David Capistrano da Costa

David Capistrano da CostaDavid Capistrano da Costa nasceu no dia 16 de novembro de 1913 no Município de Boa Viagem, que está localizado no Sertão de Canindé, no Estado do Ceará, distante 217 quilômetros da cidade de Fortaleza, sendo filho de José Capistrano da Costa e de Cristina Cirilo de Araújo da Costa.
Os seus avós paternos se chamavam João Capistrano da Costa e Raimunda Nonata de Lima, já os maternos eram Valdivino Ribeiro de Araújo e Francisca Cirilo de Araújo.
Poucos dias depois do seu nascimento, seguindo as tradições da confissão religiosa de seus pais, foi batizado na Capela de Nossa Srª da Imaculada Conceição, na vila de Jacampari, pelo Mons. Gonçalo de Oliveira Lima.
Sobre os seus pais, um de seus irmãos, alguns anos depois, nos deixou um interessante relato:

“Meu pai, José Capistrano, era grande comerciante em Boa Viagem e resolvia questões de terra como se fosse um verdadeiro advogado. Com ele aprendi a dividir, pois muitas e muitas vezes, vi distribuir com amigos, feijão, milho ou qualquer produto que plantasse, até a carne… Minha mãe… tentava controlar de maneira mais racional a renda da família, e por isso sempre foi mais decidida que meu pai. Nas festas da padroeira, não faltavam as vendas de broas, que ela fazia como ninguém… Nossa família nunca foi rica, mas sempre foi muito farta, graças a Deus…” (COSTA, 2008: p. 23)

Passou toda a sua infância e grande parte de sua adolescência na vila de Jacampari, que na época era chamada de Olinda, onde recebeu instrução elementar através de professoras particulares e logo depois na escola pública, que era precariamente financiada pela Prefeitura de Boa Viagem, na época chamada de Intendência.
Naquela vila os seus pais eram pequenos produtores rurais e comerciantes, que aos poucos viam os seus filhos partirem para outras paragens em busca de uma sobrevivência mais digna:

“No ano de 1926, a seca bateu forte no Ceará. No povoado de Jacampari, a pequena propriedade de seu José Capistrano e de dona Cristina Cirila, um casal com dez filhos para sustentar, a terra pedrada não rendia colheita e nem garantia a sobrevivência dos bodes, cabras e algumas cabeças de gado.” (MELO, 2001: p. 15)

Durante um curto período de tempo residiu com Manoel Valdevino Ribeiro Araújo, um de seus tios maternos, na vila de Telha, que na época pertencia ao Município de Tamboril e depois passou a ser chamada de Monsenhor Tabosa.
Nessa vila frequentou algumas aulas na escola do Padre Tabosa e nessa mesma época, seguindo o exemplo de seus pais, tentou explorar um pequeno comércio, que não logrou êxito.

Imagem da Família Capistrano.

Imagem da Família Capistrano.

Nos últimos anos da década de 1920, desejando fugir da estiagem, pediu autorização dos seus pais para conhecer a cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal, mesmo caminho tomado por alguns de seus outros parentes e amigos.
Ao despedir-se de casa prometeu enviar dinheiro para o sustento de seus genitores e seguiu para cidade de Fortaleza, onde conseguiu passagem em um navio para o destino desejado:

“O itinerário de David está atado a duas viagens decisivas na sua vida. A primeira tem certa graça. Para fugir da seca, recebe de seu pai, José Capistrano da Costa, um burro para vender e com esse capital chegar ao Rio de Janeiro em um navio.” (MELO, 2001: p. 10)

Na cidade do Rio de Janeiro passou a morar com Porfírio Ribeiro de Araújo, um de seus tios maternos, e quando atingiu a idade em que tinha de prestar o serviço militar foi alistado no Exército, chegando ao posto de cabo e a prestar exames para sargento.

