Manoel Duarte de Araújo

Manoel Duarte de Araújo nasceu no dia 17 de outubro de 1853 no Município Quixeramobim, que está localizado no Sertão Central do Estado do Ceará, distante 203 quilômetros da cidade de Fortaleza, sendo filho de José Duarte de Araújo e de Isabel de Araújo.
Na época de seu nascimento, veio ao mundo pelas mãos de uma parteira nas proximidades da vila de Boa Viagem, que também era conhecida pela alcunha de “Cavalo Morto” e era apenas um pequeno povoado existente dentro dos limites geográficos do Município de Quixeramobim.

“Distrito criado com a denominação de Boa Viagem, ex-povoado de Cavalo Morto, pela lei provincial nº 1.025, de 18 de novembro de 1862. Elevado à categoria de vila com a denominação de Boa Viagem, pela lei provincial nº 1.128, de 21 de novembro de 1864, desmembrado de Quixeramobim.” (IBGE, 2010: Histórico de Boa Viagem. Disponível em http://cidades.ibge.gov.br/painel/historico.php?lang=&codmun=230240&search=ceara|boa-viagem|infograficos:-historico. Acesso no dia 13 de julho de 2017)

Alguns anos depois, no dia 21 de novembro de 1864, quando tinha apenas 11 anos de idade, o Distrito de Boa Viagem passou a condição de Município, recebendo do presidente da Província do Ceará, o Dr. Lafayette Rodrigues Pereira, que ficou conhecido na história do Estado do Ceará como o “Conselheiro Lafayette”, as condições necessárias para ter a sua tão sonhada autonomia administrativa:

“Art. 4º – A villa será inaugurada quando tiver Casa de Câmara e Cadeia.”

Pouco tempo depois, nos primeiros meses de 1869, conforme as informações existentes no Arquivo Público do Estado do Ceará, caixa nº 27, ofício emitido no dia 1º de junho de 1873, os seus pais, desejando cumprir o que a lei exigia, fizeram uma importante doação à municipalidade boa-viagense:

“A Câmara Municipal d’esta villa, em observância das ordens d’essa presidência, contida em offícios circulares nº 8 e 9, de 12 de abril findo, informam a vossa excelência o seguinte: 1º O cidadão José Duarte de Araújo e a sua mulher fizeram donactivo d’uma casa que possuíam n’esta villa para servir a mesma de cadeia, isto no ano de 1869, quando foi inaugurada esta villa. Deu-se o facto de ter cahido este prédio em consequência das estações invernosas n’estes últimos tempos, convindo a declarar vossa excelência… se acha essa villa sem um prédio que sirva para cadeia, isto por que os habitantes que os possui não querem allugar. Clama portanto esta Câmara a maior attenção de vossa excelência a fim d’que o corpo legislativo em sua próxima reunião vote uma quantia afim de que se compre um prédio ou mesmo se edifique, contanto que tenha os precisos compartimentos para tal fim…”

Pouco tempo depois, no dia 25 de agosto de 1874, com apenas 21 anos de idade, conforme informações existentes na página 119 do livro de tombo dos casamentos da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem, diante do Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes, contraiu matrimônio com Maria Amélia da Glória, que depois passou a assinar com o sobrenome de Araújo, que era nascida no dia 24 de dezembro de 1854, sendo filha do agropecuarista Antônio Marinho Falcão com Maria Ignácia de Jesus, também residentes em nosso Município.
Depois de casado, residiu durante algum tempo na Rua Antônio Domingues Alvares, nº 343, no Centro da cidade de Boa Viagem.

Imagem da residência de Manoel Duarte de Araújo, em 2018.

