o destino da política estadual em suas respectivas calçadas, quando o tom da conversa subitamente foi interrompido pelo eco de um tiro.
No primeiro grupo, os partidários do General Onofre Muniz Gomes estavam sentados vizinho à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem, na calçada do Coronel José Inácio de Carvalho; no segundo grupo, a 100 metros deste, os partidários do Senador Olavo Oliveira estavam na calçada da casa de Antônio Tupinambá de Araújo e entre estes o Delfino:

“Ouviu-se um estrondo na direção da igreja. Todos se levantaram e instintivamente olharam na direção da torre da igreja, escassamente iluminada, notando, porém, que a mesma não caíra. Segundos após, passou um rapaz da casa de José Inácio, correndo e avisando que ele fora assassinado com um tiro.” (MOTA, 1995: p. 56)

Depois desse episódio não demorou muito para que a suspeita da encomenda desse crime caíssem sobre as suas costas e as de Aluísio Ximenes de Aragão:

“Os amigos e familiares sentenciaram desde logo: foram os Araújo que mataram o José Inácio. A cidade ficou dividida. O policiamento foi reforçado com praças vindos de Quixeramobim e Canindé.” (MOTA, 1995: p. 57)

Pouco tempo depois desse fato, nas eleições municipais que ocorreram no dia 3 de outubro de 1954, contando com o apoio da “Oligarquia Araújo”, conseguiu ser eleito chefe do Poder Executivo do Município de Boa Viagem.
Nessa gestão, ao assumir à Prefeitura de Boa Viagem no dia 25 de março de 1955, recebeu o lugar de Aluísio Ximenes de Aragão e a principal marca de sua administração, além do apoio aos agricultores, foi à construção do Açude José de Alencar Araújo, represa que abasteceu a cidade por muitos anos.

“Construiu o Açude José de Alencar Araújo, em Capitão-mor, e o campo de pouso, na mesma localidade. Deu grande assistência aos agricultores.” (NASCIMENTO, 2002: p. 68)

No fim de seu governo, nos primeiros meses de 1958, por conta de uma grave estiagem, enfrentou forte pressão da população do Município por conta da escassez de alimentos, fato que contribuiu para invasão da cidade e projetou o nome do Dr. José Maria Sampaio de Carvalho, líder da oposição que militava na UDN, a União Democrática Nacional:

“Em meados de abril de 1958, já declarada uma das piores secas de nosso Município, a cidade de Boa Viagem foi invadida por mais de mil flagelados a procura de alimentos. Nessa ocasião aconteceu um fato inusitado, pois o prefeito fugiu da cidade quando a turba se dirigiu ao Mercado Público. Diante desse fato o Dr. José Maria tomou à frente dos flagelados e garantiu que conseguiria alimento com os comerciantes. depois disso a onda humana faminta foi conduzida pelo destemido doutor para um local aonde se fez distribuir grande quantidade de rapadura e farinha. Os fornecedores da comida foram os comerciantes Walkmar Brasil Santos, Antônio Carneiro e João Carneiro.” (S.N.T)

Diante desse fato inesperado surgiu um adágio popular jocoso que dizia: “O prefeito sumiu e o Dr. José Maria assumiu!” No outro dia, depois dessa ameaça de invasão, o IFOCS, sigla da Inspetoria Federal de Obras Contras as Secas, abriu um escritório para socorrer os flagelados pela fome, tornando-se um dos maiores agentes de corrupção eleitoral da época em nosso Município:

“A direção desse escritório foi entregue aos políticos locais e ao mesmo prefeito que fugiu para não enfrentar a multidão de famintos. As famílias para serem atendidas tinham de se comprometer a votar no candidato da situação. Tinham trabalho, alimentos e remédio. Quem não se comprometesse não era atendido e o Dr. José Maria liberou os seus eleitores para que não passassem fome, pois a ameaça era que, caso ganhasse, o escritório seria transferido para cidade de Crateús”. (S.N.T)

Nessa época, na disputa eleitoral ocorrida no dia 3 de outubro de 1958, apoiou o nome de seu primo, o Dr. Gervásio de Queiroz Marinho, candidato do PSD, o Partido Social Democrático, que tinha como vice o nome de Manuel Stênio de Queiroz Ribeiro.
A chapa de oposição era formada pelo nome do Dr. José Maria Sampaio de Carvalho e do Agropecuarista José Bruno Maciel, que foram derrotados nas urnas por uma pequena margem de menos de trezentos votos.
A sua gestão no Poder Executivo foi encerrada no dia 24 de março de 1959, antes disso, em conformidade com a legislação eleitoral da época, concorreu a uma das vagas no Poder Legislativo, sendo eleito com ampla vantagem sobre os seus pares.
Nessa legislatura, como vereador que recebeu a maioria de votos, a sua liderança política continuou a influenciar os destinos da comunidade boa-viagense, pois durante o exercício do seu mandato foi escolhido pelos seus pares como presidente da mesa diretora para o período legislativo de 1959, 1960 e 1961.
Pouco tempo depois, nos últimos meses de 1961, padecendo de grave enfermidade pulmonar por conta do cigarro, procurou tratamento médico especializado na capital federal, a cidade do Rio de Janeiro. Nessa época, acreditando no restabelecimento de sua saúde, manteve correspondência com um de seus mais leais amigos, o Vereador Deodato José Ramalho:

“Político por vocação, muito jovem ingressou na política, encaminhado por seu grande amigo, Delfino de Alencar Araújo, naquela época prefeito desta terra. Quando doente, Delfino escrevia para Deodato pedindo-lhe para regar sua ‘Flores’, que eram os seus ‘correligionários’. E, assim, atencioso, cumpriu esse pedido. Sempre teve muita dedicação por todos que dele precisavam, acompanhando doentes para Fortaleza, Quixeramobim e para onde preciso fosse.” (MARINHO, 2014: p. 64)

Depois desses fatos, no dia 28 de novembro de 1961, com apenas 53 anos de idade, para surpresa de muitos, veio a óbito por conta de um câncer no pulmão.
Poucos dias depois desse ocorrido, em 11 de dezembro, conforme o registro das páginas 74 e 75 do livro de atas da Câmara Municipal de Vereadores, em uma sessão extraordinária, os seus companheiros de legislatura lamentaram a sua perda e reconheceram o seu importante papel como homem público, pois ao longo dos anos deu valorosa contribuição para o desenvolvimento do Município de Boa Viagem:

“O Sr. Deodato José Ramalho, 1º Secretário, em virtude do falecimento do Sr. Presidente, usou da palavra comunicando aos presentes o infausto acontecimento tecendo comentários pela falta do ilustre companheiro e a sua personalidade de homem público devotado que era às causas do Município de Boa Viagem, onde pelo voto de simpatia já exercera o cargo de prefeito.”

HOMENAGEM PÓSTUMA:

  1. Em sua memória, na gestão do Prefeito José Vieira Filho, o Mazinho, através da lei nº 139, de 12 de março de 1970, uma das ruas do Bairro Boaviaginha, na cidade de Boa Viagem, recebeu a sua nomenclatura.

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