José Rabêlo e Silva

José Rabêlo e Silva nasceu no dia 19 de março de 1845 no Município de Quixeramobim, que está localizado no Sertão Central do Estado do Ceará, distante 203 quilômetros da cidade de Fortaleza, sendo filho de Antônio Pinto de Magalhães e de Josefina do Nascimento e Silva.
Na época do seu nascimento a vila de Boa Viagem, que também era conhecida pelo topônimo de “Cavalo Morto”, era apenas um pequeno povoado existente dentro dos limites geográficos do Município de Quixeramobim.
Mais tarde, no dia 21 de novembro de 1864, quando tinha 19 anos de idade, o Distrito de Boa Viagem recebeu a sua tão sonhada autonomia política:

“Distrito criado com a denominação de Boa Viagem, ex-povoado de Cavalo Morto, pela lei provincial nº 1.025, de 18 de novembro de 1862. Elevado à categoria de vila com a denominação de Boa Viagem, pela lei provincial nº 1.128, de 21 de novembro de 1864, desmembrado de Quixeramobim.” (IBGE, 2000: Disponível em http://cidades.ibge.gov.br/painel/historico.php?lang=&codmun=230240&search=ceara|boa-viagem|infograficos:-historico. Acesso no dia 13 de julho de 2017)

Alguns anos depois contraiu núpcias com a Professora Phostuma Agnella da Silva, nascida em 1850, sendo filha de André Avelino Santiago e de Francisca Angélica da Silva.
Desse matrimônio, segundo informações extraídas do óbito de sua esposa, foi gerado apenas um filho, que se chamava Joaquim Rabêlo e Silva.
Durante muitos anos desempenhou um prestigioso papel político em na região, sendo um dos principais articuladores da “Oligarquia Accioly”, posição que o ajudou a projetar os seus filhos, através de nomeações, nos melhores empregos públicos disponíveis nessa época.
Entre os anos de 1877 a 1879, período que ficou conhecido como a “seca dos 1000 dias”, fez a composição da Comissão de Socorros Públicos que atendeu os atingidos pela estiagem no Município de Boa Viagem.
No dia 18 de setembro de 1883, na qualificação do conselho dos guardas ativos do 52º Batalhão de Infantaria do Batalhão da Guarda Nacional de Boa Viagem, o seu nome figurou com a matrícula nº 25 no “Quarteirão da Vila”, onde foi designado com a patente de alferes, chegando ao posto de tenente-coronel alguns anos depois. Antes disso, em 1871, foi designado tenente coronel do 21º Batalhão da Guarda Nacional de Quixeramobim.
O 52º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional foi criado através do decreto nº 4.520, de 28 de abril de 1870, sendo desmembrado do Município de Quixeramobim e tinha como comandante o Tenente Coronel José da Silva Bezerra.
Em conformidade com uma matéria publicada no jornal A Constituição, ano XXV, nº 141, edição do dia 3 de setembro de 1888, recebeu nomeação do presidente da Província, o Dr. Antônio Caio da Silva Prado.

“Prorrogado por trinta dias o prazo aos cidadãos José Rabêlo e Silva, Manoel Antônio Leite e Francisco Domingues de Mesquita para prestarem juramento e assumirem o exercício do cargo, aqueles de terceiros juízes suplentes dos termos de Boa Viagem e Lavras e este segundo suplente do juiz municipal do termo de Santa Quitéria.”

Era abolicionista e segundo registros foi um dos fundadores da Sociedade Libertadora de Boa Viagem, que foi uma entidade filantrópica que congregava aqueles que queriam por fim à escravidão, conforme registro a seguir:

“Era impossível que o Município de Boa Viagem continuasse por mais tempo estacionário, sem receber um impulso do magno e generoso movimento libertador que se desenvolve, estendendo-se por todos os ângulos da Província. Omnia tempus habent. Era pois chegada também a vez de Boa Viagem tomar um lugar, embora dos últimos, no grande festim da liberdade. No dia 1º de Julho, reunidos no salão da municipalidade, diversos cavalheiros dos mais prestantes da localidade, a convite do Revmo. Vigário da freguesia, e presente grande número de senhoras, instalou-se uma sociedade denominada Libertadora de Boa Viagem, cujo fim será promover, por todos os meios legítimos, a libertação do Município… O presidente declarou instalada a sociedade, apresentando 17 cartas de liberdade, todas oferecidas espontaneamente, dos quais 7 foram oferecidas pelo Capitão Antônio Sabino de Araújo, sendo declarados libertos os seus últimos escravos: Maria, Maria, Magdalena, Anna e Francisca; 2 por parte de sua digna mãe, D. Maria Sabina da Conceição, concedendo liberdade aos seus dois últimos escravos: João e Luíza; e 1 por parte de sua irmã, D. Maria de Jesus Araújo, a sua única escrava, Raymunda; 3 oferecidos pelo prestante cidadão Joaquim Cavalcante Bezerra, libertando as suas escravas: Benedicta, Galdina e Agueda; 2 pelo Capitão Vicente Alves da Costa, concedendo liberdade aos seus dois escravos: Caetano e Nicácio; 1 pelo cidadão José Rabêlo e Silva, libertando a sua escrava Maria; 1 pela digna professora pública dessa vila, D. Joaquina Beleza de Macêdo Nogueira, libertando a sua única escrava,  Joana; 1 oferecido pelo cidadão João Lobo dos Santos, dando liberdade a sua escrava Alexandrina e finalmente 1 oferecido pelo cidadão Manoel Mendes Machado. São poucos os escravos que restam no Município, talvez não excedam a 40. Mas a sociedade não conta com bastantes recursos para acelerar, como desejara, a sua completa extinção. Entretanto, convencidos como já devem estar os senhores de que improfícua será a resistência que por ventura poderão opor, serão levados a libertar voluntariamente os poucos que ainda restam. E prazam a Deus que se realizem as aspirações do digno presidente da Libertadora de Boa Viagem, isto é, que brevemente possamos dizer por nossa vez a Província: não há mais senhores e nem escravos no Município de Boa Viagem.”

