Antônio Bezerra do Vale

Antônio Bezerra do ValeAntônio Bezerra do Vale nasceu no dia 27 de novembro de 1825 no Município de Quixeramobim, que está localizado no Sertão Central do Estado do Ceará, distante 203 quilômetros da cidade de Fortaleza.
Na época do seu nascimento a vila de Boa Viagem, que também era conhecida pelo topônimo de “Cavalo Morto”, era apenas um pequeno povoado existente dentro dos limites geográficos do Município de Quixeramobim:

“Distrito criado com a denominação de Boa Viagem, ex-povoado de Cavalo Morto, pela lei provincial nº 1.025, de 18 de novembro de 1862. Elevado à categoria de vila com a denominação de Boa Viagem, pela lei provincial nº 1.128, de 21 de novembro de 1864, desmembrado de Quixeramobim.” (IBGE, 2010: Histórico de Boa Viagem. Disponível em http://cidades.ibge.gov.br/painel/historico.php?lang=&codmun=230240&search=ceara|boa-viagem|infograficos:-historico. Acesso no dia 13 de julho de 2017)

Em sua juventude o nosso país passava por significativas transformações no âmbito político e social e esses efeitos, aos poucos, conseguiram chegar também até ao distante Sertão de Canindé da Província do Ceará:

“O período compreendido entre os anos de 1780-1850, em geral, foi palco de intensas transformações no Brasil. O final do século XVIII assistiu a decadência da exportação açucareira no Nordeste, como também a gestação da lavoura cafeeira paulista. A vida nas áreas urbanas se intensificou havendo um significativo crescimento populacional; Concomitantemente, a metrópole apostava na criação e proliferação das vilas enquanto formula de disciplinar a população e implementar estruturas administrativas e de fisco.” (VIEIRA JÚNIOR, 2004: p. 12)

Nessa mesma época, não diferente aos dias de hoje, a economia mundial conduzia a pauta de algumas transformações sociais e começou a surgir um abismo entre os sertanejos cearenses com o surgimento de uma frágil elite agropastoril que dependia exageradamente das boas estações chuvosas para manter a sua vitalidade.

“Entre os anos de 1780-1850 o Ceará assistiu a efetivação de sua colonização, a ascensão e decadência do ciclo pecuarista na pauta de exportação, o fortalecimento da vida urbana e o crescimento populacional… A partir dos anos 40 do século XIX o Ceará passou a conhecer um novo ciclo econômico, dominado essencialmente pelo algodão.” (VIEIRA JÚNIOR, 2004: p. 13)

Diante do desejo do Governo Imperial em ver a diminuição, e até mesmo o fim do nomadismo sertanejo existente na Região Nordeste, resolveu-se investir no desenvolvimento dos pequenos núcleos urbanos já existentes.
Nesse contexto de vontade política, por conta de seu potencial econômico, a vila de Boa Viagem começou a tomar forma e passou a exercer certa influência no Sertão do Ceará.

“A formação de vilas se impunha como solução para o combate a dispersão, e tentativa de organizar o crescimento da população, principalmente no Sertão, área tida como distante do controle metropolitano. As vilas e as residências fixas iam paulatinamente ganhando um sentido especial no processo de ordenação dos habitantes; Combatiam o deslocamento das famílias sertanejas, instigavam a formação de uma incipiente agricultura e, acima de tudo, aumentavam o poder fiscalizador das autoridades administrativas.” (VIEIRA JÚNIOR, 2004: p. 54)

Investindo nos núcleos urbanos da zona rural da Província do Ceará o governo decidiu, por meio da lei nº 1.025, de 18 de novembro de 1862, dar autonomia para criação de algumas vilas e deu o pontapé dessa ação elevando ao status de matriz algumas das capelas existentes na região, dentre elas a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem.
Pouco tempo depois, na gestão do Presidente Lafayette Rodrigues Pereira, através da lei nº 1.128, de 21 de novembro de 1864, a Assembleia Legislativa do Ceará decidiu conceder autonomia política a Boa Viagem.
O passo seguinte dessa importante ação foi a definição dos limites geográficos do novo Município, o cadastro de seus eleitores e a organização das eleições municipais.
Em nossas primeiras eleições estavam excluídos desse processo, além daqueles que não tinham residência na região, aqueles que não tinham renda suficiente, os escravos e as mulheres.

“A eleição era em dois graus. Os votantes de paróquia elegiam os eleitores que, por sua vez, elegiam os deputados e senadores. Havia a distinção entre votantes e eleitores… votante é quem vota na eleição primária, é quem elege o eleitor. Eleitor é aquele que elege o deputado ou senador. Para ser votante exigiam-se cem mil-réis de renda e para ser eleitor a renda dobrava para duzentos mil-réis. Para ser deputado, 400 mil-réis; para ser senador, 800 mil-réis.” (CARVALHO, 1987: p. 9 – 10)

Sendo um dos abastados agropecuarista de nossa região, residia com a sua família em uma localidade denominada de Sítio dos Bezerras e nessa ocasião colocando o seu nome na disputa pela escolha dos primeiros vereadores do Município de Boa Viagem, que aconteceu no dia 2 de janeiro de 1869, onde ficou em uma de suas suplências.

Imagem da Casa de Câmara e Cadeia do Município de Boa Viagem, fim da década de 1940.

