Casarão das Almas

AS INFORMAÇÕES BÁSICAS:

A casa que durante anos serviu como a sede da Fazenda Almas está localizada dentro do Distrito Sede do Município de Boa Viagem, distante 16 quilômetros da cidade de Boa Viagem, na mesma estrada que nos leva à vila de Ipiranga, no Estado do Ceará.

Casarão das Almas, em 2000.

Imagem do Casarão da Fazenda Almas, na década de 1990.

Essa bela edificação, que já é centenária, classificada por muitos como um dos potenciais pontos do roteiro turístico de nossa região, lamentavelmente ainda não foi tombada como patrimônio histórico, cultural, arquitetônico e paisagístico da Secretaria da Cultura, Turismo e Lazer do Município.
O descaso com esse tipo de equipamento é algo que dificulta o alavancamento do desenvolvimento turístico do Município de Boa Viagem:

“O tombamento é o ato de reconhecimento do valor cultural de um bem, que o transforma em patrimônio oficial e institui um regime jurídico especial de propriedade, levando em conta a sua função social. Um bem cultural é ‘tombado’ quando passa a figurar na relação de bens culturais que tiveram a sua importância histórica, artística ou cultural reconhecida por algum órgão que tem essa atribuição.” (S.N.T)

COMO CHEGAR:

Saindo do Marco Zero do Município, que está localizado no Centro da cidade de Boa Viagem, segue em direção à Rua Deodato José Ramalho, nome urbano da Rodovia Estadual Senador Fernandes Távora, a CE-266, na direção do Município de Tamboril.
A cruzar com à Rua Joaquim Bezerra da Costa Mendes toma direção à esquerda até a localidade denominada de Jatobá, daí segue até a localidade de Trapiazeiro, depois Cachoeira dos Vales, passando ao lado da Barragem Presidente Tancredo de Almeida Neves, na localidade de Poço da Cobra, seguindo em direção da localidade de Cachoeira dos Vales até atingir o destino.

A AQUISIÇÃO DA PROPRIEDADE E A CONSTRUÇÃO DA SEDE DA FAZENDA:

Essa casa, que foi plenamente construída com a mão-de-obra escrava, teve a sua edificação concluída por volta de 1840 e ainda hoje nos consegue dar uma clara noção da riqueza adquirida pelos produtores de nossa região na exploração do gado de corte e da cotonicultura.
O seu primeiro proprietário, o Coronel Vitoriano Rodrigues Pires, era um agropecuarista de origem portuguesa que, ao contrário do que muitos pensam, se estabeleceu nessa região em terras devolutas do governo e não em terras que foram concedidas através de carta de sesmaria:

“A sesmaria foi o amparo jurídico português que serviu para normatizar a distribuição de terras destinadas à produção. O Estado, recém-formado e sem capacidade para organizar à produção de alimentos, decidiu legar a particulares essa função. Este sistema surgiu em Portugal durante o século XIV, com a Lei das Sesmarias de 1375, criada para combater a crise agrícola e econômica que atingia o país e a Europa, e que a peste negra agravara. Quando a conquista do território brasileiro se efetivou, a partir de 1530, o Estado português decidiu utilizar o sistema sesmarial no além-mar, com algumas adaptações. O sistema sesmarial perdurou no Brasil até o dia 17 de julho de 1822, quando a Resolução nº 76, atribuída a José Bonifácio de Andrade e Silva, pôs termo a este regime de apropriação de terras. A partir daí a posse passou a campear livremente no país, estendendo-se esta situação até a promulgação da lei de terras, que reconheceu as sesmarias antigas, ratificou formalmente o regime das posses, e instituiu a compra como a única forma de obtenção de terras.” (S.N.T)

Hipoteticamente, pela época em que foi editada a Resolução nº 76, ainda no governo de Dom Pedro I, podemos deduzir que essas terras talvez já tivessem algum proprietário, já que essa região já era bastante habitada e o seu estabelecimento, por não ter sido casual, nos leva a crer que ele tenha adquirido essas terras de outro proprietário, provavelmente em Pernambuco.
Esse pioneiro da conquista do Sertão de Canindé não chegou sozinho, ele era casado com Ana Gonçalves Leal, e depois de estabelecido, rotineiramente, mantinha uma linha de transação comercial com à Província de Pernambuco, para onde costumava levar mercadorias “in natura” e trazia artigos inexistentes em nossa região em suas tropas de burros.

