Maria Rosary Pereira

Maria-Rosary-PereiraMaria Rosary Pereira nasceu no dia 16 de outubro de 1946 na cidade de Fortaleza, capital do Estado do Ceará, distante 217 quilômetros da cidade de Boa Viagem, sendo filha de José Pereira Barbosa e de Maria do Carmo Pereira.
Logo que nasceu, por ser de família de confissão católica, os seus pais optaram em dar-lhe um nome seguindo a sugestão de sua avó materna, dona Florzinha, que tirou da ladainha latina em homenagem a Nossa Senhora, “reginae sacratissimi rosari”, que significa rosário, a denominação de sua pessoa.
Os seus avós, pelo lado paterno, chamavam-se Abel Pereira Barbosa e Maria da Conceição Pereira; já pelo lado materno, o casal Artur Leite Maciel e Maria Eufrazina Leite.

“Quando pequeninos, aos poucos, vamos tomando ciência das coisas, das pessoas e dos fatos. Assim ocorreu comigo também no desabrochar da infância. Era bem viva e significativa em nossas vidas a presença dos meus avós paternos. Infelizmente já os conheci separados pelos muitos problemas sociais e conjugais. Por isso vó Maria morava com o filho mais velho, Francisco Pereira Barbosa, o Chico. O vovô Abel, que era magarefe do antigo Mercado Central, morava com a senhora Geralda, uma mulher forte e que abraçou também os filhos e netos de nosso avô durante muitos anos. Moravam na Travessa Alto da Pedra, encravada entre a Rua 13 de Maio e a Rua Saldanha Marinho.” (S.N.T)

De sua infância, no final da década de 1950, quando morava com a sua família, próximo a residência de sua avó materna, guardou as agradáveis lembranças de uma velha amplificadora, pertencente ao Sr. Luiz Cocó, que todos os dias, ao entardecer, reproduzia um rico e variado repertório em discos de cera, que era idolatrado por todas as crianças do Bairro Otávio Bonfim.
Entre esses discos exibidos na radiadora o que mais lhe agradava era o inesquecível clássico infantil “Chapeuzinho Vermelho”, interpretado por diversos personagens e intercalado por versos e prosas.
A sua paixão pela música, especialmente a clássica, começou a ser meticulosamente lapidada quando entre os anos de 1958 e 1960 recebeu algumas aulas de acordeom da Profª. Áurea Reginaldo. Essa feliz e bem cuidada infância irá refletir mais tarde em seu bom caráter e excelente competência profissional.
Em 1954, seguindo os ritos da Igreja Católica Apostólica Romana, realizou a sua primeira comunhão na Igreja de Nossa Senhora das Dores, que está localizada na Praça Farias Brito, nº 1, no Bairro Otávio Bonfim.
Segundo algumas de suas anotações, anos depois, em 1959, Vilany Pereira Borges, uma de suas irmãs, contraiu núpcias com Valdir Maciel Borges, que exercera uma forte influência sobre a sua vida e religiosidade.

“Valdir Maciel Borges era filho de José Borges dos Santos, um dos pioneiros, que implantou a semente de Kardec em solo cearense. O seu cunhado, Orlando Borges, assumiu a União Espírita Cearense, após desencarne do pai.” (S.N.T)

Desde bem cedo a jovem Maria Rosary cunhou o seu destino nas lides que lhe encaminhariam ao magistério. A sua vida acadêmica teve início quando por seus pais foi matriculada em uma pequena escola da rede privada que existia nas proximidades de sua casa no Parque Araxá.
Pouco tempo depois foi matriculada no Colégio Salesiano Dom Bosco, uma escola da rede privada e confessional que está localizada na Rua Joaquim Torres, nº 185, no Bairro Joaquim Távora.
Logo em seguida estudou no Grupo Escolar Franklin Delano Roosevelt, que está localizada na Avenida Bezerra de Menezes, nº 435, no Bairro Farias Brito, unidade educacional que era modelo para essa época e que possuía uma excelente equipe docente. Nessa unidade de ensino teve a oportunidade de se destacar como aluna exemplar do curso primário e nas atividades extracurriculares que eram promovidas pela escola.
As séries seguintes foram cursadas no Ginásio Agapito dos Santos, que está localizado na Avenida Tristão Gonçalves, nº 1.409, aonde recebeu aulas do Prof. Almir Brasil Pires, que lhe incentivou à leitura e a interpretação diária dos textos de jornais, bem como à leitura de clássicos da literatura brasileira e universal.
No dia 5 de dezembro 1966 finalmente conseguiu concluir o curso normal no Instituto de Educação do Ceará, antiga Escola Normal de Fortaleza, localizada na Rua Napoleão Laureano, s/nº, no Bairro de Fátima, aonde teve a oportunidade em ter como mestra a grande Profª. Maria Neli Sobreira Amorim, de quem recebeu grande influência em sua formação cristã.

