Pe. Francisco Jorge de Sousa

Francisco Jorge de Sousa nasceu no dia 7 de setembro de 1815 no Município de Santana do Seridó, que está localizado na região Oriental do Seridó potiguar, distante 237 quilômetros da cidade de Natal, sendo filho de Félix Jorge de Sousa Oliveira e de Maria Vitória do Nascimento.
Os seus avós paternos se chamavam Félix José de Sousa Oliveira e Teodora Maria de Jesus.
Na época do seu nascimento o nosso país ainda era uma colônia portuguesa e o Rio Grande do Norte apenas uma de suas províncias, já Santana, nesse período, não passava de uma pequena vila de casas nas margens do Riacho da Raposa, dentro dos limites geográficos do Município de Jardim do Seridó.

“Em 30 de novembro de 1953 era criado o Distrito de Santana do Seridó, através da lei nº 962. O Distrito desmembrou-se do Município de Jardim do Seridó no dia 10 de maio de 1962 através da lei nº 2.770, sendo finalmente instalado como Município no dia 9 de abril de 1963.” (S.N.T)

Pouco conhecemos sobre os seus primeiros anos de infância, mas sabemos que realizou os seus estudos propedêuticos e finalmente o curso de Teologia no Seminário Episcopal de Nossa Senhora da Graça, que está localizado na Rua Bispo Coutinho, s/nº, no Bairro do Carmo, em Olinda, na Província de Pernambuco, recebendo o presbiterato aos 25 anos de idade, no dia 9 de março de 1840, das mãos do bispo diocesano, Dom Frei João da Purificação Marques Perdigão.

“O Seminário de Olinda era um estabelecimento de cunho marcadamente iluminista… O seu plano de estudos previa a formação do clero pelo cultivo das ciências, mas a instituição também era aberta aos leigos, recebendo como alunos muitos jovens de famílias abastadas. As suas cadeiras serviam como disciplinas preparatórias para os estudos superiores e incluíam gramática latina, grego, retórica, poética, filosofia (lógica, metafísica e ética), filosofia natural (história e ciências naturais) e matemática, além de teologia moral e dogmática.” (VEIGA, 2007: p. 66)

Algum tempo depois, no dia 31 de outubro de 1843, por provisão do visitador, foi nomeado vigário coadjutor do Pe. Justino Furtado de Mendonça, na Igreja Matriz de Santa Quitéria, na Província do Ceará.

“Certifico que no dia 30 de novembro de 1843, nesta Matriz de Santa Quitéria, da Província do Ceará, à estação da Missa Conventual, na presença dos fregueses, publiquei a provisão acima, tomando logo posse da coadjutoria da mesma freguesia. Ita in fide sacerdotis – Santa Quitéria, era ut supra.” (DA FROTA, 1974: p. 132)

Depois de algum tempo, em 1845, foi novamente designado pelo bispo diocesano de Olinda, Dom Frei João da Purificação Marques Perdigão, vigário coadjutor da Paróquia de Santo Antônio de Pádua, na vila de Quixeramobim, localizada no Sertão cearense.
Nessa mesma época, ainda em 1845, assumiu as atividades pastorais da Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, que está localizada no Sertão Central cearense. Essa pequena capela estava aos cuidados da Igreja Matriz de Santo Antônio de Pádua e há muitos anos estava sem um pastor, tendo em vista que o seu último capelão, o Pe. Gonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque Melo, o Pe. Mororó, falecera como um dos mártires da Confederação do Equador.

“O Pe. Francisco Jorge de Sousa foi capelão na povoação de Boa Viagem, como se deduz de um assento de óbito de Ana Joaquina no livro de óbitos da Freguesia de Quixeramobim, [entre os anos de] 1838-1858.” (DA FROTA, 1974: p. 132)

Após a sua definitiva saída da capelania de Nossa Senhora da Boa Viagem, em 1848, assumiu o Pe. Francisco Manoel de Lima e Albuquerque.
Antes disso, no dia 19 de fevereiro de 1847, através do Pe. Francisco Antônio de Melo, cumprindo as ordens estabelecidas pelo bispo de Pernambuco, recebeu nomeação como vigário encomendado da vila de Sobral, que está localizada na região Noroeste do Estado do Ceará, distante 240 quilômetros da cidade de Fortaleza.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Sobral.

Imagem da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, na cidade de Sobral.

Nessa ocasião, a solenidade de posse consistia na leitura de uma provisão episcopal, finda a qual, o novo vigário sentava-se na cadeira paroquial, postada no arco do cruzeiro, dentro da capela-mor da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, logo depois de ter ido ao altar e beijar a mesa na qual eram preparados os elementos da comunhão.

