Francisco Deoclécio Ramalho

Francisco Deoclécio Ramalho nasceu no dia 3 de abril de 1900 no Município de Boa Viagem, que está localizado no Sertão de Canindé, no Estado do Ceará, distante 217 quilômetros da cidade de Fortaleza, sendo filho de Deodato José Ramalho e de Ana Dionísia Ramalho.
Os seus avós paternos se chamavam José Ramalho e Josefa Ramalho Santiago, já os maternos eram Virgílio Cândido de Oliveira e Balbina Alves Leal.
Ainda sabemos pouca coisa de sua infância, temos conhecimento apenas de que em sua juventude, por volta de 1916, no governo do Coronel Salviano de Sousa Leitão, participou da formação da primeira banda filarmônica existente no Município de Boa Viagem.

“A primeira banda de música de Boa Viagem foi organizada pelo Cel. Salviano de Sousa Leitão, juntamente com o maestro Raimundo Avelino Pinheiro, notável clarinetista. Os músicos, além do maestro, eram: Francisco Deoclécio Ramalho, Luiz Araújo, Davi Venâncio, Raimundo Rosa e mais alguns.” (NASCIMENTO, 2002: p. 165)

Essa banda, que também foi regida pelo Maestro João Avelino Pinheiro, depois passou aos cuidados  da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem e costumava se apresentar nos festejos religiosos que aconteciam nas cidades vizinhas, entre elas na cidade de Quixeramobim:

“O mestre com os seus discípulos foram hospedados numa casa vizinha à nossa, na Praça do Cotovelo, fazendo a boia em casas de amigos da comissão encarregada da festa. Entre os músicos havia um varapau que atendia pelo nome de Francisco Deoclécio Ramalho. Era conhecido como sovina e de fato era um cauira de primeira ordem. Não gastava um tostão sem ser à força bruta e assim se casou, ganhou um sogro inimigo, ficou rico, enviuvou, casou de novo e envelheceu.” (BARROS LEAL, 1983: p. 147)

Mais tarde, nos últimos meses de 1919, na gestão do Coronel José Cândido de Carvalho, trabalhou como servente nas obras de construção do Mercado Público Municipal Jessé Alves da Silva:

“Homem trabalhador…, tal como a sua única irmã, Josepha Ramalho Tavares, dona Zefinha, um ano mais velha do que ele e que também se notabilizou pelo trabalho… trabalhou como operário na construção do Mercado Público de Boa Viagem, atividade que lhe rendeu um grave ferimento na perna, quando abastecia a obra com água, por um equipamento chamado boladeira.” (MARINHO, 2014: p. 94)

No dia 7 de agosto de 1925, juntamente com os seus familiares, foi surpreendido pelo inesperado falecimento de sua mãe, que veio a óbito com apenas 57 anos de idade.
Nessa mesma época, enamorando-se da filha de um prestigiado político e rico agropecuarista de nosso Município, viveu o triste dilema da rejeição de sua família por conta de sua condição social, o que não o fez desistir de seu romance.

“Para afastar os jovens apaixonados, o pai mandou a filha Maria Letícia para estudar na cidade de Baturité, como interna.” (MARINHO, 2014: p. 93)

Sobre esse período de sua vida, em um texto redigido pelo escritor e farmacêutico Antenor Gomes de Barros Leal, descobrimos o seguinte relato:

“Um dia pretendeu roubar uma moça, Letícia, filha do Cel. José Leal de Oliveira, que não admitia a união dos namorados. Combinou dia e hora e, como não cumpriu o trato, a moça resolveu raptá-lo. Fugiu para casa de José Inácio e imediatamente mandou avisar. Deoclécio recebeu a notícia e tão depressa foi à farmácia tomar um calmante e pedir conselhos. Estava gago e gelado que fazia dó. Está visto que empurrei o moleirão para dentro do fogo e para apagá-lo custou-me caro, pois só consegui as pazes do pai com a filha anos depois, com a interferência de D. Manoel da Silva Gomes, de quem éramos amigos, Zé Leal e eu”.  (BARROS LEAL, 1983: p. 148)