“Nos idos de 1966, para concluir o Curso de Magistério na Escola Normal, precisei passar aquele ano na casa do vovô Abel. Fui muito bem recebida pela Geralda, tratou-me como uma filha.” (S.N.T)

Segundo algumas das notas contidas em seus muitos arquivos descobrimos que a sua festa de conclusão de curso, ao lado de sua família e de muitos amigos, aconteceu no tradicional Náutico Atlético Cearense, localizado na Avenida da Abolição, nº 2.727, no Bairro Meireles. Sobre essa época ela ainda nos disse:

“Vimos o Brasil ser Campeão Mundial em 1958, nesta época o ‘papaizinho’ viveu a nossa idade! Fomos a festas dançantes e tínhamos em casa uma radiola com vários LP’s, a novidade do momento. O bolero, o tango e outros ritmos era a nossa alegria. Nossos domingos eram festivos. Sempre recebíamos primos e não raro, a vó Maria cuidava do almoço, que era muito gostoso!” (S.N.T)

Nos últimos dias de 1966, quando já residia no Bairro Jardim América, teve a iniciativa de formar em sua residência um grupo de jovens que se denominavam da ALEC, Agremiação de Leitura, Educação e Cultura que tinha por finalidade o incentivo à leitura, foi quando teve a prazerosa oportunidade de formar a primeira biblioteca de sua vida.

Maria Rosary Pereira

Imagem de sua formatura, em 1966.

Estudante esforçada, sempre que tinha oportunidade não perdia a chance de matricular-se em outros cursos de sua área com o fito de desenvolver bem a sua vocação para o magistério.
Em 1968 uma série de episódios povoam as suas muitas lembranças, a primeira delas aconteceu na casa de uma de suas melhores amigas, Erotilde Honório, companheira fiel das reuniões da Legião de Maria da Paróquia Cristo Redentor, na Parquelândia.
Nessa ocasião, em um almoço de domingo, estavam à mesa quando Agamenon, irmão de Erotilde, anunciou que tinha uma oferta de emprego para a sua irmã como professora em um Município distante, a mais de 200 quilômetros da capital, no Sertão Central do Estado do Ceará.
No mesmo instante Erotilde, que desejava fazer medicina, respondeu que declinava do convite porque tinha outros planos, imediatamente, causando espanto aos presentes, Maria Rosary interessou-se pela proposta e perguntou: “como é que consigo falar com esse prefeito?”.
Agamenon era contador da Prefeitura de Boa Viagem e o jovem prefeito, José Vieira Filho, o Mazinho, procurava profissionais em educação que, como pioneiros, aceitassem o grande desafio de residir e lecionar em seu Município:

“Contratamos vários professores de Fortaleza, a exemplo: Manoel Barbosa [de Sousa], Lenir Andrade, [Maria] Rosary Pereira além de outros, que aqui vieram prestar os seus valiosos ensinamentos.” (VIEIRA FILHO, 2008: p. 57)

Após esse breve encontro, acontecido no escritório de contabilidade de Agamenon Honório, foram acertadas todas as formalidades de contratação e Maria Rosary foi para casa imediatamente preparar a sua bagagem e partir para o seu grande desafio: lecionar em Boa Viagem.
O segundo episódio marcante dessa época aconteceu no local de embarque para esse Município. Nessa ocasião, já embarcada e perfeitamente acomodada em um dos assentos da condução, foi tomada pelo assombro quando repentinamente a polícia militar, fortemente armada, invadiu o ônibus no intuito de prender o Caboclo Santana, que há pouco tempo antes saíra do presídio e ilicitamente já estava portando uma arma de fogo.
Assustada pela cena jamais imaginada a jovem moça, sem ter outro recurso, perdeu as forças e ficou paralisada no banco do veículo em prantos. Nesse mesmo instante um dos passageiros, o Dr. Otávio Alves Franco, compadecido, se dirigiu a ela e disse: “vamos sair mocinha que a boca aí é quente!”.
Minutos antes desse fato o Dr. Otávio Franco, na cadeira ao lado, deu inicio a um pequeno diálogo com a jovem investigando se ela era a professora que todos ansiosamente aguardavam, gentilmente ela respondeu que sim, sem imaginar o que estava por acontecer.
Nessa mesma época, já em 1969, estabelecida no Município, procurando se envolver com as atividades da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem como legionária e catequista iniciou uma série de estudos bíblicos pelos bairros da cidade, algo que até então nunca havia sido feito.
Essa iniciativa, que deveria ter sido louvada, causou um forte impacto no pároco local, o Pe. José Patrício de Almeida, que aliado ao líder da oposição ao prefeito do Município, o Dr. Gervásio de Queiroz Marinho, efetuou uma denúncia ao DOPS, o Departamento de Ordem Política e Social, que a mesma e outros professores do Colégio Dom Terceiro eram subversivos ao regime militar que havia se estabelecido no país com o golpe de 1964:

“Poucos dias depois, tomamos conhecimento de que haviam forjado uma denúncia, dizendo que tinham vários professores ‘comunistas’ lecionando no Colégio Dom Terceiro, inclusive a Professora Maria Rosary Pereira, que juntamente com outros passaram alguns dias detidos, até provarem à inocência.” (VIEIRA FILHO, 2008: p. 67)

Em sua riquíssima obra para história política do Município, VIEIRA FILHO cometeu um grave equivoco, alegou em suas páginas que a Profª. Maria Rosary Pereira foi detida para investigação, felizmente isso não aconteceu, embora durante alguns anos a sua vida tenha sido mantida sob vigilância constante do exército.

Profª Rosary sendo inocentemente fotografada pel DOPS.

Imagem da Profª. Rosary, que nessa fotografia estava sendo inocentemente fotografada pelo DOPS.

Na verdade, graças a essa maliciosa denúncia, o que verdadeiramente aconteceu foi que tomaram o seu depoimento e sem perceber teve a sua imagem fotografada discretamente de vários ângulos a mando do Tenente Jonas, oficial designado como chefe da Junta do Serviço Militar da 10ª Região em nosso Município.
Em 1971, mesmo sob vigilância, depois de anos transitando entre o Sertão e a Capital, finalmente foi habilitada em Geografia pelo Instituto de Geociências da UFC, a Universidade Federal do Ceará.

Foto de perfil da investigama Maria Rosary Pereira.

Imagem de perfil da Profª. Maria Rosary Pereira, investigada pelo DOPS.

Em 1975 deixou o Município de Boa Viagem no intuito de morar no Estado de Rondônia, quando foi fortemente impactada por uma infeliz notícia que causou uma enorme aflição em toda a sua família.
Recebeu a triste informação do trágico falecimento do seu pai, que anos antes havia se encantado com as riquezas do antigo território do Guaporé e fora tentar a sorte na Região Norte de nosso país.
Por uma dessas coincidências do destino, alguns anos antes, José do Abel, como era conhecido entre os marchantes, chegou a comprar gado ao Sr. Francisco Deoclécio Ramalho, importante agropecuarista de Boa Viagem.

“Os incentivos fiscais aos empreendimentos privados e os investimentos do governo federal, bem como os projetos de construção de rodovias e de implantação de núcleos de colonização, estimularam a migração. Além disso, o acesso fácil à terra boa e barata atraiu empresários interessados em investir na agropecuária e na indústria madeireira. Nessa época, a descoberta de ouro e cassiterita também contribuiu para o aumento populacional. Entre as décadas de 1960 e 1980, o número de habitantes cresceu mais de sete vezes, passando de 70 mil para 500 mil.” (CIVITA, 2010: p. 700 – 701)

Naquele território José Pereira Barbosa, aos 49 anos de idade, juntamente com dois dos seus irmãos, desenvolvia atividades de marchante e por conta do clima úmido enfrentava sérios problemas de saúde.
O seu genitor, melhorando as condições financeiras, não hesitou em mandar trazer toda a sua família, mas, antes que pudesse ver finalmente concretizado o seu desejo, veio a óbito no Hospital São José no dia 28 de janeiro de 1975, sem ter o prazer de permanecer os últimos momentos de sua vida juntos. O seu corpo finalmente foi sepultado naquele longínquo Estado, longe dos olhos de sua família.

“Rondônia, para todos eles, foi um chamariz. Primeiro foi o meu pai, o Zé. Levou depois o Didi e o Manoel. Por último seguiu a Elza e os filhos. Aquela terra já sepultou quatro dos nossos: Papaizinho (28-01-1975); o Didi (24-07-1994); a Lourdes, sua mulher e um filho, vítima de assassinato.”

