Pe. Gonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque Melo

Eliel JrGonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque Melo nasceu no dia 24 de julho de 1778 na Fazenda Santa Bárbara, distante 25 quilômetros da cidade de Sobral, em um povoado conhecido na época por Riacho dos Guimarães, atual cidade de Groaíras, que está localizado na região Noroeste do Estado do Ceará, a 220 quilômetros da cidade Fortaleza.
Depois do seu nascimento, no dia 15 de setembro, seguindo os costumes da confissão religiosa de seus pais, recebeu o sacramento do batismo das mãos do Pe. Domingos Francisco Braga na Capela de Nossa Srª do Rosário de Guimarães.
Segundo Barros Leal (1996, p. 58), alguns anos depois ficou conhecido pela alcunha de Pe. Mororó pelo fato de que, em um diálogo com Bárbara Pereira de Alencar, heroína cearense, chegou a dizer: “Dona Bárbara, em minha terra, a madeira que verga, mas não quebra, é o mororó, e de hoje por diante esse será o meu nome.”
O seu pai foi um alferes do exército português que era natural do Rio Grande do Norte e se chamava Félix José de Sousa e Oliveira, já a sua mãe, Theodósia Maria de Jesus Madeira, era uma cearense nascida em Sobral.
Esse casal contraiu matrimônio no dia 5 de agosto de 1765 e gerou sete filhos, quatro mulheres e três homens, sendo eles: Gertrudes Tereza Inácio, Maria Joaquina de Oliveira, Gonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque Melo, Ana Antônia de Sousa, Raimunda Francisca Xavier, Francisco de Sousa Oliveira e Inácio Gonçalo de Oliveira.
Os seus avós paternos se chamavam Francisco de Sousa e Oliveira e Tecia Rodrigues Pinheiro, ambos naturais da Província do Rio Grande do Norte, já os seus avós maternos eram Manoel Madeira de Matos, que era natural de São Bento, uma freguesia pertencente à Província portuguesa de Coimbra, e Francisca de Albuquerque Mello, natural de Sirinhaém, no litoral da Província de Pernambuco.
Algumas histórias da época nos contam que o seu avô materno veio para o Brasil por causa das perseguições palacianas movidas pelo secretário de estado de D. José I, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, e que, inicialmente, conseguiu fugir para uma das colônias portuguesas existentes no continente africano até que, posteriormente, chegando ao Brasil, se fixou no Piauí e logo depois se mudou para o Ceará, onde finalmente se estabeleceu no Riacho dos Guimarães, até então pertencente à vila de Sobral.
De sua infância sabemos apenas sobre a sua brilhante vida acadêmica e que aprendeu as primeiras letras com o Tenente Manoel Correia Lopes de Sá, desde cedo demonstrando ser um dedicado aluno das ciências físicas e naturais.
Em 1793, na vila de Sobral, graças ao Pe. Manoel Francisco Rodrigues da Cunha, deu inicio aos seus estudos de língua latina e seis anos depois já era capaz de substituir ao seu renomado mestre:

“O Pe. Manoel Francisco Rodrigues da Cunha dirigiu ao bispo de Pernambuco o seguinte ofício: ‘Exmo. e Revdmo. Senhor – Diz […] professor de gramática latina na vila de Sobral, Comarca do Ceará grande […]  a este declara substituindo o seu lugar um dos seus alunos mais adiantados, Gonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque Melo, sem embargo de lhe negar […] que se queira dignar haver por bem a conservação daquele substituto na cadeira do suplicante’.” (DA FROTA, 1974: p. 500)

No fim de 1799, demonstrando firme vocação ao sacerdócio, juntamente com o conterrâneo Francisco Gonçalo Ferreira Magalhães, resolveu partir com o seu mestre em língua latina para à Província de Pernambuco no intuito de realizar os estudos propedêuticos e posteriormente Filosofia e Teologia no Seminário Episcopal de Nossa Senhora da Graça, que está localizado na Rua Bispo Coutinho, s/nº, no Bairro do Carmo, na vila de Olinda, na Província de Pernambuco:

“O Seminário de Olinda era um estabelecimento de cunho marcadamente iluminista […] O seu plano de estudos previa a formação do clero pelo cultivo das ciências, mas a instituição também era aberta aos leigos, recebendo como alunos muitos jovens de famílias abastadas. As suas cadeiras serviam como disciplinas preparatórias para os estudos superiores e incluíam gramática latina, grego, retórica, poética, filosofia (lógica, metafísica e ética), filosofia natural (história e ciências naturais) e matemática, além de teologia moral e dogmática.” (VEIGA, 2007: p. 66)