Algum tempo depois desse episódio, no dia 3 de janeiro de 1926, diante do Mons. José Cândido de Queiroz Lima, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem, contraiu matrimônio com Maria Letícia de Queiroz Ramalho, que era nascida no dia 15 de agosto de 1904, sendo filha de José Leal de Oliveira com Maria Sabina de Queiroz Oliveira.
Pouco tempo depois de seu casamento religioso, no dia 25 de abril, segundo informações existentes no livro B-05, pertencente ao Cartório Geraldina, 1º Ofício, folha 57, confirmou os seus votos de matrimônio diante do juiz de casamentos.
Desse matrimônio foram gerados onze filhos, cinco mulheres e seis homens, sendo eles: Rita de Queiroz Ramalho, José de Queiroz Ramalho, Deodato José Ramalho, Ana Ramalho Rabêlo, José Cândido de Queiroz Ramalho, Maria Leoclécia de Queiroz Ramalho, Décio de Queiroz Ramalho, Renato de Queiroz Ramalho, Maria Nilce Ramalho da Silva, Maria Letícia Queiroz Ramalho e Francisco Deoclécio Ramalho Filho.
Mais tarde, no dia 3 de outubro de 1947, de acordo com as informações contidas no livro C-04, pertencente ao Cartório Geraldina, tombo nº 1.214, folha 90, perdeu a sua esposa, que na época tinha apenas 32 anos de idade.
Pouco tempo depois desse fato, no dia 7 de dezembro, segundo informações de sua família, desejando entrar na vida pública por meio de uma das cadeiras da Câmara Municipal de Vereadores, colocou o seu nome na disputa dessa eleição, conseguindo receber apenas 40 votos, ficando na suplência de seu partido.
Nessa campanha, amargando a dor do luto, perdeu o fôlego e o estimulo por sua candidatura.
Alguns meses depois desse fato, em 1948, contraiu um novo matrimônio, dessa vez com Francisca Ivani Citó Ramalho, que era nascida no dia 8 de fevereiro de 1924, sendo filha de Joaquim Leopoldino de Araújo Citó e de Francisca de Carvalho Citó.

Imagem de Francisco Deoclécio Ramalho acompanhado de sua esposa, Francisca Ivani Citó Ramalho.

Desse novo relacionamento conjugal foram gerados cinco filhos, dois homens e três mulheres, sendo eles: Maria José Citó Ramalho, Maria Mazzarello Citó Ramalho, Antônio Citó Ramalho, José Williams Citó Ramalho e Juvenília Maria Ramalho Rolim.
Aos poucos, graças ao seu trabalho e as muitas economias, conseguiu juntar uma invejável fortuna, que era constituída em gado e outros semoventes, propriedades e muitos imóveis, rurais e urbanos:

“Desenvolveu diversas atividades até se identificar com o ramo de negociante de gado bovino, estabelecendo-se como um dos mais importantes fazendeiros e negociantes de gado da região, serviço que desenvolveu durante todo o restante de sua vida… Foi um dos maiores fornecedores de animais vivos para a cidade de Fortaleza, que eram transportados inicialmente a pé, sob a condução dos tangerinos… Amealhou, pela força do trabalho, significativo patrimônio imobiliário, como as fazendas: Santarém (Saco), Sussuarana, Aleixo, Santos Cosmo, Jacaúna, Gurupá e Prado, como também em grandes áreas urbanas, áreas que hoje formam os Bairros Vila Azul, Boaviaginha, Alto da Queiroz.” (MARINHO, 2014: p. 94-95)

No dia 5 de agosto de 1978, de forma inesperada, foi surpreendido com a triste notícia do repentino falecimento de seu filho, Deodato José Ramalho, que com apenas 47 anos de idade veio a óbito, nas imediações da cidade de Fortaleza, vítima de um ataque cardíaco fulminante.
Durante muitos anos residiu com a sua família na Rua Agronomando Rangel, nº 310, no Centro da cidade de Boa Viagem.

Imagem da residência de Francisco Deoclécio Ramalho, em 2011.

Nos últimos meses de 1975 passou por um grande susto, quando sofreu um infarto no miocárdio que quase tirou-lhe à vida.
Detentor de várias propriedades ao redor da cidade, a partir dessa época começou a negociar vários lotes de terra para pessoas interessadas em residir na periferia da cidade:

“Com fama de pessoa segura, o chamado ‘mão de vaca’, o que não impediu, contraditoriamente, de ter sido o homem de posses de Boa Viagem que mais foi sensível às dificuldades dos pobres, tendo se constituído no maior benfeitor daqueles que não tinham condições de comprar seu ‘pedaço de chão’, para fixar sua morada… Além de vender lotes baratos, facilitava, enormemente, essas vendas, com o pagamento sendo realizado em módicas prestações, com prazos elásticos, sem incidência de juros ou acréscimos.” (MARINHO, 2014: p. 95-96)

Alguns anos mais tarde, segundo as informações contidas no livro C-04, também pertencente ao Cartório Geraldina, tombo nº 1.626, folha 39v, faleceu aos 86 anos de idade, vítima de enfarte do miocárdio, que foi constatado pelo Dr. Francisco Segismundo Rodrigues dos Santos Neto, no dia 21 de junho de 1986.
Logo após o seu falecimento, depois das despedidas fúnebres que são de costume, o seu corpo foi sepultado no mausoléu da família existente no Cemitério Parque da Saudade, que está localizado na Rua Joaquim Rabêlo e Silva, n° 295, Centro.

Mausoléu da família Queiroz Ramalho.

Imagem do mausoléu da Família Queiroz Ramalho.

HOMENAGEM PÓSTUMA:

  1. Em sua memória, na gestão do Prefeito Benjamim Alves da Silva, através da lei nº 459, de 21 de março de 1988, uma das ruas que se estendem pelos Bairros Vila Azul e Alto do Motor, na cidade de Boa Viagem, recebeu a sua nomenclatura.