“Certifico que foi lida esta provisão na igreja matriz da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Sobral, na ocasião da Missa Conventual, passei a dar posse ao Reverendo Vigário Francisco Jorge de Sousa, com as solenidades do estilo. O que tudo afirmo in fide sacerdotis, sendo a dita posse no domingo, dia 21 de março de 1847.” (DA FROTA, 1974: p. 132)

Nessa época, em nosso país, os bispos nomeavam os vigários encomendados e a sua colação de serviço eclesiástico dependia da apresentação do candidato por uma Carta Imperial. Diante disso, tomou ele novamente posse, segundo registro da paróquia, desta vez como padre colado, no dia 14 de janeiro de 1849.

“O Pe. Francisco Jorge de Sousa, apresentado por Carta Imperial, de 14 de junho de 1848, foi colocado por provisão pelo bispo de Pernambuco, datada de 25 de agosto do mesmo ano.” (DA FROTA, 1974: p. 132)

Nessa época, também era o costume apresentar as cartas de provisão dos vigários colados, ou encomendados, de coadjutores, capelães, e de outras desse gênero, nas Câmaras Municipais, onde ficavam registrados em livros competentes para esse fim, e em que, finalmente, se lavrava o termo de posse do respectivo emprego.

“Como o Governo Imperial dava uma côngrua aos serventes eclesiásticos, estes deviam juntar o atestado da Câmara de como era realmente proprietário daquele cargo, residiam no lugar e cumpriam fielmente as suas obrigações.” (DA FROTA, 1974: p. 133)

Dentre as suas realizações, nessa paróquia, destacamos a ampla reforma da Capela de Nossa Senhora da Lapa, que já existia antes de 1800, e rotineiramente costumava receber a sua presença para o repouso e o restabelecimento de sua frágil saúde.
Registramos também que, em seu paroquiato, surgiu o triste flagelo da febre amarela, que conseguiu fazer muitas vítimas na Província do Ceará, entre as quais de um de seus companheiros de atividades pastorais, o Pe. Francisco Antônio de Melo, falecido em 1852 e sepultado na Capela de Nossa Senhora das Dores.

“Por ofício, de 31 de junho de 1852, o Vigário Francisco Jorge de Sousa comunicou ao Presidente da Província, Joaquim Marcos de Almeida Rego, que a epidemia de febre amarela começou no princípio de junho de 1852 e depois no dia 24 do dito mês estava em pleno desenvolvimento. Até 30 de julho haviam morrido 94 pessoas, sendo 50 adultos, de 15 a 70 anos; e 44, de 1 a 10 anos.” (DA FROTA, 1974: p. 133)

Nesse período, para evitar o pânico da população, o Pe. Francisco Jorge suspendeu o toque fúnebre dos sinos e a distribuição do viático nas igrejas. Outra importante atitude tomada em seu paroquiato, no intuito de não propagar a epidemia, foi a proibição da realização de sepultamentos de cadáveres dentro dos santuários das capelas, algo que era comum e muito concorrido naquela época.
Quando irrompeu a epidemia, imediatamente solicitou licença ao bispo diocesano para benzer um terreno que serviria de cemitério para comunidade e, no dia 13 de junho de 1853, dirigiu-se por carta ao presidente da Província e aos membros da Câmara Municipal dizendo o seguinte:

“Sendo eu o primeiro que reconhece a grande necessidade de desarraigar o antigo costume de sepultarem-se no santuário da divindade os corpos humanos; tanto pela descendência oposta aos respeitos devidos ao adorável culto do Ente Supremo, como pelas conveniências da salubridade pública: Logo que nessa freguesia apareceu a epidemia de febre amarela, solicitei do Exmo. Sr. Bispo autorização para benzer um terreno para edificar um cemitério para o sepultamento dos corpos.” (DA FROTA, 1974: p. 134)

Em 1856, já perfeitamente adaptado à sua querida paróquia, o Pe. Francisco Jorge de Sousa cuidou logo em edificar uma casa, onde residiria com a sua mãe e uma irmã, que era viúva, local onde permaneceu até o fim de seus dias.
O seu sobrado foi construído na Rua da Vitória, s/nº, Centro, próximo ao sobrado do Major João Pedro da Cunha Bandeira de Melo, e logo após a sua morte foi negociado com o Senador Francisco de Paula Pessoa, recebendo uma ampla e bela reforma em 1897.

Residência

Imagem do sobrado construído pelo Pe. Francisco Jorge de Sousa, na cidade de Sobral.