A ESTRUTURA FÍSICA E ARQUITETÔNICA:

Na construção dessa casa, que possui dois pavimentos, foram utilizados materiais em grande disponibilidade em nossa região, ou seja, praticamente nada foi trazido de fora, só a mão-de-obra, os pregos e as ferramentas.
A madeira, que na época existia em abundância, foi selecionada, cortada e depois classificada em caibros, linhas, ripas e tábuas. Os tijolos e as telhas foram fabricadas e depois queimadas em caieiras nas proximidades da construção, tudo com a mão-de-obra escrava e a supervisão de um feitor.

Casarão das Almas.

Imagem de uma amostra do material de construção do Casarão das Almas.

Sobre esses tijolos e telhas, constatamos que os mesmos não seguem um padrão específico, ou seja, uma peça difere das outras em peso, tamanho, espessura e acabamento:

  • Tijolo:
  1. Peso: Em média 12 quilos;
  2. Dimensões: 0,38 cm X 0,17 cm;
  3. Altura: 0,10 cm.
  • Telha:
  1. Peso: Em média 6 quilos;
  2. Dimensões: 0,60 cm X 0,20 cm
  3. Tamanho: 0,02 cm.

Constatamos também que existia uma forma de madeira para se fazer os tijolos, todavia as telhas, que eram feitas nas coxas dos escravos, eram feitas de acordo com a perna de cada escravo, fato que tornavam as telhas irregulares:

“A expressão popular ‘nas coxas’ vem do tempo da escravidão. Naquela altura, quando não havia forma para fazer as telhas, estas eram feitas nas pernas dos escravos, mais propriamente nas suas coxas para dar o formato arredondado da telha. Como era natural, cada escravo tinha o seu porte físico específico, o que significava que as telhas nunca saíam iguais. Desta forma, e porque as telhas ficavam irregulares, os telhados muitas vezes ficavam desnivelados. Assim, até os dias de hoje, quando alguém cumpre alguma tarefa sem capricho, sem primor, é dito que essa tarefa foi feita ‘nas coxas’.” (S.N.T)

Atualmente, essa casa ainda mantem muito de sua originalidade, apesar de que, por necessidades de funcionalidade, vem sofrendo ao longo dos anos algumas pequenas modificações internas, mas nada que lhe comprometa à estrutura.

AS LENDAS EM TORNO DESSA CASA:

Ainda hoje algumas pessoas, por simples curiosidade ou medo de passar sozinhas por perto dela no horário noturno, constantemente nos perguntam por qual motivo essa casa recebeu esse nome.

Casarão das Almas.

Imagem do Casarão das Almas, em 2008.

Sobre esse assunto temos o conhecimento da existência de duas versões, e que provavelmente possa ser até uma só história.
A primeira delas nos diz que os pais do Sr. Vitoriano, que provavelmente residissem na Província de Pernambuco, possuíam uma fazenda denominada de “Almas” e que ele apenas reproduziu em suas terras no Ceará o nome da propriedade de seus pais.
A segunda versão, que não contradiz a primeira, diz que, quando essa casa estava sendo construída, um dos escravos interpelou ao Sr. Vitoriano sobre o porquê da construção de uma casa tão grande, visto que o mesmo não tinha filhos.
O mesmo prontamente respondeu ao escravo, não sabemos se em tom de brincadeira, deboche ou com ironia, que “essa casa serviria de morada para as almas depois de sua morte”.
Independentemente de qual versão seja a verdadeira, o que temos certeza é que o nome dessa fazenda até os dias de hoje ainda é utilizado.
Outro acontecimento envolvendo os moradores dessa casa foi produzido pela história de um amor proibido, acontecida por volta de 1908, e que tem como personagem principal uma das filhas do Capitão Francisco Nunes de Rezende Oliveira, que se chamava Luzia Albina de Araújo, que queria ardentemente casar com José Rangel de Araújo, filho de Manoel Duarte de Araújo, herdeiro de uma das mais tradicionais famílias da região e que, posteriormente, chegou a ser prefeito do Município de Boa Viagem.
Esse amor era publicamente percebido quando ela vinha à cidade e só conseguia ser correspondido através de flertes e bilhetes, pois esse relacionamento, não sabemos por qual motivo, provavelmente envolvia problemas políticos, não era bem visto pelos olhos do capitão.
Certo dia, contrariando a vontade dos seus pais e previamente combinado com o seu amor, resolveu fugir de casa, nada de incomum para essa época, se não fosse a astúcia utilizada pelos envolvidos nessa fuga.
Dentro da casa, as filhas do capitão eram cuidadosamente “guardadas” no sótão, dali só poderiam sair com permissão pela escada ou escondidas por uma janela que fica próximo à cumeeira da casa, a uns 8 metros do chão, algo que desanimaria qualquer “Romeu”.
Nessa noite, alta madrugada, tirando proveito da lua e contando com uma aliada, uma de suas irmãs, sorrateiramente desceram a escada, saiu pela porta, que foi fechada por sua irmã após a sua passagem, e correu para os braços do seu amor, que sinalizava a sua posição com um cigarro em brasa dentro do mato.
Momentos antes dessa calculada ação, para não incriminar a sua irmã ou outras pessoas inocentes, deixou um pista bem clara de sua fuga, amarrou alguns lençóis formando uma espécie de corda, e em seguida prendeu uma de suas pontas no caibro da cumeeira, fazendo com que o seu pai, inocentemente, pensasse que ela tinha fugido pela janela da cumeeira.
Dias depois, “não tendo mais jeito”, o matrimônio foi celebrado pelo Mons. José Cândido de Queiroz Lima na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem.
Essas são apenas algumas das várias histórias, ou estórias, que envolvem o nome desse belo e misterioso casarão.