Nessa mesma época o Município de Boa Viagem passava por grandes transformações físicas e administrativas, uma delas ocorreu na área da educação, foi à encampação da Escola Normal Dr. José Vieira Filho pelo Governo do Estado, que passou a se chamar de Escola de 1º e 2º Grau Dom Terceiro.
Uma das vantagens dessa importante ação governamental foi que os professores do quadro que antes pertenciam ao Município passaram a pertencer ao Estado.
Sem desanimar frente aos obstáculos da vida, como educadora, Maria Rosary chegou a lecionar um grande e diverso leque de disciplinas, entre elas podemos destacar: Geografia, História Geral, Religião, Filosofia, Literatura, Língua Portuguesa e Educação Artística.
Nessa unidade de ensino sempre esteve à frente da organização dos desfiles cívicos, exposições artísticas, feiras de ciências, saraus literários e de praticamente tudo o que envolvia a boa imagem dessa escola diante da comunidade.
Em 1984, na gestão do Prefeito José Vieira Filho, foi convidada a dirigir o Departamento de Cultura do Município e lá desenvolveu inúmeras atividades nesse campo.
Nessa época, em destaque, uma dessas atividades foi a I Maratona de Língua Portuguesa, competição acadêmica que envolveu centenas de alunos da rede pública existente no Município.
Mais tarde, os seus inúmeros serviços prestados como docente a nossa comunidade foram reconhecidos pela Câmara Municipal de Vereadores por meio de um valioso título de cidadania que foi aprovado através da lei nº 61, de 21 de outubro de 1994.

“Professora da Escola de Ensino Fundamental e Médio Dom Terceiro, é filha de Fortaleza, mas aqui reside desde o dia 17 de setembro de 1968. Já escreveu, entre outros, os seguintes trabalhos: ‘Quando o Amor é Mais Forte’ – 1984 e ‘Estrada de Luz’ – 1994 (teatro); ‘Apologia às Mães’ – 1985, vários sonetos e artigos. É membro da Sociedade Brasileira de Pensadores e no âmbito do magistério tem desenvolvido inúmeras atividades culturais.” (NASCIMENTO, 2002: p. 159)

Foi assídua leitora, desde muito cedo se dedicou a esse hábito, vindo a tornar-se uma autodidata. Era amante declarada da Literatura e das Artes universais, nunca escondeu a sua admiração pelos maiores escritores e dramaturgos da história, tais como: William Shakespeare, Antoine de Saint-Èxupery, Luiz Vaz de Camões, Victor Hugo, José de Alencar, Machado de Assis, dentre outros.
Esse bom gosto pela arte e pela literatura lhe serviram durante toda a sua vida como lastro de inspiração para os seus muitos escritos, a genialidade de sua pena nos brindou com uma considerável produção literária.
A sua paixão pela música também se estendeu ao rádio, produziu e apresentou alguns programas: “A Caminho da Luz”, “Hora Cívica 7 de Setembro, “Namorados, Ontem, Hoje e Sempre” e “Momento Cultural Educativo”, pela Rádio Difusora Asa Branca, AM 710 KHz.

“Entre os anos de 1991-1992 apresentei o programa A Caminho da Luz, pela Radiodifusora Asa Branca, juntamente com outros componentes do Centro Espírita Emmanuel, que na época era presidido por Francisco Tibiriçá Façanha.” (S.N.T)

Lançou a primeira edição, em 1996, da “Hora Cívica 7 de Setembro”, bem como outros especiais comemorativos que foram produzidos e apresentados pela Rádio Liberdade, AM 1310 KHz.
Novamente, em 1992, voltou ao Departamento da Cultura do Município na gestão do Prefeito Antônio Argeu Nunes Vieira, onde deu continuidade ao seu valioso trabalho. Entre esses anos frequentou assiduamente a ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno, onde teve a oportunidade de apresentar várias de suas produções poéticas.
Em 1996, na gestão do Prefeito Dr. Francisco Vieira Carneiro, o Major Carneiro, mais uma vez esteve à frente do Departamento de Cultura de nosso Município.

Imagem da Profª Rosary ao lado do Prefeito Major Carneiro.