Essa agremiação antiescravagista, que foi fundada no dia 1º de julho de 1883, recebeu publicidade de seus atos através de uma nota publicada no periódico O Libertador, ano 3, nº 162, de 28 de julho de 1883, e tinha o seu nome na função de 2º secretário de sua diretoria.
Mais tarde, no dia 11 de junho de 1889, conforme relatório dos Presidentes dos Estados Brasileiros, edição de 1891 a 1930, recebeu uma nomeação do Governo do Estado do Ceará para exercer o papel de inspetor escolar de Boa Viagem.
Era agropecuarista, negociante e foi indicado a compor uma das cadeiras do Conselho de Intendência do Município de Boa Viagem entre o dia 14 de fevereiro de 1890 ao dia 21 de agosto de 1891.

Imagem da Casa de Câmara e Cadeia do Município de Boa Viagem na década de 1940.

Nesse período o Conselho de Intendência do Município manteve constante correspondência com o Governo do Estado informando sobre a quantidade de escolas, igrejas e outros patrimônios públicos do Município; responderam relatório sobre obras públicas e a Comissão de Socorros; organizaram as mesas eleitorais para escolha dos deputados; reorganizaram a coleta de impostos.
Nessa legislatura os funcionários públicos passaram meses sem receber os seus pagamentos e ocorreu a autorização para formação de uma Guarda Municipal, ocorrendo também algumas intrigas relacionadas a sua presidência, que era assumida mensalmente por um dos membros da intendência.

“Art. 1º – Até definitiva Constituição dos Estados Unidos do Brasil e do Estado Confederado do Ceará, ou antes, se assim convier, o poder municipal nesse Estado será exercido por um Conselho de Intendência Municipal, composto de cinco membros, sob a presidência de um deles, eleito na primeira sessão de cada mês…” (RIBEIRO, 2005: p. 12)

Conforme as informações fornecidas no dia 27 de agosto de 1891 pelo jornal O Estado do Ceará, por um ato do Governo do Estado, alegando motivos de incompatibilidade, foi desligado da Intendência Municipal e em seu lugar assumiu Manuel Henrique de Albuquerque.
Pouco tempo depois, no dia 5 de agosto de 1892, juntamente com os seus familiares, partilhou a repentina perda de sua amada esposa, que faleceu com apenas 42 anos de idade.
Mais tarde, no dia 24 de novembro de 1894, segundo informações existentes no livro B-02, pertencente à secretaria da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem, tombo nº 68, página 59, diante do Pe. José Antônio Cavalcante, contraiu matrimônio com Maria Isabel Griselina da Silva, que nasceu em 1868, sendo filha de Manoel José de Farias e de Isabel Maria do Patrocínio.
No ano seguinte, no dia 8 de setembro, segundo informações existentes no livro B-01, pertencente ao Cartório Geraldina, tombo nº 18, folha 37, confirmou os seus votos em uma cerimônia de matrimônio civil.
Desse matrimônio supomos que foram gerados apenas três filhos, sendo eles: João Rabêlo da Silva, Maria Hermilina Rabêlo e Silvino Rabêlo e Silva.
De acordo com o jornal A República, ano IV, de 28 de dezembro de 1895, na primeira página, compunha o diretório do PRP, o Partido Republicano Federalista.

“No inicio da República não havia partidos nacionais. Assim, no Ceará, o Partido Republicano cindiu-se em busca do poder.” (CAVALCANTE MOTA, 1999: p. 23)

No dia 28 de agosto de 1897, em acordo com uma matéria publicada pelo periódico A República, ano  VII, número 189, compunha uma das cadeiras do Conselho Municipal de educação.

Imagem de um aviso no jornal Gazeta do Norte.