“Na cidade do Rio de Janeiro, David trabalhou como lavador de pratos em bares e botequins. Aos 18 anos, em 1931, como tantos jovens que não tiveram a oportunidade de uma educação formal e que queriam ascender socialmente, entrou no Exército, na Escola de Aviação.” (MELO, 2001: p. 15-16)

Antes disso, passou a ser aluno da Escola de Aviação Militar, local onde conheceu o Tenente Ivan Ramos Ribeiro, que passou a lhe fornecer material de propaganda do movimento comunista, sendo o responsável direto por seu ingresso no Partido Comunista.

Imagem dos tempos de caserna, 1934.

Imagem dos tempos de caserna, em 1934.

Nessa época, no dia 27 de novembro de 1935, participou da conspiração politico-militar que foi denominada de Intentona Comunista, organizada pela ANL, a Aliança Nacional Libertadora, e contou com o apoio do PCB, o Partido Comunista Brasileiro, contra o governo autoritário do Presidente Getúlio Dornelles Vargas:

“Foi nessa conjuntura que David Capistrano iniciou a sua formação politica. Como militante do Partido Comunista, participou do levante de 1935, no Regimento de Aviação de Realengo, no Campo dos Afonsos, auxiliando o Tenente Ivan Ribeiro, de quem recebeu a missão de comandar um grupo de combate, cujo alvo era o pavilhão de comando.” (MELO, 2001: p. 19)

Os comunistas, que eram comandados por Luís Carlos Prestes, sonhavam com uma revolução “nacional popular” contra as oligarquias estaduais, o imperialismo e o autoritarismo. Reivindicavam, de forma imediata, a abolição da dívida externa, a reforma agrária e o estabelecimento de um governo de base popular.
Embora esse levante tenha ocorrido também nas cidades de Natal e Recife foi no Rio de Janeiro que as proporções do movimento foram mais amplas e cruéis, tendo sido deflagrado operações de combate, simultaneamente, no 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha; no 2º Regimento de Infantaria e no Batalhão de Comunicações, na Vila Militar; e na Escola de Aviação, no Campo dos Afonsos.
Esse levante foi duramente sufocado pelas tropas legalistas e os envolvidos foram presos, dentre eles o Cabo David Capistrano, que foi recolhido à Colônia Penal de Dois Rios, na Ilha Grande, tendo sido processado e condenado inicialmente a sete anos e três meses de prisão:

“Com a ajuda de militares, num dia de maré baixa, junto a mais três companheiros, fugiu a nado e chegou ao continente, o passo seguinte foi atravessar a fronteira do Uruguai.” (MELO, 2001: p. 19)

Depois que chegou ao Uruguai, durante alguns meses, conseguiu viver de forma clandestina como mecânico em uma oficina de veículos até que, em novembro de 1936, incorporou um grupo de voluntários que foi reunido pela Internacional Comunista e saiu do Continente Americano para integrar às forças da Brigada Internacional, que combatiam na Guerra Civil da Espanha.
Esse conflito, que foi deflagrado após um fracassado golpe de estado movido por um dos setores do exército contra o governo da Segunda República Espanhola, teve início após um pronunciamento militar entre os dias 17 e 18 de julho de 1936, e terminou no dia 1º de abril de 1939, com a vitória dos Nacionalistas e a instauração de um regime de caráter fascista, liderado pelo General Francisco Franco Behamonde.

“Brigadas Internacionais é o nome de um conjunto de unidades militares compostas por voluntários estrangeiros que durante a Guerra Civil espanhola lutaram do lado da República. Combateram na Espanha mais de 40 mil brigadistas, o maior contingente veio da França e da Alemanha, mas vieram voluntários de todas as partes do mundo, entre os quais portugueses e brasileiros. As Brigadas Internacionais perderam cerca de 10000 voluntários em combate.” (S.N.T)

Logo que chegou ao teatro de guerra foi engajado com alguns companheiros no 2º Batalhão da XII Brigada, que foi denominado de Giuseppe Garibaldi, “o herói de dois mundos”, formado em sua maioria por italianos e pessoas de tronco linguístico latino.
Nesse batalhão encontrou-se com Apolônio de Carvalho, um tenente que havia sido expulso do Exército e preso no Brasil por sua atuação na Aliança Nacional Libertadora, onde já tinha ouvido falar de David Capistrano.