No dia 14 de novembro de 1998, pela Rádio Liberdade AM, recebeu a grata notícia de ter sido agraciada como uma das “Personalidades do Ano” em um concurso promovido junto aos ouvintes através do radialista Antônio Leonídio Lopes de Oliveira.
Em 1992, na cidade de Fortaleza, foi uma das primeiras colocadas no vestibular do curso de Bacharel em Teologia do ICRE, o Instituto de Ciências Religiosas, e em 2000 foi aprovada com louvor no vestibular do curso de Licenciatura em Linguagens e Códigos da FECLESC, a Faculdade de Ciências e Letras do Sertão Central, que funciona como campus avançado da UECE, a Universidade Estadual do Ceará, mas, lamentavelmente, esses cursos não foram concluídos por conta da mudança de domicílio.
Em 2001, promovido pela Fundação Biblioteca Nacional por ordem do Ministério da Cultura e em parceria com a UNB, a Universidade de Brasília, concluiu o Curso de Especialização em Gerenciamento de Bibliotecas Públicas e Escolares, declaradamente uma de suas paixões.
A professora Rosary sempre esteve presente nas atividades das escolas de nosso Município, não limitou os seus talentos a sala de aula, foi considerada por todos como uma grande “amiga das escolas” por onde passou.
Coordenou e dirigiu a apresentação, nas escolas e no Paço Municipal, diversos trabalhos em diversas ocasiões nas formas de coral infantil, folguedos de rua, teatro, exposições, desfiles estudantis, etc.
A propósito, foi ela quem mudou o perfil dos desfiles cívicos escolares em nosso Município, demonstrando em quadros vivos a história do Brasil.
Sobre esse assunto, em 2000, na gestão do Prefeito Dr. Fernando Antônio Vieira Assef, assumiu a chefia do Departamento de Cultura municipal e esteve diante da organização do grande desfile que marcou os 500 anos de descoberta do Brasil.

“A atual administração de Boa Viagem já deu provas de valorização da cultura e das tradições locais. Uma das primeiras medidas adotadas foi à reestruturação da banda de música, que recebeu novos instrumentos e novo fardamento e a recuperação dos monumentos históricos da cidade. Outra importante ação foi à construção do Centro de Cultural inaugurado em 29 de maio de 1999, no local onde funcionou por muito tempo a Casa de Câmara e Cadeia. Ali foi implantada uma biblioteca com mais de 5 mil volumes. A Diretora do Departamento de Cultura, professora Maria Rosary Pereira e o historiador Cícero Pinto do Nascimento estão à frente dos trabalhos.” (S.N.T)

Nessa oportunidade, de acordo com uma matéria publicada no Diário do Nordeste, Caderno Regional do dia 29 de outubro de 2003, deu continuidade a alguns de seus muitos projetos.

“A Secretaria de Educação de Boa Viagem encerra hoje a I Semana Literária do Município. A solenidade será no Centro Cultural Dr. Fernando Assef. A semana teve como objetivo o resgate dos valores literários locais, bem como, despertar na população de Boa Viagem o interesse pela escrita e leitura. A semana contou com exposições literárias, palestras, shows de poesias, violas, números musicais e a posse da nova diretora do Clube Literário.”

Não poderíamos deixar de mencionar ainda que a primeira caixa de livros destinada à formação da biblioteca da Escola de Ensino Fundamental e Médio Dom Terceiro foi aberta e cuidadosamente catalogada por ela. Esse trabalho de organização e acompanhamento da referida biblioteca foi feito durante muitos anos, com poucos intervalos.
O acervo da antiga Biblioteca Municipal Edite Carvalho Câmara, que era referência no Município de Boa Viagem, hoje agregada à biblioteca da Escola de Ensino Fundamental e Médio Dom Terceiro, está preservado graças à sua dedicação e aos seus incansáveis esforços.
No dia 20 de outubro de 2003, em Boa Viagem, juntamente com o Prof. Cícero Pinto do Nascimento, conseguiram reunir um grupo de amantes das diversas áreas da arte e cultura do Município e decidiram formar um clube literário que, por unanimidade, recebeu a sua nomenclatura.

Membros do Clube Literário Profª Maria Rosary Pereira.

Imagem da diretoria do Clube Literário Profª. Maria Rosary Pereira, em 2004.