Nessa legislatura, que sofreu por conta da baixa arrecadação de impostos, deu apoio aos seguintes feitos: O estabelecimento dos limites do Município de Boa Viagem e a resolução dos litígios entre os Municípios de Quixeramobim, Tamboril e Maria Pereira, atual Mombaça; A aprovação do primeiro Código de Posturas, que foi aplicado nas vilas, e o regulamento interno da Câmara Municipal de Vereadores; A organização dos primeiros leilões dos impostos camarários, entre eles a cobrança da décima urbana, algo semelhante ao IPTU, o Imposto Predial e Territorial Urbano; A realização de investimentos para manutenção da escola da vila e o encaminhamento das informações ao Governo da Província sobre as espécies de madeira existentes na região.
Desempenhou inúmeros serviços em favor do Município de Boa Viagem, como político e capitão da Guarda Nacional, sendo o responsável direto pelo Quarteirão da Ramadinha, uma companhia de homens que estava disponível para qualquer ação militar determinada pelo Governo da Província.
O 52º Batalhão de Infantaria foi criado através do decreto nº 4.520, de 28 de abril de 1870, sendo desmembrado do Município de Quixeramobim e tinha como comandante o Tenente Coronel José da Silva Bezerra:

“A Guarda Nacional foi uma força paramilitar organizada por lei no Brasil durante o período regencial, em agosto de 1831, para servir de ‘sentinela da constituição jurada’, e desmobilizada em setembro de 1922. No ato de sua criação lia-se: ‘Com a criação da Guarda Nacional foram extintos os antigos corpos de milícias, as ordenanças e as guardas municipais.’ Em 1850 a Guarda Nacional foi reorganizada e manteve as suas competências subordinadas ao ministro da Justiça e aos presidentes de província. Em 1873 ocorreu nova reforma que diminuiu a importância da instituição em relação ao Exército Brasileiro. Com o advento da República a Guarda Nacional foi transferida em 1892 para o Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Em 1918 passou a Guarda Nacional a ser subordinada ao Ministério de Guerra através da organização do Exército Nacional de 2ª Linha, que constituiu de certo modo sua absorção pelo Exército.” (S.N.T)

Foi casado com Maria dos Prazeres de Jesus, nascida no dia 15 de setembro de 1829, com quem gerou vários filhos, sendo alguns deles: Antônio Nunes do Vale, Francisco do Vale Bezerra, João Nunes do Vale, Manoel Rufino do Vale, José do Vale Bezerra, Maria Arcelina do Vale, Manoel do Vale Bezerra, Maria Ditoza do Vale Oliveira, João do Vale Bezerra e Francisco Nunes do Vale.
Era escravocrata e possuía muitas terras, sendo que a maioria delas estavam localizadas dentro do Distrito do Ipiranga, onde possuía um alambique e produzia cachaça e rapadura, mantendo intenso comércio com a Província de Pernambuco e a Província do Piauí.
Nesse período, quando vinha para cidade, costumava ficar estabelecido com a sua família em um grande casarão, que estava localizado na Rua Sargento Raimundo Valdir Soares, nº 7, no Bairro Boaviaginha, onde durante algum tempo funcionou a Rádio Canudos e logo depois o Colinas Clube.
Segundo informações existentes no periódico A Constituição, ano nº XIV, edição do dia 22 de setembro de 1875, foi nomeado juiz de órfãos do Município de Boa Viagem:

“Portaria – O presidente da Província, visto que os cidadãos José da Silva Bezerra, Luciano Alves da Costa Mendes e Antônio Bezerra do Vale, nomeados por portaria do dia 6 de abril último para os cargos de 1º, 2º e 3º suplentes de juiz municipal e de órfãos do termo de Boa Viagem…”

Pouco tempo depois, na disputa eleitoral que aconteceu no dia 1º de outubro de 1876, desejando retornar à vida pública do Município, colocou novamente o seu nome na disputa por uma das vagas do Poder Legislativo, conseguindo ser eleito ao receber a confiança de 124 votos, a quarta maior votação entre os seus pares.
Nessa legislatura, que se estendeu entre 1877 a 1881, enfrentou grandes desafios, dentre elas uma grande seca, que ficou conhecida como a “seca dos 1000 dias”, ocorrida entre 1877 e 1879.

“Todas as correspondências enviadas do interior da província nos primeiros anos de seca tinham em comum os espantosos relatos acerca da terrível condição dos moradores do sertão, mesmo os que podiam ser chamados de pessoas de posse… a solução foi a emigração em massa. Os pequenos e médios proprietários abandonaram terras e venderam ou trocaram seus escravos.” (FERREIRA NETO, 2006: 2006)

No dia 15 de janeiro do primeiro ano de sua gestão, por conta da seca, alguns vereadores solicitaram o adiamento de suas posses, sendo que muitos deles não compareciam às reuniões, passando a Câmara de Vereadores 2 anos sem funcionar, quando até as arrematações dos impostos camarários foram desprezadas diante da falta de interessados, deixando as contas e outras responsabilidades do Município em atraso.
Mais tarde, no dia 28 de outubro de 1881, por meio de ofício, o Governo da Província, preocupado com a capacidade hídrica da região, solicitou o número de açudes públicos existentes, bem como os seus proprietários.

BIBLIOGRAFIA:

  1. CARVALHO MOTA, José Aroldo. História Política do Ceará (1889-1930). ABC: Fortaleza, 1996.
  2. FERREIRA NETO, Cicinato. A Tragédia dos Mil Dias: A seca de 1877-79 no Ceará. Premius: Fortaleza, 2006.
  3. MOTA, José Aroldo Cavalcante. História Política do Ceará (1889-1930). ABC: Fortaleza, 1996.
  4. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  5. PEIXOTO, João Paulo M.; PORTO, Walter Costa. Sistemas Eleitorais no Brasil. Brasília: Instituto Tancredo Neves, 1987.
  6. VIEIRA JÚNIOR, Antônio Otaviano. Entre Paredes e Bacamartes. História da Família no Sertão (1780-1850). Edições Demócrito Rocha: Fortaleza, 2004.