No dia 6 de janeiro de 1800, no dia da inauguração oficial do seminário, os dois seminaristas sobralenses recitaram alguns versos em homenagem ao seu ilustre fundador, Dom José Joaquim de Azeredo Coutinho.
Alguns dias depois, por carta, Gonçalo recebeu uma triste notícia de sua querida terra, o seu pai faleceu repentinamente no dia 30 de janeiro colocando em dificuldade as finanças de sua família.
Diante das dificuldades, Dom Azeredo Coutinho, compadecido de sua situação, resolveu nomear-lhe seu secretário particular, ajudando-o em suas despesas até a sua ordenação sacerdotal, ocorrida em novembro de 1802.
Em sua época de estudante, no Seminário de Olinda, teve como colegas os seminaristas: Joaquim da Silva Rabêlo, posteriormente conhecido como Frei Caneca; e Miguel Joaquim de Almeida e Castro, conhecido como Pe. Miguelinho, heróis da Revolução Pernambucana.
Sobre as ideias e o temperamento do seminarista Gonçalo, segundo Barros Leal (1996, p. 58), assim se expressou, como se estivesse prevendo, Dom Azeredo Coutinho: “Este moço há de se perder na primeira revolução que houver no Brasil.”
Depois de ordenado, conforme Silveira (2004, p. 109), foi designado pelo bispo diocesano a retornar para à Província do Ceará e, no dia 9 de dezembro de 1802, celebrou a sua primeira missa na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, na vila de Sobral, a sua terra natal, onde permaneceu até 1806, prestando auxílio ao Pe. Manoel Pacheco Pimentel nos serviços da paróquia e nas atividades relacionadas à educação e mais tarde, “O seu primeiro apostolado desenvolveu-se na Ermida de Nossa Senhora da Guia da Barra do Acaraú.”
De 1803 a 1808, foi serventuário dos vigários da Igreja Matriz de Sobral, transferido-se para freguesia de São Gonçalo da Serra dos Cocos, prestando assistência religiosa na Capela da Vila Nova d’El Rei, hoje Guaraciaba do Norte.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Sobral.

Imagem da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, na cidade de Sobral, em 2009.

Após esse período, foi designado pela Diocese de Pernambuco a compor o quadro de sacerdotes coadjutores da Igreja Matriz de Santo Antônio de Pádua, na cidade de Quixeramobim, no Sertão do Ceará:

“Com a finalidade de ressaltar a importância da freguesia, consta que o ofício dirigido pela Câmara da então vila de Campo Maior ao presidente da Província, datado de 8 de janeiro de 1831, dava conta de que a Matriz de Santo Antônio possuía as seguintes capela importantes: Nossa Senhora da Conceição – Barra do Sitiá; Nossa Senhora da Glória – Maria Pereira; Jesus, Maria e José – Quixadá; Nossa Senhora da Boa Viagem – Boa Viagem.” (SIMÃO, 1996: p. 101)

Nessa época esteve por pouco tempo a frente da Capela de Jesus, Maria e José, na vila de Quixadá,  até que, em 1810, já com 32 anos de idade, foi designado a servir como capelão de um povoado que era conhecido pela alcunha de “Cavalo Morto”, nome primitivo da vila de Boa Viagem, também no Sertão cearense, na época pertencente à vila de Campo Maior do Quixeramobim:

“Boa Viagem, localizada no Município de Quixeramobim, que foi elevado à categoria de Freguesia pela lei provincial nº 1.025, de 18 de novembro de 1862, teve como o seu primeiro capelão, em 1810, este invulgar e valente Padre Gonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque Melo.” (BARROS LEAL, 1996: p. 56)

Sobre o seu pastorado em Boa Viagem, assim se expressou o escritor boa-viagense Cícero Pinto do Nascimento, em sua obra “Memórias da Minha Terra” (2002, p. 96), através do testemunho do Prof. Manoel Ximenes Aragão, sobrinho do Pe. Mororó, “que no fim de 1810 ele veio a residir em nossa cidade com os seus pais e o tio, permanecendo neste povoado até 1814, ano em que foi residir no Município de Tamboril”:

“Em 1813 batizou em Santa Quitéria e no ano seguinte em Tamboril, onde teve a oportunidade de combater a jogatina e de encenar peças dramáticas. Depois esteve em Campo Grande, posteriormente vila Nova d’El Rei e por fim Guaraciaba do Norte. Daí foi para as capelas das Barras do Sitiá.” (BARROS LEAL, 1996: p. 56)

Logo após a sua definitiva saída da vila de Boa Viagem a pequena comunidade passou, provavelmente motivada por motivos financeiros, uma longa temporada sem ter um vigário residente. Nesse período os ofícios religiosos foram diminuídos e durante alguns anos a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem foi assistida por padres visitantes.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem.

