José Maria Sampaio de Carvalho

dr-jose-maria-sampaio-de-carvalhoJosé Maria Sampaio de Carvalho nasceu no dia 22 de março de 1930 na cidade de Boa Viagem, que está localizada no Sertão Central do Estado do Ceará, distante 217 quilômetros da cidade de Fortaleza, sendo filho de José Inácio de Carvalho e de Maria de Lourdes Sampaio de Carvalho.
Os seus avós paternos se chamavam Ignácio José de Carvalho e Maria de São José de Jesus, já os maternos eram Joaquim Porfírio Sampaio e Vicência Porfírio Sampaio.
Nos primeiros anos de sua infância, juntamente com outros garotos de sua idade, recebeu instrução elementar de sua mãe, que era uma das poucas professoras existente na cidade de Boa Viagem.
No dia 28 de novembro de 1946, juntamente com a sua família, partilhou da inesperada perda de seu pai, que foi covardemente assassinado por motivações políticas na calçada de sua casa:

“De acordo com os registros existentes no livro C-4, fornecido por seu irmão, João Inácio de Carvalho, ao Cartório Geraldina, 1º Ofício, tombo nº 1.126, página 62v, faleceu às 21 horas, vítima de assassinato, aos 47 anos de idade, no dia 28 de dezembro de 1946.” (SILVA JÚNIOR, 2010: José Inácio de Carvalho. Disponível em http://www.historiadeboaviagem.com.br/jose-inacio-de-carvalho/. Acesso no dia 16 de julho de 2016)

Nos últimos meses de 1950, com muito sacrifício de sua família, conseguiu formar-se no curso de Odontologia, na cidade de Fortaleza, tendo como padrinho um tio de sua mãe, o Monsenhor Catão Porfírio Sampaio, regressando para sua cidade natal pouco tempo depois de formado, onde trabalhou em seu consultório até 1955.

Imagem de sua formatura.

Imagem de sua formatura.

Algum tempo antes disso, no dia 24 de março de 1951, juntamente com os seus irmãos, foi surpreendido pelo repentino falecimento de sua genitora, que com apenas 45 anos de idade veio a óbito, passando a ser depois disso o arrimo de sua família.
Nessa época, desejando fortalecer o grupo de oposição a “Oligarquia Araújo”, juntamente com alguns agropecuaristas do Município, fundou a Cooperativa Agrícola Mista de Boa Viagem, que tinha por finalidade conseguir a instalação de uma agência do Banco do Brasil em nossa cidade.

“O crédito para os agricultores era muito difícil e o Município de Boa Viagem era ligado a agência do Município de Quixadá, que era impossível de ser alcançada na época invernosa por conta dos rios que impediam o acesso. Posteriormente o atendimento passou para agência de Quixeramobim, também com os mesmos problemas de Quixadá. Depois disso, com a construção da BR-020, o atendimento passou para agência de Maranguape. Foi a primeira vitória da Associação Rural dirigida pelo Dr. José Maria… Essa Associação Rural, contando com a ajuda do Governador Vigílio Távora, instalou e fez funcionar um sistema telefônico na cidade, embrião da companhia telefônica de hoje.” (SAMPAIO DE CARVALHO, 2009: p. 4)

Essas importantes conquistas foram de vital importância para o desenvolvimento econômico e social dos habitantes do Município de Boa Viagem.

Imagem do Dr. José Maria e sua irmã Zuleica na cidade do Rio de Janeiro.

Imagem do Dr. José Maria e sua irmã Zuleika na cidade do Rio de Janeiro.

Depois de algum tempo estabelecido na cidade de Boa Viagem, percebendo a enorme carência no setor da educação, resolveu abrir uma escola nas proximidades da Praça Monsenhor José Cândido de Queiroz Lima, nº 64, no Centro da cidade, que passou a ser chamada de Externato Rui Barbosa:

“Fundada na década de 1950, pelo Dr. José Maria Sampaio de Carvalho, ilustre boa-viagense, residente no Rio de Janeiro. Funcionou, a princípio, na Escola Padre Antônio Correia de Sá, passando mais tarde para residência de seu fundador, onde fica hoje a casa do Sr. José Ferreira de Almeida.” (NASCIMENTO, 2002: p. 142)

Em 1955, na cidade de Fortaleza, contraiu matrimônio com Maria Lili Nogueira Diógenes Carvalho, que era nascida no dia 11 de junho de 1922, sendo filha de Deodato Celso Diógenes Filho e de Maria Emília Diógenes.
Desse matrimônio foram gerados quatro filhos, todos homens, sendo eles: Álvaro Diógenes de Carvalho, Deodato Celso Diógenes de Carvalho, César Diógenes de Carvalho e José Inácio de Carvalho Neto.
Com a proximidade do pleito eleitoral que ocorreu dia 3 de outubro de 1958, segundo pesquisas da época, o seu nome foi cotado em 70% de preferência popular entre os eleitores.

