Sofia Vieira de Freitas

Sofia Vieira de Freitas nasceu no dia 4 de agosto de 1885 no Município de Catolé do Rocha, que está localizado no Sertão paraibano, distante 411 quilômetros da cidade de João Pessoa, capital daquele Estado, sendo filha de Pedro Vieira Carneiro e de Maria Floriana de Morais.
Os seus avós paternos se chamavam Manoel Vieira Carneiro e Antônia Maria de Jesus, já os maternos eram José Alexandre de Freitas Filho e Maria Floriana de Lacerda.
Na época do seu nascimento, veio ao mundo pelas mãos de uma parteira nas proximidades da vila de Brejo dos Santos, que nesse período era conhecida pelo topônimo de “Brejo dos Cavalos”, sendo uma pequena localidade rural pertencente ao Município de Catolé do Rocha.
A mudança desse nome ocorreu por conta de uma grande onda de intolerância religiosa ocorrida nos últimos anos da década de 1930, na mesma época em que ocorria grandes transformações em sua vida.

“A Igreja Evangélica Congregacional instalou-se nesse  Município em 1928. O pastor era o Rev Henry Briault, de nacionalidade inglesa, que trabalhou, de certo modo, pelo progresso do lugar. Pelos anos de 1937 a 1939, as duas forças religiosas do lugar tiveram divergências, desentendimento este que gerou até violência.”  (IBGE: A história de Brejo dos Santos. Disponível em https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pb/brejo-dos-santos/historico. Acesso no dia 24 de fevereiro de 2018)

Algum tempo antes desses fatos, segundo informações existentes no livro B-06, pertencente ao Cartório de Registro Civil de Catolé do Rocha, tombo nº 503, folha 96v, no dia 31 de outubro de 1913, aos 25 anos de idade, casou em primeiras núpcias com José Antônio da Silva Filho, que nasceu no dia 2 de maio de 1889, sendo filho de José Antônio da Silva e de Delfina Maria da Conceição, passando a residir em um pequeno sítio denominado de “Dois Irmãos”, na zona rural do Município de Pombal.
Desse matrimônio foram gerados quatorze filhos, entretanto sete dessas crianças foram vítimas de mortalidade infantil, doença muito comum naquela época, os que conseguiram sobreviver, quatro homens e três mulheres, foram eles: Rosemiro Vieira da Silva, Maria Vieira da Silva, José Vieira da Silva, Telmira Vieira da Silva, Sebastião Vieira da Silva, Alcina Vieira da Silva e Isaías Vieira da Silva.
Nessa época, de alguma forma, o seu esposo teve contato com um evangelista protestante chamado Sinfrônio Costa, que costumava andar pela região propagando o Evangelho e os serviços da Igreja Evangélica Congregacional de Catolé do Rocha, através de quem conheceu um missionário inglês, o Rev. Harry George Briault.
Ainda nesse período, convenceu alguns de seus parentes, entre eles o esposo de sua cunhada, que se chamava Manoel Maria de Jesus, residentes no Sítio Jacu, uma localidade que era vizinha a sua, a receber a visita desse missionário, o que despertou o desejo de traze-lo a sua casa na intenção de compartilhar de sua fé.

“Corria a década de 1920, quando o irmão José da Silva Filho, novo convertido, deixa Brejo dos Santos e passa a residir em Jacu, um sítio no Município de Pombal, no Estado da Paraíba. Cheio de entusiasmo e fervor, começa aí a fazer um trabalho de evangelização pessoal, surgindo, como fruto de suas atividades evangelísticas, uma congregação daquele lugar. O missionário inglês Harry G. Briault, que residia em Patos, dava boa assistência a Jacu e a congregação prosperou, sendo organizada em igreja, com o nome de Igreja Evangélica de Jacu, no dia 21 de fevereiro de 1937.” (FRAGOSO VIEIRA, 1990: p. 01)