Segundo as informações existentes no Jornal do Ceará, edição de 1904, periódico de oposição ao Governo do Estado, ainda atuando como correligionário do Dr. Antônio Pinto Nogueira Accioly, presidente do Estado do Ceará, foi o organizador e o responsável por um grande tumulto que prejudicou o bom andamento da eleição municipal que ocorreu no dia 1º de maio de 1904, conseguindo ardilosamente manipular o seu resultado em favor de seus candidatos.

Imagem do artigo de jornal.

Por conta dessas ligações políticas, durante alguns anos, foi o juiz de casamentos, atendendo dentro dos limites de nosso Município, onde respondia também pela resolução de alguns conflitos.
Entre esses conflitos, segundo notícias divulgadas na coluna do interior, matéria publicada no periódico Jornal do Ceará, ano IV, edição nº 550,  em um sábado, dia 25 de maio de 1907, temos uma noção do tipo de problemas que arbitrava.

“Escreve-nos de Boa Viagem: Antônio Francisco Duarte e Sabino Rodrigues, moradores do lugar denominado de Marinheiro, deste Município, são possuidores de terra em comum, este, adquiriu a sua parte a 22 anos e aquele a 52. Sabino entendeu que ele só devia ser o possuidor de toda a terra e desde logo mandou à vila o seu filho, Francisco Sabino, que justou com Severino Benício a desapropriação de Duarte. Benício tem aspirações de chefe único de Boa Viagem, mas o bastão está nas mãos de José Rabêlo, a quem, como juiz, requereu, com má intenção, mandato de despejo que, sem nenhuma formalidade, foi concedido. Para executar a ordem foi incumbido o oficial Rufino, que recebeu instruções para fazê-la bem feita. Em caminho Rufino juntou-se a José Trajano e José Saraiva, ambos armados de rifle e ambos inimigos da família Duarte, os quais se reuniram adiante de três filhos de Sabino, formando assim a escolta armada para o ataque. Rufino, dispondo-os a certa distância da casa de Duarte, destacou-se a fazer a intimação, que não foi aceita por este. Fez então Rufino sinal aos da tropa e logo rompeu o fogo contra a casa de Duarte, que ficou crivada de balas. Desse ataque saiu ferido Duarte, que não obstante não cedeu o seu posto. No dia seguinte Francisco Sabino e José Trajano foram à vila comunicar o ocorrido a Benício que desta maneira pode complicar José Rabêlo, de cujas mãos quer retirar a chefia política. Um genro de Duarte, em vista do estado de seu sogro, vem denunciar o crime às autoridades, mas estas, mancomunadas entre si, não tomaram conhecimento. Delas só o adjunto do promotor, em vista do escândalo do fato, chamou a si a vítima, em quem fez o corpo de delito e tratou de instaurar o respectivo processo. As autoridades interessadas, se descuraram de seus deveres, dando lugar a que, só depois de um mês e cinco dias, é que vem depor no processo duas testemunhas que manifestam sua absoluta má vontade por essa autoridade, que se tem empenhado pela punição dos culpados, acrescendo que até o próprio oficial de justiça que fez a diligência tem procurado insinuar as testemunhas no que deve responder. Confia-se que o Dr. Francisco Rocha, juiz de direito da câmara, não deixará sem a devida punição os autores e responsáveis desse ataque, cuja reprodução será inevitável se ficarem sem o corretivo que a lei determina.”

Ao lermos essa matéria não podemos esquecer que esse jornal era de forte oposição ao Governo do Estado e o nome de José Rabêlo e Silva não era bem visto por seus editores, que podem ter manipulado o texto ou divulgado apenas parte do problema no intuito de depreciar a sua imagem perante a opinião pública da capital do Estado.
Segundo informações existentes no livro C-02, pertencente à secretaria da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem, tombo nº 31, folha 32v, faleceu no dia 23 de março de 1920, aos 75 anos de idade.
Logo após o seu óbito, depois das despedidas fúnebres que são de costume, o seu corpo foi sepultado por seus familiares no Cemitério Parque da Saudade, que está localizado na Rua Joaquim Rabêlo e Silva, nº 295, Centro.

BIBLIOGRAFIA:

  1. CAVALCANTE MOTA, José Aroldo. História Política do Ceará. (1889-1930). ABC: Fortaleza, 1996.
  2. IBGE. Histórico do Município de Boa Viagem. Disponível em http://cidades.ibge.gov.br/painel/historico.php?lang=&codmun=230240&search=ceara|boa-viagem|infograficos:-historico. Acesso no dia 13 de julho de 2017.
  3. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  4. PARÓQUIA DE NOSSA SENHORA DA BOA VIAGEM. Livro de registro dos casamentos. 1886-1903. Livro B-02, Tombo nº 68. Página 59.
  5. PARÓQUIA DE NOSSA SENHORA DA BOA VIAGEM. Livro de registro dos óbitos. 1916-1931. Livro C-02, Tombo nº 31. Página 32v.
  6. RIBEIRO, Valdir Uchôa. Conselhos de Intendência no Ceará. Fortaleza: Premius, 2005