Refinada escritora, poetisa, teatróloga e guardiã de muitas memórias de nosso Município, já teve alguns de seus trabalhos publicados, entretanto, a maioria ainda se encontra inédito.
Sempre que recebeu oportunidade deixou algumas de suas reflexões no jornal “Ecos da Vida Paroquial”, periódico que era editado pela Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem, na revista “O Pensamento”, periódico da Sociedade Brasileira de Pensadores que era editado na cidade do Recife, no Estado de Pernambuco.
Escreveu ainda vários sonetos, embora não tenha deixado de abraçar outros estilos literários.
As suas peças de teatro já encenadas foram as seguintes: Donzela Teodora (1970); Quando o Amor é Mais Forte (1984-1990-1994-2012); Mãe, Vida! (1991); Um Menino nos foi Dado (2001) e Eu, Você e o Mosquito (2002).
Inspirada em uma das obras de Francisco Cândido Xavier, “Paulo e Estevão”, ela transpôs para o palco os acontecimentos que marcaram a vida do apóstolo aos gentios com a peça “Estrada de Luz”, texto teatral ainda inédito. Essa paixão pelo teatro foi um reflexo dos anos de sua infância, quando participava intensamente dessas atividades.
Meticulosa em tudo que fazia, além de escrever os textos, delineava a cenografia, a sonoplastia, o figurino e a montagem das peças que escrevia.
Em 1985 e 2000, na Escola de Ensino Fundamental Padre Antônio Correia de Sá, patrocinada pelo Município, coordenou a apresentação do Pastoril Infanto-Juvenil, Folguedos Natalinos, já quase esquecidos pela memória popular.
Coordenou a instituição do teatro-bíblico-pastoral em uma reunião presidida pelo Monsenhor Luiz Orlando de Lima, vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem, junto à Pastoral da Educação, tendo como objetivo a realização, em molde épico, da “Paixão de Cristo”, a qual foi encenada pelas ruas do Centro da cidade nos anos de 2002 e 2003.
Nessa ocasião teve o importante auxílio da Profª. Ozete Melo Cavalcante, que fez inúmeras campanhas junto à comunidade para a formação de um figurino destinado a peça que resultaram na composição de um figurino de mais de oitenta peças.
Após esses eventos, em dezembro de 2004, resolveu retornar com parte de sua família para Fortaleza, a sua terra natal, no intuito de ficar próximo de seus familiares que pranteavam a recente morte de sua querida genitora.

A Profª Rosary era algum encantada pela vida.

A Profª. Rosary era encantada pela vida, imagem de 2005.

Nesse mesmo ano, no dia 27 de dezembro, a sua querida mãe, dona Carmoza, aos 77 anos de idade, sofrendo com problemas asmáticos, desfaleceu de suas forças e exalou o seu último suspiro de vida encarregando-a de cuidar dos seus irmãos, Brenas, José Artur, Fábius Vinícius, Maurício e Carla.
Estabeleceu-se novamente na cidade de Fortaleza e assumiu a sua cátedra na Escola de Ensino Fundamental e Médio Marechal Juarez Távora, que está localizada na Rua Joaquim Bastos, nº 747, no Bairro de Fátima e na Escola de Ensino Fundamental e Médio Estado do Maranhão, no Mondubim, onde teve o prazer de trabalhar com Arte e Educação.
Trabalhou ainda no Projeto ABC Mondubim, ensinando desenho às crianças daquela comunidade carente em segundo expediente escolar. Nessa escola realizou seis expressivos trabalhos juntamente com os seus alunos: “Jogral pela Paz”, “Mensalão”, “Apologia ao Brasil” e as peças teatrais de sua autoria: “Moisés do Século XXI”, “Um Menino nos foi Dado” e “Onde Nasceu Jesus”, adaptação em forma de diálogo.
Em 2008, na Escola de Ensino Fundamental e Médio Marechal Juarez Távora, coordenou a execução do projeto “Galeria de Artes Clássicas”, inaugurada por ocasião da Semana Cultural daquela unidade de ensino entre os meses de setembro e novembro.
Nesse mesmo ano, por ocasião do I Congresso de Educação de Boa Viagem, acontecido entre os dias 19 e 21 de novembro, na Associação Atlética Boa-viagense, promovido pelas professoras Maria Dias Cavalcante Vieira e Gerarda Alves Franco, foi homenageada pelos seus esforços em favor da educação em nosso Município.
Dois livros ainda não foram oficialmente ao prelo: “Folguedos de Minha Infância” e “Pensamentos”. Este último fruto de sua participação, durante alguns anos, da Sociedade dos Pensadores do Brasil.
Escreveu, em estrofe metrificada, de temática educativa, os hinos das seguintes escolas da rede estadual: Escola de Ensino Médio Dom Terceiro e Escola Estadual de Educação Profissional David Vieira da Silva, da rede municipal: Escola de Ensino Fundamental Iraci Alves de Freitas, Escola de Ensino Fundamental Benjamim Alves da Silva, Escola de Ensino Fundamental Padre Paulo de Almeida Medeiros e da extinta Escola Técnica Agrícola Dr. Janival Almeida Vieira, e da rede particular, o hino do Colégio Melo Cavalcante.
Salientamos também que todas essas partituras foram compostas com o precioso auxílio do Maestro João Leonardo de Sousa Leonel, regente da Banda Municipal João Xavier Guerreiro, que anos antes havia sido apresentado pela Profª. Rosary ao Prefeito José Vieira Filho.
As suas principais alegrias foram os seus três filhos, dois homens e uma mulher, sendo eles: Rafael Pereira Moura, Daniel Pereira Moura e Ana Magali Pereira Moura.
Durante o tempo em que residiu no Município de Boa Viagem morou com a sua família em diversas casas, umas alugadas e outras de sua propriedade, o seu último endereço foi na Rua José Natal de Araújo, nº 1.421, no Bairro Floresta.