No ano seguinte, no dia 22 de agosto, conforme informações existentes no livro C-01, pertencente ao Cartório Geraldina, 1º Ofício, tombo nº 205, folha 116v, regularizou o seu estado civil diante do Estado.
Desse matrimônio foram gerados vários filhos, dentre eles destacamos os seguintes nomes: João Batista Araújo, Ernestina Engrácia de Araújo, Francisca Amélia Ribeiro, José Rangel de AraújoManoel Araújo Marinho, José Duarte de Araújo, Maria Emília Araújo de Carvalho e Francisco Duarte de Araújo.
No dia 18 de setembro de 1883, na qualificação do conselho dos guardas ativos do 52º Batalhão da Guarda Nacional de Boa Viagem, o seu nome figurou com a matrícula nº 110 no “Quarteirão da Pitombeira”, onde foi designado como soldado de linha.
O 52º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional foi criado através do decreto nº 4.520, de 28 de abril de 1870, sendo desmembrado do Município de Quixeramobim e tinha como comandante o Tenente Coronel José da Silva Bezerra.
O “Pai Araújo”, como ficou popularmente conhecido, durante muitos anos exerceu um importante papel na política de nosso Município, conseguindo obter três mandatos eletivos no Poder Legislativo boa-viagense.
Na eleição municipal ocorrida no dia 29 de maio de 1892, nos primeiros anos do Governo Republicano, desejando entrar na vida pública conquistando uma das cadeiras da Câmara Municipal de Vereadores, militando no Partido Republicano, conseguiu ser eleito para o exercício da função de edil, tomando posse do seu mandato no dia 15 de outubro de 1892 e encerrando essa função no dia 10 de junho de 1896.

Casa de Câmara e Cadeia do Município de Boa Viagem.

Imagem da Casa de Câmara e Cadeia do Município de Boa Viagem na década de 1950.

Algum tempo antes disso, na eleição municipal que ocorreu no dia 5 de maio de 1896, militando no mesmo partido, conseguiu ser reconduzido para o exercício de seu mandato na legislatura que teve início no dia 10 de junho de 1896 e foi concluído no dia 10 de junho de 1900.
Mais tarde, depois de ter sido conduzido a um terceiro mandato, exerceu a legislatura que ocorreu entre o dia 10 de junho de 1900 e o dia 10 de junho de 1904.
Nessa legislatura, entre as ações de maior importância, está o registro no ofício enviado no dia 2 de outubro de 1902 ao presidente do Estado do Ceará, o Dr. Pedro Augusto Borges, relatando o estado de penúria e de miséria em que se encontrava a nossa população, que nessa época era castigada por uma terrível seca:

“Paço da Câmara Municipal da vila de Boa Viagem em 2 de outubro de 1900. Exmo. Sr. O acrisolado espírito de patriotismo de V. Exc. o amor as instituições republicanas e o extremo interesse pela prosperidade desse Estado, mormente na crise calamitosa porque ele passa, com uma secca exterminadora, acompanhada de assombroso cortejo da peste…. para satisfazer um restricto e sagrado dever, não só para scientificar a V. Exc. o estado de miséria a que está reduzido a este Município…. Este Município, Exmo. Sr. Não tendo tido ao menos uma chuva regular, ficou todo ele reduzido a miséria pela falta de pastagem e água e nestas circunstancias a população esgotada de meios para sua subsistência em conseqüência da seca do anno de 1898 e extraordinárias inundações feitas pelo inverno do anno próximo passado, grande parte dela emigrou…. que vai extinguindo o gado vacum e cavallar, a peste assolando em diversos Municípios e a população inanida morrendo de fome…” (MOTA, 1999: p. 90)

Depois disso, mesmo sem um mandato eletivo, conseguiu exercer uma forte influência no surgimento de uma oligarquia que durante anos conseguiu definir o destino político do Município de Boa Viagem:

“Os Araújos, família rica e filiada a outras das mais antigas do norte do Ceará, vivia na mesma região [Sertão de Canindé], tendo como sede principal a povoação de Boa Viagem.” (SIMÃO, 1996: p. 190)

Lápide

Imagem de sua lápide mortuária, em 2010.