“David integrou-se à Brigada Garibaldi, sob o comando do dirigente comunista Luigi Longo. De julho a outubro de 1938, participou da frente do Ebro, rio que margeia as planícies da Catalunha, teatro de uma das mais sangrentas batalhas da Guerra Civil espanhola, onde ocorreu o maior número de mortes.” (MELO, 2001: p. 21-22)

Em uma dessas batalhas, destacou-se entre os seus companheiros por um feito que foi amplamente noticiado pelos jornais europeus:

“Anos depois, em Marselha, eu teria oportunidade de ler em um jornal de trincheira dessa tropa italiana, no qual se destacava o feito de David no Ebro, ao garantir com uma metralhadora Hotckiss, sob o furor dos bombardeios franquistas, a retirada de seu pelotão.” (MELO, 2001: p. 22)

Algum tempo depois desse fato, em setembro de 1938, em uma atitude defensiva, o Governo da Espanha anunciou a desmobilização das Brigadas Internacionais e dos estrangeiros engajados ao Exército Popular. Ao fim do conflito, ele foi promovido ao posto de capitão, assim como todos os outros 18 brasileiros, militares e civis.

Imagem de David

Imagem de David Capistrano com amigos brasileiros na Espanha, em 1938.

Depois disso, se retirou para fronteira com a França, onde se refugiou, juntamente com oito mil brigadistas em Gurs, nos Baixos Pirineus, sendo colocado em uma espécie de Campo de Concentração.
Nessa época, depois da ocupação da França por tropas nazistas, foi incorporado à resistência francesa, quando foi preso pelos nazistas e encaminhado para um de seus Campos de Concentração na Alemanha, onde passou oito meses de confinamento.

“As condições de alimentação e higiene eram aí tão precárias que, medindo 1,66m e sendo de estrutura corpulenta, David chegou a pesar 37 quilos.” (MELO, 2001: p. 23)

Posteriormente, por conta de sua nacionalidade, foi liberto do campo e passou algum tempo residindo com Apolônio de Carvalho em um hotel, que estava localizado na Rue des Ricolletes, na cidade de Marselha, na França.
Nessa mesma época começou um romance com uma mexicana, mas teve de abandoná-la quando retornou ao Brasil.

“Em 1937, Getúlio Vargas deu um golpe de estado e implantou o Estado Novo, impondo uma Constituição inspirada no modelo fascista italiano. Simpatizante do nazi-fascismo, Getúlio buscou uma posição de neutralidade no começo da II Guerra Mundial. Mas, pressionado pelos Estados Unidos e sob o impacto dos movimentos de massa e de opinião pública, que também repercutiram no interior das Forças Armadas, depois do afundamento de oito navios brasileiros pelos torpedeiros alemães, entre julho e agosto de 1942, finalmente, declarou o estado de guerra contra os países do Eixo.” (MELO, 2001: p. 25)

Depois dessa assinatura do protocolo de guerra muitos comunistas, que estavam no exílio, resolveram regressar ao Brasil, e entre eles estava David Capistrano, que no dia 15 de setembro de 1942 chegou ao Uruguai e sem demora tomou um trem para o Brasil no intuito de se inscrever como voluntário para combater nos campos europeus, junto às forças aliadas.
Ao chegarem a cidade de São Paulo, depois de uma minuciosa revista, ele e alguns ocupantes do trem foram detidos e dali encaminhados para à Colônia Penal de Dois Rios, na Ilha Grande, local de onde havia fugido alguns anos antes, tendo agora de cumprir 19 anos de cadeia por conta de seu julgamento e condenação à revelia.
Nesse presídio, teve contato com outros integrantes do Partido Comunista, que também cumpriam pena:

“Em 1943, a Ilha de Fernando de Noronha passou a ser base norte-americana do III Regimento de Infantaria. E os presos que lá se encontravam, entre eles Carlos Marighella e Gregório Bezerra, foram transferidos para Ilha Grande, que concentrou todos os presos políticos do país.” (MELO, 2001: p. 26)

Pouco tempo depois, por causa das fortes pressões políticas ao regime carcerário dos presos políticos, a sua pena foi aos poucos flexibilizada, enquanto isso, em sua cela, passava horas estudando:

“Sério demais para a idade, compenetrado, fechado, ‘era um autodidata sensacional’…, lia muito, estudava inglês e procurava tirar o máximo de proveito dos cursos e das palestras que aconteciam na prisão, transformada em ‘escola de quadros’ do Partido Comunista.” (MELO, 2001: p. 26)

Ainda no presídio, conheceu e se encantou com a paranaense Ida Torres da Cruz, uma bela jovem que acompanhava o seu irmão, que era jornalista e trabalhava no Rio de Janeiro, casando com ela pouco tempo depois por meio de uma procuração.
No dia 18 de abril de 1945, por meio do decreto lei nº 7474, foi beneficiado pela anistia e já nessa época o Partido Comunista Brasileiro era o maior da América Latina, com mais de 200 mil filiados.

“Saindo da prisão, com 32 anos de idade… foi morar no Rio de Janeiro com Ida Torres. Começou a cumprir as tarefas determinadas pelo Comitê Central do PCB, que incluíam infindáveis reuniões e viagens.” (MELO, 2001: p. 37)

Esse intenso envolvimento com o partido foi também um ponto final em seu relacionamento conjugal, que não suportou a maratona militante e depois de pouco mais de três meses de convivência, ao chegar em sua casa, encontrou um bilhete de despedida de sua esposa, que retornou para casa de seus pais.
Mesmo com essa surpresa não abandonou as suas funções dentro do Comitê Central do partido, fazia inúmeras viagens aos Estados nordestinos, da Paraíba ao Ceará, curiosamente não temos registro dele em visita a sua terra natal, o Município de Boa Viagem.
Nessas viagens, rotineiramente, os seus passos eram acompanhados pelo DOPS, Departamento de Ordem Política e Social, o que fazia com que modificasse, nos registros de viagem, a sua identidade e profissão no intuito de dificultar o seu reconhecimento pelos agentes.
Em uma dessas viagens, em Pernambuco, ocorrida no dia 10 de junho de 1946, o investigador José da Silva Rocha fez uma observação curiosa de sua visita a um grupo de protestantes. Não sabemos se essa visita era por questões partidárias, fé pessoal, ou uma simples cortesia:

“Voltando a Timbaúba, fui informado que a maioria dos comunistas eram crentes, parecendo que também se reúnem na Igreja Batista, e que o pastor, de nome Rev. Moysés Barbosa.” (MELO, 2001: p. 40)

Nessa época, conheceu alguém que se encaixava perfeitamente no seu perfil afetivo, a jovem Maria Augusta de Oliveira, uma paraibana de apenas 27 anos de idade que abandonou o curso normal para se dedicar totalmente à militância política.

Imagem da família Capistrano.

Imagem da Família Capistrano.

Pouco tempo depois, já casados, passaram a viver juntos na cidade do Recife e desse conturbado relacionamento amoroso foram gerados três filhos: David Capistrano da Costa Filho, Maria Cristina Capistrano e Maria Carolina Capistrano.