Enquanto esteve na vila de Sobral não se descuidou de seus estudos, com grande dificuldade, a partir de 1857, manteve um trânsito constante entre Sobral e a cidade do Recife, deixando nessas ocasiões a sua freguesia aos cuidados de seu irmão, o Pe. Vicente Jorge de Sousa.

“Ilmo. Exmo. Sr. Dr João Silveira de Sousa, D. Presidente do Ceará. Tendo obtido do Exmo. Bispo Diocesano licença por 6 meses para ausentar-me de minha freguesia na cidade de Sobral… por ter vindo matricular-me no primeiro ano da Faculdade de Direito do Recife; Expirou o prazo no último dia de julho sem que me chegasse as mãos a licença por mais tempo que solicitei… A freguesia está sendo devidamente curada pelo Pe. Vicente Jorge de Sousa. Deus guarde a V. Excia.” (DA FROTA, 1974: p. 140)

No dia 9 de dezembro de 1861, com todo o esforço e cheio de méritos, conseguiu finalmente colar o grau de Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Recife.
Depois disso, retornando para cidade de Sobral e padecendo de sérios problemas de saúde, nunca deixou de executar as suas atividades pastorais e a contar, durante vários anos, com o valioso apoio de seu irmão, que era um de seus coadjutores, e depois passou a ser o seu substituto.

“O Pe. Francisco Jorge de Sousa sempre teve pouca saúde, sofrendo de esgotamento nervoso, que lhe sobreveio quando estudante de Direito, em Recife.” (DA FROTA, 1974: p. 133)

Nesse meio tempo, nas noites quentes de Sobral, fazia da Capela da Lapa o seu refugio até que, no dia 18 de setembro, satisfeito com o retorno de seu irmão, que durante algum tempo esteve em sua terra natal no intuito de pagar uma promessa, indicou-lhe como seu sucessor ao bispo diocesano.

“Ilmo. Exm. e Revmo. Senhor D. Luís Antônio dos Santos. Há poucos dias respondi… e hoje chegou aqui em Sobral o meu mano, Pe. Vicente Jorge de Sousa, que chegando de Pernambuco me veio ver, e nesta data o autorizo para interinamente reger a minha freguesia  se V. Excia. Revma. não mandar ao contrário.” (DA FROTA, 1974: p. 133)

Ao chegar, o Pe. Vicente Jorge de Sousa percebeu a gravidade do estado de saúde e a fragilidade de seu irmão, de acordo com o seu relato “o achou bastante doente, porém ainda de pé, e mais aliviado dos incômodos da cabeça”.

“Regressou o vigário a Sobral no mês de outubro, e foram-se agravando sempre mais os seus incômodos, ‘vindo a acabar a sua existência sofrendo as mais pungentes e agudas dores’, como escreveu o Pe. Vicente a Dom Luís.” (DA FROTA, 1974: p. 136)

O Pe. Francisco Jorge de Sousa, depois de muito sofrimento, faleceu de problemas cardíacos no dia 13 de novembro de 1866, assistido em seus últimos momentos pelo seu estimado irmão.
Era um religioso muito querido pela comunidade sobralense, conta-se que o seu enterro foi solene, seguindo o protocolo de costumes dessa época o seu ataúde, depois de aberto, recebeu a visita de uma multidão de pessoas e, durante o cortejo fúnebre, que se dirigiu ao Cemitério de São José, que está localizado na Avenida Lúcia Sabóia, s/n°, no Centro da cidade de Sobral. Nesse percurso foram necessárias várias paradas para as absolvições rituais.
Pelo registro do seu óbito, feito no livro de tombo da paróquia, redigido pelo seu irmão, Pe. Vicente Jorge de Sousa, temos uma ideia do cenário e da forma da realização de seu ofício fúnebre:

“Aos 13 de novembro de 1866, faleceu da vida presente o Reverendo Vigário desta freguesia, Doutor Francisco Jorge de Sousa, natural do Seridó, foi confessado, assistido, ungido e sacramentado, faleceu de moléstia do coração, na idade de cinquenta e um anos; o seu corpo foi vestido dos paramentos sacerdotais, encomendado solenemente pelo Reverendo Vigário Miguel Francisco da Frota, assistido pelos sacerdotes Antônio da Silva Fialho e Francisco Jorge de Sousa, as irmandades do lugar e o povo, sendo no dia seguinte sepultado na catacumba número dois do cemitério desta cidade.” (DA FROTA, 1974: p. 137)

Anos depois, no dia 27 de outubro de 1869, a pedido de seu irmão e por licença episcopal, os seus restos mortais foram transladados do Cemitério de São José para um lóculo previamente preparado na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, onde existe também uma lápide contendo algumas informações de sua trajetória de vida.