“Em meados de abril de 1958, já declarada uma das piores secas de nosso Município, a cidade de Boa Viagem foi invadida por mais de mil flagelados a procura de alimentos. Nessa ocasião aconteceu um fato inusitado, pois o prefeito fugiu da cidade quando a turba se dirigiu ao Mercado Público. Diante desse fato o Dr. José Maria tomou à frente dos flagelados e garantiu que conseguiria alimento com os comerciantes. depois disso a onda humana faminta foi conduzida pelo destemido doutor para um local aonde se fez distribuir grande quantidade de rapadura e farinha. Os fornecedores da comida foram os comerciantes Walkmar Brasil Santos, Antônio Carneiro e João Carneiro.” (SAMPAIO DE CARVALHO, 2009: p. 4)

Diante desse fato inesperado surgiu um adágio popular jocoso que dizia: “O prefeito sumiu e o Dr. José Maria assumiu!” No outro dia, depois dessa ameaça de invasão, na gestão do Prefeito Delfino de Alencar Araújo, o IFOCS, sigla da Inspetoria Federal de Obras Contras as Secas, abriu um escritório para socorrer os flagelados pela fome, tornando-se um dos maiores agentes de corrupção eleitoral da época em nosso Município:

“A direção desse escritório foi entregue aos políticos locais e ao mesmo prefeito que fugiu para não enfrentar a multidão de famintos. As famílias para serem atendidas tinham de se comprometer a votar no candidato da situação. Tinham trabalho, alimentos e remédio. Quem não se comprometesse não era atendido e o Dr. José Maria liberou os seus eleitores para que não passassem fome, pois a ameaça era que, caso ganhasse, o escritório seria transferido para cidade de Crateús”. (SAMPAIO DE CARVALHO, 2009: p. 4)

Depois disso, na disputa eleitoral ocorrida no dia 3 de outubro de 1958, concorreu pelo Poder Executivo contra o Dr. Gervásio de Queiroz Marinho, candidato do PSD, o Partido Social Democrático, que tinha como vice o nome de Manuel Stênio de Queiroz Ribeiro.

Imagem de seu material de campanha.

Imagem de seu material de campanha.

Nessa ferrenha disputa, o seu companheiro de chapa era o Agropecuarista José Bruno Maciel, e foram derrotados nas urnas por uma pequena margem de menos de trezentos votos.
Algum tempo depois dessa eleição, no pleito eleitoral ocorrido no dia 7 de outubro de 1962, ainda militando dentro dos quadros políticos da UDN, a União Democrática Nacional, concorreu e conseguiu ser eleito com o maior número de votos para uma das cadeiras da Câmara Municipal de Vereadores ao receber a confiança de 526 eleitores, sendo um dos principais apoios do Prefeito Dr. Manuel Vieira da Costa contra a composição formada pela “Oligarquia Araújo”.
Sobre o resultado desse pleito o Sr. José Vieira Filho, em sua obra autobiográfica, nos deixou o seguinte testemunho:

“Houve a eleição e, quando apuramos os votos, o Dr. Manuel Vieira da Costa (Nezinho) venceu o Sr. Deodato por uma diferença de 226 votos. Houve mais de 800 votos nulos do Sr. José Vieira Filho, e consegui vencer o Sr. Aluísio com 77 votos a mais de diferença. Valeu a vontade do povo, sufragando os candidatos, Nezinho e Mazinho, dois primos carnais, embora de partidos e palanques opostos.” (VIEIRA FILHO, 2008: p. 37)

No mesmo dia em que assumiu a sua cadeira, em 25 de março de 1963, por orientação de seu partido, resolveu licenciar-se do mesmo para dedicar-se as articulações politicas dessa gestão na cidade de Fortaleza, sendo imediatamente substituído pelo seu suplente, Antônio Tupinambá de Araújo.
Nesse mesmo dia, antes de solicitar a sua licença, entrou com projeto criando o cargo de vice-presidente da mesa diretora da Câmara Municipal, cargo em que foi escolhido o Vereador José Vieira de Lima.
Algum tempo depois da solicitação de sua licença, o chefe do Poder Executivo passou por algumas turbulências por conta da ditadura que se estabeleceu no país, instaurada no dia 1º de abril de 1964, que findou com a renúncia do Dr. Manuel Vieira da Costa em favor de seu vice-prefeito, que nos deixou o seguinte relato:

“Com este arrojo, meus adversários, já visando o pleito seguinte, viram que eu estava ganhando grande simpatia… A astúcia do presidente da UDN, Dr. José Maria Sampaio de Carvalho, ferrenho adversário, trouxe de volta o Dr. Nezinho para assumir a Prefeitura, cuja posse foi marcada para o dia 15 de fevereiro de 1966… Exerci as funções de vice-prefeito em exercício por um período de 9 (nove) meses e 15 (quinze) dias.” (VIEIRA FILHO, 2008: p. 45)

Nessa época, antes de ocorrer essa renúncia, o vice-prefeito, que era da corrente adversária da UDN, conseguiu significativo apoio da população e caso assumisse de vez essa função não poderia concorre no próximo pleito:

“Era uma grande jogada sob a inspiração do Dr. José Maria Sampaio de Carvalho, da UDN. Se eu assumisse em definitivo o restante do mandato, ficava inelegível para o pleito que se aproximava.” (VIEIRA FILHO, 2008: p. 46)

Diante dessas circunstâncias políticas, sob a sua influência, conseguiu articular para que o presidente da Câmara Municipal de Vereadores, o Sr. Cícero Carneiro Filho, assumisse o comando do Poder Executivo até o encerramento dessa gestão:

“Estávamos em plena Revolução Militar, a UDN com influência no poder central, e o Dr. José Maria Sampaio de Carvalho fez chegar às mãos do Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, através do Senador Paulo Sarasate Ferreira Lopes, o pedido para, em virtude da vacância do cargo de prefeito municipal, ser nomeado interventor municipal o Sr. Cícero Carneiro Filho.” (VIEIRA FILHO, 2008: p. 46-47)

Em 1968, desgostoso com os rumos políticos tomados pelo Município de Boa Viagem, resolveu migrar com a sua família para cidade do Rio de Janeiro, passando a residir algum tempo depois em um edifício que está localizado na Rua Jangadeiros, nº 37, apartamento 701, no Bairro de Ipanema.

“Antes disso, juntamente com a sua irmã mais velha, traçou um plano para aos poucos tirarem os seus irmãos da cidade de Boa Viagem para o Rio de Janeiro, para que no futuro não tentassem vingar a morte de seu pai.” (SAMPAIO DE CARVALHO, 2009: p. 5)

Em 2003 passou um período residindo na cidade de Fortaleza, retornando para cidade do Rio de Janeiro nos últimos meses de 2009, falecendo nessa cidade no dia 28 de novembro de 2015, aos 85 anos de idade.

Imagem do Dr. José Maria Sampaio de Carvalho visitando o Museu Cícero Pinto do Nascimento.

Imagem do Dr. José Maria Sampaio de Carvalho visitando o Museu Cícero Pinto do Nascimento.

Antes do seu falecimento, nos primeiros meses de 2014, esteve na cidade de Boa Viagem acompanhado de um de seus netos visitando alguns amigos e relembrando fatos de sua infância.

BIBLIOGRAFIA:

  1. BEZERRA DE MELO, Maria José. Ex-Educadores de Boa Viagem. Monografia apresentada ao departamento de pós-graduação e pesquisa da Universidade Estadual Vale do Acaraú, 2002.
  2. CAVALCANTE MOTA, José Aroldo. Boa Viagem, Realidade e Ficção. Fortaleza, MULTIGRAF, 1996.
  3. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  4. SAMPAIO DE CARVALHO, José Maria. Um pouco sobre a família Carvalho. Rio de Janeiro: Texto não publicado, 2009.
  5. SILVA JÚNIOR, Eliel Rafael da. Andarilhos do Sertão. A Chegada e a Instalação do Protestantismo em Boa Viagem. Fortaleza: PREMIUS, 2015.
  6. SILVA JÚNIOR, Eliel Rafael da. Maria de Lourdes Sampaio de Carvalho. Disponível em http://www.historiadeboaviagem.com.br/maria-de-lourdes-sampaio-de-carvalho/. Acesso no dia 25 de novembro de 2016.
  7. SILVA JÚNIOR, Eliel rafael da. José Inácio de Carvalho. Disponível em http://www.historiadeboaviagem.com.br/jose-inacio-de-carvalho/. Acesso no dia 16 de julho de 2016.
  8. VIEIRA FILHO, José. Minha História, Contada por Mim. Fortaleza: LCR, 2008.