“Capistrano, de corpo largo, vindo do interior, tendo saído cedo de casa para trabalhar em serviços pesados, marcado pela caserna, as frentes de batalha, os campos de concentração e a prisão; disciplinado, metódico, moralista, tímido, fechado, sem muito traquejo social nem experiência de vida legal… Maria Augusta, miúda, elétrica, falante, extrovertida, irreverente, pavio curto, urbana, festeira, integrante de uma família marcada pela presença do pai, Luís Augusto de Oliveira, comerciante, jornalista… Em 1946, Maria Augusta tinha sido candidata a vereadora pelo PC da Paraíba, foi eleita secretária de finanças do partido, o que era coisa avançada para a época.” (MELO, 2001: p. 42)

Pouco tempo depois da decisão de viverem juntos, no dia 7 de janeiro de 1947, ocorreram as eleições para renovação da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco, conseguindo sair eleito deputado estadual com a segunda maior votação do pleito.

“Capistrano não se distinguia como orador, mas dava bem o recado. Estudioso e metódico, tratava com objetividade as questões. A maioria dos discursos não eram lidos, mas esquematizados. Seus pronunciamentos na tribuna eram marcados por um tom de firmeza e calma, sem exaltações retóricas nem arroubos emocionais… Habilidoso e polido, mantinha um relacionamento cordial com os parlamentares das diversas correntes partidárias e articulou muitos acordos e negociações.” (MELO, 2001: p. 46)

Mesmo nesse período, quando desempenhava o seu mandato parlamentar em Pernambuco, os agentes do DOPS mantinha marcação serrada acompanhando todos os seus passos e discursos, algo que não lhe fazia intimidar até que, no dia 14 de janeiro de 1948, o TSE, Tribunal Superior Eleitoral, cancelou o registro do Partido Comunista e com isso às assembleias legislativas estaduais imediatamente cassaram os mandatos de seus deputados, entre eles o mandado de David Capistrano.
Com os seus mandatos cassados alguns deputados decidiram fugir do país, outros foram presos.
Nessa época, seguindo as ordens do Comitê Central do Partido Comunista, David Capistrano decidiu regressar para o Estado de São Paulo, fixando-se inicialmente na cidade de Sorocaba com a finalidade de organizar o núcleo comunista de Votorantim, atuando também na reestruturação do núcleo comunista da Mooca e logo depois se estabeleceu com a sua família na cidade de Santos:

“Depois que o meu pai perdeu o mandato de deputado constituinte em Pernambuco – o registro do PCB havia sido cassado em 1948 -, minha família (isto é, meus pais e eu, que era um recém nascido) transferiu-se para São Paulo. Durante algum tempo moramos na capital e logo o meu pai foi designado pela direção do PCB para atuar junto ao Comitê Municipal de Santos, que era na época uma das principais áreas de influência do partido.” (CAPISTRANO FILHO, 1991: p. 12)

Em 1952, residindo na cidade de São Vicente, assumiu temporariamente a identidade de seu sogro e apresenta-se com a profissão de mecânico, sendo conhecido nas atividades partidárias pelo disfarce de “Walter”.
No dia 4 de junho, enquanto caminhava por uma das ruas dessa cidade, foi surpreendido e preso pela polícia, sendo depois disso levado para a sua casa, onde foi descoberto material de propaganda.

“Preso e desaparecido o marido, Maria Augusta mobiliza-se e começa a romaria para encontrá-lo. Atendendo a um habeas corpus impetrado pelo advogado Agenor Parente, o juiz da 4ª Vara Criminal faz no DOPS um pedido de informação, mas o prazo esgota-se, sem que a polícia tenha prestado qualquer esclarecimento.” (MELO, 2001: p. 82)