Imagem de Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem, na cidade de Boa Viagem, em 2010.

O posto de capelão responsável pela vila de Boa Viagem só foi preenchido por volta de 1845 pelo Pe. Francisco Jorge de Sousa, que também demorou pouco tempo no exercício dessa função.
O Pe. Gonçalo, em sua atividade religiosa pelo interior do Ceará, chegou a pregar contra a Revolução de 1817 até que, aos poucos, começou a ter contato com as ideias liberais lançadas no “Correio Braziliense”, um jornal liberal que era editado na cidade de Londres pelo jornalista brasileiro Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça:

“Em 1817, ano da Revolução Pernambucana, tomou posição a favor do governo. Data desse tempo, o início de seu envolvimento em lutas políticas que lhe trouxe tantos dissabores e a própria morte.” (SILVEIRA, 2004: p. 110)

O Pe. Mororó era mestre maçom, fato que o aproximou de algumas lideranças políticas de sua época, entre elas destacamos o nome de Manuel Ignácio de Sampaio e Pina Freire, governador da Província do Ceará Grande, e de outros grandes vultos de nossa história:

Em outubro de 1816, pronunciou na matriz de Fortaleza, um brilhante sermão de Ação de Graças pela união dos três reinos de Portugal, Brasil e Algarves. A partir daí, Pe. Gonçalo fez-se comensal e protegido do Governador Manuel Ignácio de Sampaio e Pina.” (SILVEIRA, 2004: p. 109-110)

Graças a essa amizade, no dia 17 de agosto de 1818, conseguiu a nomeação para servir como professor de latim na vila do Aracati, que está localizada no litoral cearense, permanecendo nessa função até dezembro de 1821, quando finalmente resolveu voltar para o Sertão, aonde residia alguns de seus parentes:

“Poeta lírico, autor de perfeitos versos, tanto em português como em latim, do qual era cativo, costumava afirmar que o professor de português, antes de tudo, deveria ser mestre da língua dos romanos antigos. Escritor, político, jurisconsulto, pregador sacro, dono de uma espantosa memória, era considerado como um dos melhores repentistas de seu tempo, além de ter elevados conhecimentos de Física, História Natural e Botânica.” (BARROS LEAL, 1996: p. 57)

Desejando ensinar aos seus familiares e a convite de um dos coronéis da região, passou a residir em Campo Maior, antiga vila Nova do Rei, celebrando regularmente nas capelas da Barra do Sitiá, na Fazenda Canafístula e na vila de Campo Maior de Quixeramobim.

Igreja matriz de Santo Antônio, em Quixeramobim.

Imagem da Igreja Matriz de Santo Antônio de Pádua, na cidade de Quixeramobim, em 2008.

Nessa época, algumas notícias vindas de nossa capital, o Rio de Janeiro, geraram uma grande insatisfação em nossa Província, culminando em uma sangrenta revolta que ficou conhecida como a Confederação do Equador:

“Era no Recife a sede da confederação. De início os revolucionários contaram com o apoio de Falcão de Lacerda, comandante das armas de Pernambuco, […] Desalojados de Olinda, os revolucionários tomaram o caminho de Goiânia […] E aqueles loucos idealistas, sorridentes, de cabeça levantada, conseguiram recompor-se, e na manhã do dia 23 de setembro, marcham a passo firme a caminho do Ceará.” (CORRÊA, 1974: p. 144-147)

Esse movimento autonomista e republicano foi causado pelo descontentamento gerado pela dissolução da Assembleia Constituinte e a outorga da Constituição de 1824, sendo a Província de Pernambuco o centro irradiador dessa insatisfação.
No Ceará, ao receber essa notícia, vinda pelas mãos do Diácono José Martiniano de Alencar, que na época estudava no Seminário de Olinda, diante da Câmara da vila de Campo Maior de Quixeramobim, numa memorável e heroica sessão, acontecida no dia 19 de janeiro de 1824, o Pe. Mororó proclamou a primeira República do Brasil, quebrando, até então, todos os laços que haviam com a realeza, acusando, inclusive, o Imperador D. Pedro I de traidor da pátria e declarando-o, juntamente com toda a sua descendência, decaídos dos direitos ao trono:

“Por volta de 1822 foi eleito vereador em Quixeramobim, sempre demonstrando tendência para o liberalismo radical, herança trazida do Seminário de Olinda, evidentemente perigosa para um moço culto, temperamental e desassombrado e que já esteve envolvido com política desde 1817.” (BARROS LEAL, 1996: p. 56)

Este e outros fatos tornaram o Pe. Mororó um dos principais articuladores do movimento revolucionário que, além de liderar, participar e subscrever aquela memorável ata, determinou que fossem enviadas representações a outras vilas para comunicar e conseguir adesão, como de fato sucedeu nas Câmaras das vilas do Icó, Aracati e São Bernardo das Éguas Russas.
Essa atitude chamou a atenção dos líderes do movimento, que não demoraram muito para convidar-lhe a tomar assento entre os cabeças da revolta. Sobre isso, Manoel Ximenes Aragão, um de seus sobrinhos, nos deixou o seguinte testemunho de um diálogo ocorrido entre o seu pai e o seu tio:

“Tristão Gonçalves mandou chamar o meu tio em Quixeramobim para ser secretário [de governo]. Ele respondeu-lhe que houvesse de desculpá-lo, que era um padre baldo de conhecimento, que fazia sua subsistência de capelania pelo Sertão, onde estava familiarizado e, por conseguinte, incapaz de exercer um emprego que demandasse tanta ciência, principalmente em tempo em que tantas dificuldades se tinham de vencer […] Esta resposta, para melhor dizer, esta desculpa do meu tio, não agradou a Tristão, que persistiu em seus chamados até o ponto de o ameaçar de prisão, se continuasse em sua desobediência. À vista de tal contumácia e da ameaça, viu-se o meu tio forçado a obedecer. Ao despedir-se de meu pai, seu compadre, disse ‘compadre, até hoje não tenho querido me importar com essa nova ordem de cousas e o Sr. Tristão quer por força ver-me envolvido com ele nestas enrascadas, das quais tenho por certo que não se sairá bem. Segundo minha firmeza em qualquer coisa a que me proponho, estou persuadido de que, se me meter, serei uma das vítimas em vista da revolta que não tardará; pois que nenhum fundamento acho em o Ceará poder proclamar uma República estável e liberal; basta somente a lembrança que Pernambuco e Ceará não podem sustentar por si somente’.” (BARROS LEAL, 1996: p. 57-58)

Cientes de que a luta poderia lhes trazer serias consequências, os envolvidos na liderança da revolta estavam escondidos por trás de alcunhas ligados à flora e fauna de nossa região: alecrim, anta, araripe, aroeira, baraúna, beija-flor, bolão, carapinima, crueira, ibiapina, jaguaribe, jucás, manjericão, mororó, sucupiras, oiticica e etc.

“Às 24 horas do dia 3 de maio de 1823 […] a heroína cearense Barbara Pereira de Alencar, presidindo a a reunião do Clube Liberal de Mecejana, em Fortaleza, admitiu os pseudônimos dos heróis revolucionários, incitando-os à luta pela Independência da Pátria, começando pelo Pe. Gonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque Melo.” (BARROS LEAL, 1996: p. 58)

Chegando a cidade de Fortaleza, logo foi nomeado pelo líder da revolta, Tristão Gonçalves, diretor e redator-chefe do “Diário do Governo do Ceará”, que teve o seu primeiro número publicado no dia 1º de abril de 1824:

“Como fundador do jornalismo cearense, deu provas de muita coragem, que o elevou ao posto de destacado repórter, explorando os seus admiráveis dotes de clérigo ilustre. Doutor em Direito, cujos pareceres sobre problemas jurídicos mereciam acatamento, era presbítero do Hábito de São Pedro e cavalheiro da Ordem de Cristo.” (BARROS LEAL, 1996: p. 58)

Depois do sufocamento dessa revolta, já preso, no dia 20 de novembro de 1824, o Pe. Mororó foi condenado à morte por crime de Lesa Majestade:

“O Governo Imperial exigira da Comissão Militar que fossem suplicados cinco dos chefes do movimento e que neste número entrasse o nome do Pe. Mororó. O seu nome, com efeito, em ofício do dia 21 de dezembro de 1824, tinha sido enviado por Pedro José da Costa Barros e Clemente Ferreira França, como um dos que deveriam aparecer […] por ter sido afoito em insultar a sagrada pessoa de Sua Majestade Imperial.” (BARROS LEAL, 1996: p. 58)

Vale lembrar que, nessa época, um padre era um funcionário público e contra ele pesavam três crimes, sendo eles: ter proclamado a República em Quixeramobim; ter servido de secretário do presidente da República no Ceará, Tenente Coronel Tristão Gonçalves de Alencar Araripe e, finalmente, de ter sido o redator do Diário do Governo do Ceará, órgão dos Republicanos:

“Reuniu-se afinal, em Fortaleza, o Grande Conselho de quatrocentos e cinquenta e cinco eleitores, a vinte e seis de agosto, sob a presidência de Tristão Gonçalves, servindo de secretário o Padre Gonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque Melo.” (DA FROTA, 1974: p. 339)

Logo após a sua prisão, juntamente com o Coronel João de Andrade Pessoa Anta, foi imediatamente conduzido ao navio de guerra “Laxford”, na época ancorado no porto do Mucuripe, que os levaram à corte para serem julgados pelos seus crimes.
Alguns de seus contemporâneos contam que, chegando ao Rio de Janeiro, capital do Império, os presos foram visitados pelo Imperador D. Pedro I e que, olhando o imperador para o padre, que tinha apenas 44 anos de idade, mas já tinha o cabelo branco, perguntou-lhe quem era, respondeu-lhe então o Pe. Mororó: “Sou o Padre Gonçalo”, “Pois bem”, disse-lhe o imperador, “ide viver, meu padre velho, que não és mais capaz senão de compaixão, e que se use contigo de misericórdia.”
Depois de livre, pensando ter sido perdoado, se dirigiu ao porto buscando uma embarcação que o levasse de volta ao Ceará, encontrando um barco de bandeira inglesa foi enganado por seu capitão, que o trouxe como prisioneiro e o entregou a Comissão Militar, que o aguardava e que se apressou em julgar e executar os culpados de acordo com a vontade do imperador.
Atentemos ao fado de que quase todos esses homens envolvidos na revolta não eram na verdade culpados, pois abraçaram ao sistema republicano por não conseguirem dissuadir Tristão de desistir do seu propósito.
No julgamento a pena de condenação determinava o seu enforcamento, porém, por não haver quem quisesse servir de algoz, a pena foi comutada para fuzilamento, ou melhor, tiros de arcabuz, uma antiga arma de fogo portátil, uma espécie de bacamarte.
No dia de sua execução, programada para o dia 30 de abril de 1825, populares e soldados acompanhavam o solene cortejo. Muitos, dependurados nos galhos das árvores, concorriam para assistir o triste espetáculo:

“A execução do Padre Gonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque Melo deu-se na manhã do dia 30 de abril de 1825, um espetáculo novo para a cidade de Fortaleza, pela primeira vez o povo cearense ia assistir ao fuzilamento de um sacerdote. A cidade acordou vibrando. Ainda não havia nascido o sol, e já as ruas estavam cheias de rumores. Um toque de clarim aqui, um rufar de tambores além. É na praça do quartel que o padre vai ser fuzilado. São sete horas da manhã. Gente, muita gente. Já não cabe na praça uma cabeça de alfinete.” (CORRÊA, 1974: p. 149-150)

Conta-se que um dos galhos quebrou e parte dos espectadores veio ao chão, como frutas podres que despencam em meio à zombaria geral, o Pe. Mororó até esboçou um sorriso, mas o enredo era trágico e não cômico. O povo, que os rebeldes confederados queriam libertar, pouco ou nada sabia sobre as causas daquele movimento:

“O Pe. Mororó apareceu escoltado. É uma surpresa para o povo. O Pe. Mororó que a cidade inteira conhecia não era o homem que ali estava. O padre era um homem belo, forte, desenvolto e moço. E o Pe. Mororó que ali estava era um homem de cabeça branca, rugas no rosto, envelhecido. No meio do largo há um oratório onde se vai fazer solenemente a desautoração das ordens sacerdotais do rebelde. Chega o momento de fazer-se a desautoração de Mororó. Ele não se sujeita a fazer o cerimonial. Consente-se apenas que lhe troquem a batina pelas roupas de réu que vai ser executado. Vestem-lhe a alva dos condenados à morte. A camisola é curta – não lhe vai além dos joelhos. O padre olha demoradamente a vestimenta, ajeita-se dentro dela, puxa-a o mais possível para baixo a fim de cobrir os joelhos, e, vendo a sua figura ridícula em alva tão curta, diz com um amargo sorriso: – Louvado seja Deus, que a última camisa que me dão é sobremaneira curta.” (CORRÊA, 1974: p. 150)

No trajeto para o local do suplício um frade acompanhava os condenados gaguejando a leitura de um ritual que encomendava as almas dos réus. Dirigindo-se o Padre Gonçalo Mororó ao frade disse-lhe: “Oh homem, nem por desgraça você sabe ler? Dê cá esse livro!..”. E pegando o livro, ajudou a fazer os seus próprios sufrágios.
Logo que chegou diante do pelotão de fuzilamento, o Padre Mororó recusou a venda em seus olhos e pediu para que não lhe ponham no peito a fita que indicava o local da mira:

“Chega-se ao lugar do suplício. O padre é posto na coluna da morte. Um soldado lhe traz a venda para lhe atar os olhos. – Não – diz o condenado – eu quero ver como é isto. Vem outro soldado para colocar-lhe no peito a pequena roda de papel vermelho que vai servir de alvo aos atiradores. – Não é necessário – diz Mororó – eu mesmo farei o alvo. E cruza as duas mãos sobre o coração e grita fortemente, arrogantemente, para os praças: – Camaradas, o alvo é este! E com um ar de riso, como se aquilo fosse uma brincadeira: – E vejam lá! Tiro certeiro, que não me deixem sofrer muito!” (CORRÊA, 1974: p. 151)

Nesse momento o condenado se encontrava com a mão no peito, e tão certeiro foi o tiro que decepou-lhe três dedos, sem murmurar uma palavra sequer, inclinou a cabeça para o lado e finalmente espirou.
Logo após o seu falecimento, seguindo o costume, o seu corpo recebeu às exéquias fúnebres e foi sepultado no Cemitério de São Casemiro até que, alguns anos depois, por volta de 1880, o seu corpo foi exumado e transferido para o Cemitério de São João Batista, que está localizado na Rua Pe. Mororó, s/nº, no Bairro Jacareacanga, na cidade de Fortaleza.

BIBLIOGRAFIA:

  1. APEC. A Confederação do Equador no Ceará: Manuscritos. Fortaleza: Arquivo Público do Estado do Ceará, 2005.
  2. BARROS LEAL, Antenor Gomes. Coletânea – Temas Diversos. Fortaleza: Casa de José de Alencar, 1996.
  3. BARROSO, Francisco de Andrade. Igrejas do Ceará. Crônicas Histórico-Descritivas. Fortaleza: PREMIUS, 2005.
  4. CORRÊA, Viriato. História da Liberdade no Brasil. 2ª edição. Brasília: Civilização Brasileira, 1974.
  5. DA FROTA, José Tupinambá. História de Sobral. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1974.
  6. LIRA, João Mendes. Subsídios para a História Eclesiástica e Política do Ceará. Fortaleza: Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1984.
  7. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  8. SILVEIRA, Aureliano Diamantino. Ungidos do Senhor na Evangelização do Ceará (1700-2004). 1º Vol. Fortaleza: PREMIUS, 2004.
  9. STUDART, Guilherme. GONÇALO IGNÁCIO DE LOYOLA ALBUQUERQUE MELLO MORORÓ In: Dicionário Bibliográfico Cearense. 1º v. Edição Fac-simile. Fortaleza: SECULT, 2012, p. 348.
  10. VEIGA, Cinthia Greive. História da Educação. São Paulo: Editora Ática, 2007.

HOMENAGEM PÓSTUMA:

  1. Em sua memória, na gestão do Prefeito Dr. Gervásio de Queiroz Marinho, através da lei nº 30, de 3 de outubro de 1959, uma das ruas que se estendem pelo Bairros Centro e Alto do Motor, na cidade de Boa Viagem, recebeu a sua nomenclatura;
  2. Em sua memória, em sua terra natal, Groaíras, o Governo Municipal edificou um memorial, um museu que leva o seu nome, como também, possui uma praça no Centro da cidade que recebe o seu apelido.