Imagem da residência da Profª. Maria Rosary Pereira, em 2014.

Imagem da residência da Profª. Maria Rosary Pereira, em 2014.

Em 2012, por ocasião das comemorações alusivas aos 150 anos da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem, custeado pelo Município e contando com a adesão de voluntários, coordenou a reapresentação no Paço Municipal de sua peça teatral que trata sobre o romance entre o Alferes Antônio Domingues Álvares e a jovem Agostinha Sanches de Carvalho, considerados como fundadores da cidade de Boa Viagem.
Nesse mesmo ano, no dia 21 de novembro, em parceria com o radialista Valdeni Rodrigues, estendeu também esse trabalho ao rádio, que foi transmitido a todo o Município pela Rádio Asa Branca, tornando-se assim a pioneira na produção de um programa no formato de radionovela em nosso Município.
Esse precioso trabalho, em 2013, foi produzido em DVD, tornando-se um excelente documentário sobre a formação romântica de nosso Município.
Muitas, portanto, foram às realizações e produções culturais desenvolvidas pela Profª. Maria Rosary Pereira, posso dizer que, um pouco dela, está em cada um de nós, seus alunos.
Sobre a sua paixão pelo teatro, relembrando um de seus pensamentos sobre a arte: “A vida é uma arte: no palco, a encenação do real; na mente, a certeza de não haver reprise!”.
Por fim, na manhã do dia 18 de maio de 2014, quando se dirigia para cidade de Fortaleza no intuito de levar o seu esposo para uma consulta médica, seguiu viagem no ônibus nº 0241090, placa NVC 8393, da Viação Princesa dos Inhamuns.

Ônibus envolvido no acidente.

Imagem do ônibus envolvido nesse acidente, em 2014.

Nesse dia, que ficou marcado em nossa história como O Domingo Trágico, quando chegava ao quilômetro 304 da Rodovia Federal Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, a BR-020, já dentro da zona urbana da cidade de Canindé, foi vítima de um grave acidente automobilístico que ceifou a vida de várias pessoas.
Esse terrível acidente causou comoção internacional e foi divulgado nas principais emissoras de rádio e tv do país, sobre esse assunto o jornal O Povo, edição do dia 19 de maio de 2014, divulgou a seguinte nota:

“O maior acidente em rodovias do Ceará nos últimos 10 anos resultou em 18 mortes na manhã de ontem no quilômetro 304 da BR-020. O ônibus da empresa Princesa dos Inhamuns fazia a rota Boa Viagem-Fortaleza e tombou próximo a uma das entradas de Canindé. Pelo menos 21 passageiros ficaram feridos. O balanço foi divulgado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Perícia Forense do Ceará (Pefoce), na noite de ontem.”

Após a liberação do seu corpo pelo Instituto Médico Legal existente na cidade de Canindé o seu ataúde foi imediatamente trazido por seus familiares para o auditório da Escola de Ensino Médio Dom Terceiro, onde recebeu as despedidas fúnebres dos vários amigos conquistados ao longo de sua trajetória de vida em Boa Viagem.
Em seguida foi levada em cortejo fúnebre pelas principais ruas da cidade com algumas pessoas trajando o figurino de sua peça mais famosa, “Quando o Amor é Mais Forte”.
Em matéria publicada pelo jornalista Alex Pimentel no jornal Diário do Nordeste, edição do dia 20 de maio de 2014, com o título “Boa Viagem começa a sepultar os seus mortos”, temos uma noção do estado de ânimo dos moradores da cidade:

“Nove dos 13 passageiros de Boa Viagem mortos no último domingo, no acidente com um ônibus da empresa Princesa dos Inhamuns, na BR-020, em Canindé, foram sepultados nesta segunda-feira. Seis deles foram enterrados no Parque da Esperança, cemitério mais novo de Boa Viagem. Outros dois foram enterrados na localidade de Várzea da Ipueira, na zona rural deste município do Sertão Central e outro na cidade vizinha, Itatira. Dezoito foi o número total de mortos no acidente. Dois deles ainda não haviam sido identificados…. Segundo informações da assessoria de comunicação da Prefeitura de Boa Viagem, a princípio pretendia-se realizar um velório coletivo, seguido de uma missa e do sepultamento, mas as famílias preferiram realizar os velórios rapidamente, para evitar mais sofrimentos. Alguns corpos estavam parcialmente mutilados. Preferiram deixar os caixões fechados. O movimento foi intenso no Parque da Esperança, e se estendeu até o fim da tarde. Conforme a administração do parque santo, as primeiras vítimas sepultadas foram… Cerca de uma hora depois outro cortejo adentrou o cemitério, acompanhando o corpo da professora aposentada Maria Rosary Pereira, 69 anos. O velório dela foi na Escola de Ensino Médio Dom Terceiro, onde ensinava música e teatro. Os filhos pretendiam sepultar o pai, Francisco Moura Lima, também morto no acidente, mas o corpo dele ainda não foi liberado. Uma filha, Magali Moura, informou haver necessidade de realização de exame de DNA. O corpo dele ficou totalmente mutilado. O IML vai liberar somente após 10 dias… A mãe acompanhava o pai com destino a Fortaleza. Ele precisava realizar um exame de vista. Ela ia aproveitar e visitar os filhos. Para a filha, o acidente foi uma fatalidade, mas para ela, se houvesse mais cobrança das leis de trânsito o número de vítimas da tragédia seria menor. Ela se referia ao cinto de segurança, cujo uso é obrigatório inclusive nos ônibus intermunicipais, mas os motoristas apenas aconselham, não obrigam os passageiros a utilizarem o equipamento… Na próxima sexta-feira uma equipe da Defensoria Pública do Estado estará na cidade para orientar os parentes, inclusive dos passageiros feridos, acerca das medidas legais a serem adotadas. O Prefeito Fernando Assef havia decretado luto oficial de três dias.”

O seu corpo foi sepultado em um túmulo da família que existe no Cemitério Parque da Esperança, que está localizado na Rua Maria de Nazaré Bezerra, s/nº, no Bairro de Nossa Srª de Fátima.

Imagem do túmulo da Profª. Maria Rosary Pereira, em 2017.

No dia do seu sepultamento, não poderíamos esquecer das muitas homenagens que lhes foram prestadas, algumas das emissoras de rádio deram cobertura ao seu sepultamento e levaram ao ar o seu último trabalho, outros, como o Rev. Maurício Amazonas, ministro anglicano, expressaram a sua dor através das redes sociais:

“TRISTEZA E DOR – Quero externar minha dor e pesar aos familiares e amigos das vítimas de Boa Viagem (CE), no acidente ocorrido ontem, na BR-020, na cidade de Canindé, em ônibus com destino a Fortaleza. Dentre os 18 mortos, estava a minha amiga Maria Rosary Pereira, dedicada e atuante professora, poetisa e dramaturga de Boa Viagem. Quando ali pastoreei, entre os anos de 1990 e 1993, tive o privilégio de trabalhar com ela na coordenação de 3 Jornadas Pedagógicas, quando todas as escolas participaram integralmente. Ela também escreveu a história de Boa Viagem, transformada em peça teatral e vídeo, reconhecida e aplaudida por todos os filhos e filhas daquela cidade. Com esta nota, quero externar meus pêsames aos amigos e amigas. Que Deus console a todos vocês, em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo!”

Poucos dias depois do seu funeral, para tornar o episódio de dor ainda mais angustiante, a parte inferior do seu tronco foi identificada por exames de DNA, obrigando a sua família a realizar um novo sepultamento.

HOMENAGEM PÓSTUMA:

  1. No Município de Boa Viagem o clube literário da cidade, silogeu que consegue congregar aqueles que gostam das artes e da cultura em geral, recebeu a sua nomenclatura;
  2. Em sua memória, na gestão do Prefeito Dr. Fernando Antônio Vieira Assef, através da lei nº 1.233, de 17 de abril de 2015, uma escola da rede municipal, na cidade de Boa Viagem, recebeu a sua denominação.