O HERDEIRO:

Como nos referimos anteriormente ao casal, Coronel Vitoriano Rodrigues Pires e Ana Gonçalves Leal, que não tinham filhos, e quando vieram de Pernambuco não chegaram sozinhos, trouxeram escravos, agregados e provavelmente alguns parentes para nossa região.
Essa suposição é fundamentada pela dificuldade em montar e equipar uma propriedade dessa dimensão, em que uma das peças principais dessa estrutura agrária seriam as pessoas de confiança.
Com o passar dos anos uma das crianças que nasceram nessa propriedade, provavelmente o filho de um parente, recebeu à simpatia de seus proprietários e tornaram-se seus padrinhos.
Da relação de compadrio com essa criança, que se chamava Francisco Nunes de Rezende Oliveira, desenvolveu-se uma forte amizade, ao ponto dela vir a se tornar o herdeira universal de seus bens.
Alguns anos mais tarde, depois da emancipação política do Município de Boa Viagem, acontecida no dia 21 de novembro de 1864, o Capitão Francisco Nunes de Rezende Oliveira, que já havia constituído uma numerosa família, ganhou projeção política quando conseguiu chegar a uma das cadeiras do Poder Legislativo municipal.
Pouco tempo depois, no dia 1º de agosto de 1875, no periódico O Cearense, ano XXIX, nº 60, página 3, temos uma breve notícias desse casal:

“Com prazer registramos hoje uma dessas ações que tem em si o maior elogio dos sentimentos elevados de quem os pratica. A Exma. Srª. Anna Gonçalves Leal, viúva do Coronel Vitoriano Rodrigues Pires, e falecida ainda a pouco entre os importantes legados que fez, deixou um de seis contos de réis ao Asilo de Alienados e Casa de Misericórdia. Esta ação é mais uma prova da bondade da alma, dos sentimentos de caridade e filantropia de que era dotada aquela senhora, cuja perda choram quantos a conheceram de perto.”

UMA TRADIÇÃO QUE SE RENOVA A CADA DIA:

O Capitão Francisco Nunes de Rezende Oliveira era casado com Maria Ditosa do Vale Oliveira, com quem gerou 14 filhos, entre eles, a filha caçula, Júlia Altina de Oliveira, que recebeu a casa dentro da partilha da herança de seus pais, contraiu matrimônio duas vezes e dessas relações conseguiu gerar seis filhos.
Do primeiro casamento, com João Emídio de Oliveira, foram geradas três filhas: Beatriz Bezerra de Morais, Odélia Oliveira Guerreiro e Áurea de Oliveira Sampaio, até que ficou viúva.
Alguns anos mais tarde, ao assumir um novo relacionamento conjugal, dessa vez com Francisco Lopes de Alencar, com quem gerou mais três filhos: Nair Oliveira de Sousa, Zenon Alencar Oliveira e Antônio Oliveira Alencar.
Desses filhos coube ao Dr. Zenon Alencar Oliveira, escritor e engenheiro agrônomo, casado com Marion Mesquita Alencar, a honra de dar continuidade a tradição que ainda existe nesse belo casarão.

Dr. Zenon e sua esposa, Marion Mesquita.

Imagem do Dr. Zenon Alencar Oliveira e a sua querida esposa, Marion Mesquita Alencar.

AS SUAS CARACTERÍSTICAS:

Acessibilidade: Não.
Administração: Particular.
Água: Sim.
Altitude: 338 mts.
Área:
Coordenadas: S 05° 09′ 10.9” W 034° 50′ 04.8”
Iluminação: Sim.
Vigilância: Sim.