Em sua época, como representante do povo, sem uma legislação específica que obrigasse o envio de recursos por parte do Governo Federal ou Estadual para os Municípios, Boa Viagem sobrevivia de suas próprias rendas.
Por conta disso, fica fácil de imaginar que o erário público municipal era bastante limitado e a receita dos poucos impostos que se conseguia coletar por aqui vinham dos agropecuaristas, comerciantes, tropeiros ou circos que eventualmente se estabeleciam na vila de Boa Viagem.
Acreditamos que o seu desemprenho parlamentar, não diferente dos demais vereadores dessa época, se limitou a resolução de pequenos conflitos de jurisdição existente nas fronteiras dos Municípios de Quixeramobim e Maria Pereira, atual Mombaça, o que ocasionava significativo impacto no erário do Município de Boa Viagem.
Outra responsabilidade que também repousava nos ombros dos vereadores da época era o de garantir o livre acesso dos cidadãos às cacimbas e aos poços existentes no Rio Boa Viagem, à limpeza e a salubridade das ruas como também a convocação do efetivo militar que compunham às tropas da Guarda Nacional, quando necessário:

“A Guarda Nacional foi uma força paramilitar organizada por lei no Brasil durante o período regencial em agosto de 1831 para servir de ‘sentinela da constituição jurada’ e desmobilizada em setembro de 1922. No ato de sua criação lia-se: ‘Com a criação da Guarda Nacional foram extintos os antigos corpos de milícias, as ordenanças e as guardas municipais’. Em 1850 a Guarda Nacional foi reorganizada e manteve suas competências subordinadas ao ministro da Justiça e aos presidentes de província. Em 1873 ocorreu uma nova reforma que diminuiu a importância da instituição em relação ao Exército Brasileiro. Com o advento da República a Guarda Nacional foi transferida em 1892 para o Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Em 1918 passou a Guarda Nacional a ser subordinada ao Ministério de Guerra através da organização do Exército Nacional de 2ª linha, que constituiu de certo modo sua absorção pelo Exército.” (DANNEMANN, 2002: p. 23)

Outro grave problema surgido em sua época, além da seca e das crises por água, foi o surgimento de uma epidemia de varíola, que dizimou muitas pessoas e colocou em pânico parte de nossa população.
Segundo as informações contidas no relatório do Recenseamento dos Estabelecimentos Rurais do Estado do Ceará, documento que foi publicado no dia 1º de setembro de 1920 pelo Ministério da Agricultura, Comércio e Indústria, página 35, era agropecuarista e a sua propriedade estava localizada em um local denominado de Fazenda Retiro.
Alguns anos depois, no início da década de 1930, já no fim da República Velha, o Brasil possuía 1.407 Municípios e muitos deles só representavam prejuízos para os cofres públicos.
Nesse tempo a grande maioria desses Municípios possuíam uma máquina administrativa que era totalmente financiada com recursos do Governo Federal e pela insistente imposição dos coronéis.
No Município de Boa Viagem seguidos anos de secas fizeram com que a cotonicultura e a criação de gado lograssem grandes prejuízos, fazendo com que muitos moradores migrassem para outras cidades ou regiões do país e deixando a elite da terra praticamente na miséria.
Pouco tempo depois, no dia 20 de maio de 1931, o Dr. Manoel do Nascimento Fernandes Távora, interventor federal do Estado do Ceará, decretou a extinção do Município de Boa Viagem:

“O interventor federal do Estado do Ceará, Dr. Manoel do Nascimento Fernandes Távora, considerando que a atual organização municipal deve ser modificada por não atender ao interesse público; Considerando que, para a constituição de qualquer Município, se torna necessária uma população nunca menor de quinze mil habitantes, uma renda anual não inferior a trinta contos de reis e outros fatores de valor; Considerando que muitos dos atuais Municípios não preenchem esses requisitos, sendo meras expressões territoriais, sem vida própria. Considerando que, dest’art, para proporcionar aos municípios uma existência normal, se impõe a supressão de alguns deles, decreta: Art. 1º – O território do Estado divide-se, administrativamente; em 51 Municípios e estes em distritos. Art. 4º – Ficam extintos os seguintes Municípios:…. Campos Sales, Conceição do Cariry, Santa Cruz, Várzea Alegre…. Boa Viagem que passará respectivamente a fazer parte do Município de Quixeramobim…” (MOTA, 1989: p. 38-39)

Com essa decisão repentina, toda a influência conquistada pela “Oligarquia Araújo” no cenário político estadual parecia ter chegado ao fim, justamente no momento em que um de seus filhos, Manuel Araújo Marinho, assumiria a cadeira do Poder Executivo:

“O senhor Luiz Ximenes Aragão permaneceu até 1930, tempo em que foi realizada a segunda eleição, com a vitória do senhor Manoel Araújo Marinho, que administrou por pouco tempo, pois em 28 de outubro de 193o, o Dr. Manoel do Nascimento Fernandes Távora, interventor do Estado, nomeou interventor de Boa Viagem, Teodoro Amaro de Oliveira, que administrou até 20 de maio de 1931, quando o Município foi extinto.” (NASCIMENTO, 2002: p. 65)

Algum tempo depois, no dia 2 de fevereiro de 1935, outro fato lamentável se abateu sobre o chefe da poderosa família, aos 82 anos de idade e prestes a completar 60 anos de convivência conjugal a sua companheira veio a óbito deixando-lhe viúvo sob os cuidados de um de seus filhos, José Rangel de Araújo.
Pouco tempo depois desse triste fato, no dia 28 de dezembro de 1936, graças a amizade de um de seus netos com o interventor do Estado, o Dr. Francisco de Menezes Pimentel, o Município de Boa Viagem foi restaurado e o seu filho, José Rangel de Araújo, foi indicado como interventor.
No dia 7 de agosto de 1938, ainda residindo com o seu filho, uma nova tristeza abateu-se sobre a sua vida quando o seu neto, Francisco Rangel de Araújo, um jovem promissor que estava prestes a concluir o curso de Agronomia, sofreu um trágico acidente automobilístico e não consegue resistir aos ferimentos do desastre. Conta-se que essa notícia deixou a sua nora em desespero e pouco tempo depois a tristeza ceifou-lhe à vida:

“Ao falar do Agronomando Rangel, filho do ex-prefeito José Rangel de Araújo, meu tio, lembro-me perfeitamente dele quando adolescente, como aluno do Colégio Cearense. Às tardes, no período de férias, costumava vestir sua farda para seus passeios pela cidade. Morreu tragicamente, em 1938, já no final do curso de Agronomia, em um desastre de automóvel, um conversível com capota de pano arreada, quando seguia para um baile em Guaramiranga, na Serra do Baturité. Viajava com três amigos, dois companheiros concluintes do curso de agronomia e o seu primo, Glaydstone Alencar de Araújo. Seu colega Sinobilino Pinheiro, rapaz de valor intelectual, estava ao volante do carro. Chico Rangel, como era conhecido, viajava ao seu lado. E, no banco traseiro, formado com o encosto da porta da mala aberta, viajavam o Glaydstone e o outro colega. Numa curva da estrada depois de Maranguape, o carro capotou, matando, na hora, o Chico e o Sinobilino. Os outros dois saíram gravemente feridos, mas escaparam.” (CARVALHO FILHO, 2008: p. 48-49)

Mais tarde, no dia 31 de janeiro de 1939, segundo informações existentes no livro C-02, pertencente ao Cartório Geraldina, tombo nº 524, folha 14v, aos 86 anos de idade, exalou o seu último suspiro de vida.
Depois de sua morte, logo após as despedidas fúnebres que são de costume, o seu corpo foi sepultado no mausoléu da família, ao lado de sua querida esposa, no Cemitério Parque da Saudade, que está localizado na Rua Joaquim Rabêlo e Silva, nº 295, no Centro da cidade de Boa Viagem.

Túmulo de Manoel Duarte Araújo

Imagem do mausoléu da Família Araújo, em 2013.

BIBLIOGRAFIA:

  1. CARVALHO FILHO, José Cândido. Boa Viagem da Minha Infância. São Paulo: Thesaurus/Itiquira, 2008.
  2. IBGE. Histórico do Município de Boa Viagem. Disponível em http://cidades.ibge.gov.br/painel/historico.php?lang=&codmun=230240&search=ceara|boa-viagem|infograficos:-historico. Acesso no dia 13 de julho de 2017.
  3. MOTA, José Aroldo Cavalcante. História Política do Ceará (1930-1945). Fortaleza: Stylus Comunicações, 1989
  4. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  5. SIMÃO, Marum. Quixeramobim, Recompondo a História. Fortaleza: Multigraf, 1996.

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