Alguns dias depois, em 22 de agosto, foi julgado e absolvido por insuficiência de provas pelo juiz da 2ª Vara Criminal de Santos.
Depois de sua libertação, no ano seguinte, foi enviado para estudar marxismo na Escola de Quadros do Partido Comunista da União Soviética, onde permaneceu por dois anos. Em sua ausência, foi confirmado como membro no Comitê Central no IV Congresso do PCB, realizado entre os dias 7 e 11 de novembro de 1954.
Em 1955, depois de retornar ao Brasil, cumpre tarefas do partido nos Estados do Amazonas, do Pará e do Ceará.
Nos últimos meses de 1957 voltou a residir com a sua família na cidade do Recife, depois de uma curta temporada residindo na cidade de Fortaleza, onde passou a dirigir o jornal “Folha do Povo”, órgão de comunicação dos comunistas, apoiando a candidatura do usineiro Cid Feijó Sampaio ao governo do Estado de Pernambuco e logo depois passou a dirigir também o periódico “A Hora”, de publicação semanal.

Imagem de David Capistrano em uma reunião.

Imagem de David Capistrano em uma reunião.

Nos primeiros anos da década de 1960, no governo de Jânio da Silva Quadros, o povo brasileiro ansiava por mudanças. Em Pernambuco, vários movimentos populares pressionavam os patrões para que estes pagassem o salário mínimo e para desvirtuar essa pressão os grupos de direita desqualificavam os movimentos grevistas, entre eles os estudantes de Direito, identificando neles os “agitadores comunistas”.
No dia 11 de junho de 1961, o jornal Diário de Pernambuco registrou em suas páginas o seguinte acontecimento:

“Várias prisões foram efetuadas nas últimas horas, sem que se possa precisar o número exato, entre os detidos estão:… 3º David Capistrano da Costa, antigo deputado comunista, preso ao entrar no cinema, por dois cidadãos a paisana…” (MELO, 2001: p. 82)

O texto não diz, mas fica claro para quem ler esta matéria que esses dois cidadãos eram agentes do DOPS, que disfarçados mantinha a sua rotina sob constante vigilância.
Por conta disso o prefeito do Recife, Dr. Miguel Arraes de Alencar, que também recebeu o apoio de David Capistrano nas eleições que ocorreram em 1959, encaminhou um ofício ao comandante do IV Exército, o qual, em nota publicada na imprensa no dia 14 de julho, admitiu as prisões e que os acusados estavam detidos na Ilha de Fernando de Noronha.

Imagem de um comício, em 1957.

Imagem de um comício, em 1957.

Antes disso, juntamente com outros, encabeçou uma campanha pela legalização do Partido Comunista e depois que foi liberto chegou a registrar a sua candidatura para o pleito que ocorreu no dia 7 de outubro de 1962, porém a sua tentativa foi frustrada pelo TRE, Tribunal Regional Eleitoral.
Pouco tempo depois, na madrugada do dia 31 de março de 1964, aconteceu algo que ninguém esperava, um golpe militar foi deflagrado contra o governo legalmente constituído pelo Dr. João Belchior Marques Goulart.
A falta de reação do governo e dos grupos que lhe davam apoio foi notável, não conseguiram articular sequer os militares legalistas. Até mesmo uma greve geral proposta pela CGT, Central Geral dos Trabalhadores, em apoio ao governo, foi desarticulada.
Enquanto isso, na cidade do Recife, David Capistrano teve um encontro pessoal com o Dr. Miguel Arraes e pedindo armas para resistir ao golpe, nesse dia, explicou porque não foi preso:

“No dia do golpe militar, David Capistrano escondeu-se ‘numa mata próxima’, segundo disse a Miguel Arraes anos depois, no exílio. Escapou da prisão, mas foram presos, por alguns meses, Maria Augusta e o seu filho mais velho.” (MELO, 2001: p. 125)

Depois disso, figurando na lista de procurados, foi obrigado a entrar na clandestinidade no intuito de remontar o Comitê Estadual do Partido Comunista, permanecendo a expor as suas ideias contra a ditadura através do jornal mimeografado “Combater”.
Nos últimos meses de 1965, sem alternativa, David Capistrano foi obrigado a sair do Estado de Pernambuco, pois o Comitê Central sabia de sua importância e temia o pior, mudando de endereço constantemente, até que foi convencido a se exilar em outro país.