De acordo com as informações fornecidas por Telmira Fragoso da Silva, uma das filhas do casal, de início, a sua mãe, sendo uma católica zelosa, refutou veementemente tal ideia, gerando inclusive algumas discórdias entre o casal, que com o tempo foram sendo contornadas.
Certa vez, depois de uma dessas discussões, contrariada por ter de receber o missionário em sua casa, a sua mãe se escondeu no meio do mato e emburrada estava arremessando pedras contra um pé de jurema, quando foi encontrada pelo marido e sendo questionada sobre essa atitude respondeu “estar jogando pedras no missionário”.
Em outra oportunidade, ao acordar cedinho com o seu marido para tirar o leite do gado, foram acompanhados do missionário para o curral, e esse ficou ao pé da porteira acompanhando o serviço, mas o gado, assustado pela presença do curioso missionário, não permitiu ao experiente vaqueiro a retirada do leite.
Ao retornar para casa, sendo interrogada por uma das filhas sobre a falta de leite no café da manhã, disse em segredo que o gado havia visto um “demônio”, e por isso não deixou o seu pai ordenhá-las.
Em um dos cultos ocorridos no alpendre de sua cada, “espiando” curiosamente a reunião por uma das frestas da porta, procurava a manifestação de um demônio, como rotineiramente ouvia do padre nas missas em assistia.

“A perseguição aos protestantes de Brejo dos Cavalos não se limitou à derrubada de templos evangélicos, comandada na época pelo sacerdote católico, Padre Otaviano. Mas também às ameaças de morte e espancamentos que deixaram sequelas e, por conseguinte até morte. Dentre outras ações temerárias. Só para deixar patente o nível rasteiro da perseguição imposta aos protestantes, e liderada pelo pároco de Brejo dos Cavalos. O referido sacerdote chegou a disseminar entre toda a população que o batismo dos crentes se dava da seguinte forma: ‘o indivíduo ficava de ponta-cabeça, berrando igual a um bode, com uma vela preta na mão e um punhado de sal grosso no ânus’. Motivo pelo qual levou o pastor protestante da época a realizar no final do ano de 1926 vários batizados no pátio externo da congregação, com o fito único de desmistificar o ardil montado pelo padre.” (CARNEIRO FILHO, 2008: p. 01)

Aos poucos, percebendo que havia sido enganada pelo discurso preconceituoso rotineiramente proferido pelos padres contra os protestantes, foi convencida pela exposição bíblica das mensagens, aderindo a confissão reformada.
Mais tarde, segundo informações existentes no livro C-17, pertencente ao Cartório de Registro Civil de Catolé do Rocha, tombo nº 895, folha 39v, no dia 1º de junho de 1933, de forma inesperada, provavelmente acometido de cólera, os seus planos de vida foram totalmente modificados depois da prematura morte de seu marido, que faleceu com apenas 44 anos de idade.
Nessa mesma época um de seus cunhados, Manoel José da Silva, que era carinhosamente chamado de “Nequim”, nascido no dia 13 de maio de 1884, também sofreu um duro golpe do destino depois da morte de sua segunda esposa, que se chamava Rosa Maria da Conceição.
Diante dessa situação, seis meses depois desses fatos, segundo informações existentes no livro B-07, pertencente ao Cartório de Registro Civil de Catolé do Rocha, no dia 3 de janeiro de 1934, tombo nº 168, folha 2, os dois viúvos resolveram se unir em matrimônio, somando os seus sete filhos aos quinze de seu novo esposo e cunhado.

“Da primeira união, com Maria Antônia da Silva, gerou nove filhos: Manoel José da Silva Filho, Beliza Maria da Silva; Delmiro Manoel da Silva, Francisca Maria da Silva, Wandeley Manoel da Silva, Genezina Maria da Silva, Luiza Maria da Silva, José Antônio da Silva Neto e Catarino Manoel da Silva. Do segundo enlace, com Rosa Maria da Conceição, gerou cinco filhos: Francisco Manoel da Silva, Delfina Maria da Conceição, Rubem Manoel da Silva, Levi Manoel da Silva, Abel Manoel da Silva e Maria Rosa Vieira.” (SILVA JÚNIOR, 2015: p. 200)

Algum tempo antes desses fatos, o seu segundo esposo, que era um esforçado evangelista protestante, havia sido consagrado diácono da Igreja Evangélica Congregacional de Brejo dos Santos, localidade em que habitava.
Nos últimos meses de 1937, desejando seguir o mesmo destino de alguns de seus familiares, entre eles outro de seus cunhados, Martins José da Silva, que necessitando de mais terras escolheu o Estado do Ceará como alternativa, migrou com a sua numerosa família também para zona rural do Município de Boa Viagem.

“No dia 15 de novembro de 1937, o primo de Manoel Maria de Jesus, Manoel José da Silva (*1885 †1955), diácono da Igreja Evangélica Congregacional que era estabelecida no Sítio Jacu, no estado da Paraíba, veio para o Município de Boa Viagem, no Estado do Ceará.” (SILVA JÚNIOR, 2015: p. 199)

Antes disso, o seu esposo comprou uma considerável propriedade em uma localidade que era denominada de “Madeira Cortada”, propriedade que antes pertencia ao agropecuarista Vicente de Paulo.
Ao se estabelecerem nessa propriedade, com o apoio da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira, aos poucos essa grande família deu sustentação para fundação do trabalho protestante que surgiu na região, sendo eles: a Igreja Batista Regular de Madeira Cortada e a Igreja Evangélica Congregacional de Várzea da Tapera.
Nos primeiros meses de 1942, ano em que ocorreu uma grave estiagem, juntamente com outros habitantes da região, o seu esposo iniciou as obras de construção de um açude, que só conseguiu juntar um bom volume d’água no ano seguinte, o suficiente para iniciarem um plantio de batatas, o que garantiu o sustento da família por algum tempo.
Alguns anos depois, no dia 15 de junho de 1955, foi surpreendida pelo inesperado falecimento de seu esposo, logo depois, no dia 2 de junho de 1966, foi a vez de lamentar o falecimento de uma de suas irmãs, Felisbela Vieira de Freitas, mais tarde, no dia 9 de agosto de 1974, foi a vez de seu irmão, José Vieira de Freitas.
Segundo informações existentes no livro C-01, pertencentes ao Cartório Geraldina, 1º Ofício, tombo nº 634, folha 192, faleceu no dia 20 de fevereiro de 1980, prestes a completar noventa e cinco anos de idade.
Logo após o seu falecimento, depois das despedidas fúnebres que são de costume, o seu corpo foi sepultado no mausoléu pertencente a sua família que existe no Cemitério Parque da Saudade, que está localizado na Rua Joaquim Rabêlo e Silva, nº 295, no Centro da cidade de Boa Viagem.

  1. CARNEIRO FILHO, Davi Vieira. A Perseguição Religiosa aos Protestantes em Catolé do Rocha. Boa Viagem, 2008.
  2. FRAGOSO VIEIRA, Ezequiel. A história da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira. Boa Viagem, 1990.
  3. IBGE. A história de Brejo dos Santos. Disponível em https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pb/brejo-dos-santos/historico. Acesso no dia 24 de fevereiro de 2018.
  4. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  5. SILVA JÚNIOR, Eliel Rafael da. Andarilhos do Sertão. A Chegada e a Instalação do Protestantismo em Boa Viagem. Fortaleza: PREMIUS, 2015.

HOMENAGEM PÓSTUMA:

  1. Em sua memória, na gestão do Prefeito Dr. Fernando Antônio Vieira Assef, por meio da lei nº 765, de 4 de outubro de 2001, uma escola da rede pública municipal, localizada em Madeira Cortada, recebeu a sua nomenclatura.

6 ideias sobre “Sofia Vieira de Freitas

  1. Pingback: BIOGRAFIAS | História de Boa Viagem

  2. Pingback: Aniel Fragoso Vieira | História de Boa Viagem

  3. Pingback: Izaac Fragoso Vieira | História de Boa Viagem

  4. Pingback: AGOSTO | História de Boa Viagem

  5. Pingback: FEVEREIRO | História de Boa Viagem

  6. Pingback: Manoel José da Silva | História de Boa Viagem

Deixe uma resposta