“E foi determinada a David Capistrano a ida para Tchecoslováquia, o que ele cumpriu a contragosto em 1971.” (MELO, 2001: p. 133)

Nos primeiros dias de março de 1974, por carta, entrou em contato com a sua família informando o seu desejo de em breve retornar para o Brasil. Ao chegar à França, portava documento falso com o nome de Enéas Rodrigues da Silva.

Imagem de David Capistrano na Tchecoslováquia, em 1973.

Imagem de David Capistrano na Tchecoslováquia, em 1973.

De Orly, na França, chegou à Argentina, daí seguiu para cidade de Paso de Los Libres, no Uruguai, atravessando a fronteira em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e enfrentando dificuldade na travessia por conta do seu volume de bagagem, em sua maioria livros.

“Depois de uns dias de espera… chegou a Uruguaiana José Romam, enviado pelo PCB de São Paulo, com um Volkswagem, para transportar David Capistrano. Os dois seguiram com destino a São Paulo no dia 15 de março de 1973.” (MELO, 2001: p. 137)

Essa viagem não teve chegada nem retorno, dando início ao seu martírio e à “via crucis de sua família”, que mobilizou escritores, políticos, religiosos e até o governo da França, aonde é considerado um herói de guerra:

“Em 9 de julho, o presidente da França, Valéry Giscard d’Estaing, envia carta ao governo brasileiro, pedindo pela sua preservação.” (MELO, 2001: p. 146)

Segundo depoimento foi sequestrado no dia 16 de março de 1974, no percurso entre as cidades de Uruguaiana e São Paulo, e morto dias depois nas mãos da ditadura.

“Durante 17 anos, o ex-sargento Marival Dias Chaves do Canto trabalhou no DOI, Departamento de Operações Internas, a central de torturas ligada ao Centro de Informações do Exército. Até que um dia, pelas páginas da revista Veja, edição de 18 de novembro de 1992, trouxe esclarecimentos sobre o destino de muitos desaparecidos políticos brasileiros. Ele falou da operação Radar, ‘… uma grande ofensiva do Exército, iniciada em 1973, para dizimar o PCB’… Os assassinatos de presos capturados, segundo Marival, eram realizados numa granja em Itapevi, Município do Grande São Paulo, e os corpos, depois de esquartejados, eram jogados num rio, próximo de Avaré.” (MELO, 2001: p. 140)

BIBLIOGRAFIA:

  1. COSTA, Daniel Capistrano da. Dos 8 aos 80… Não escrevi antes por falta de tempo. Fortaleza: PREMIUS, 2008.
  2. MELO, Marcelo Mário de. David Capistrano: Entre teias e tocais. Coleção Perfil Parlamentar do Século XX. Vol. 6. Recife: Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco, 2001.
  3. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.

HOMENAGEM PÓSTUMA:

  1. Em sua memória, na gestão do Prefeito José Vieira Filho, o Mazinho, através da lei nº 459, de 21 de março de 1988, uma das ruas que se estendem pelos Bairros Várzea do Canto e Floresta, na cidade de Boa Viagem, recebeu a sua nomenclatura;
  2. Em sua memória, na gestão do Prefeito Francisco Martins de Mesquita, através da lei nº 1483, de 18 de dezembro de 1992, uma das ruas do Bairro São João, na cidade de Quixadá, recebeu a sua denominação;
  3. Em sua memória, na gestão do Prefeito Dr. Jarbas de Andrade Vasconcelos, em 1996, uma pequena rua no Bairro da Torre, na cidade do Recife, recebeu o seu nome;
  4. Em sua memória, na gestão do Prefeito João Carlos de Almeida Sampaio, em 1996, na cidade de Niterói, uma escola da rede municipal recebeu o seu nome como patrono.