O Pirão Quente

Eliel Rafael da Silva Júnior

O Município de Boa Viagem sempre teve dessas histórias pitorescas que passam de boca em boca e nunca perdem o tempero de humor.
No tempo em que médico era artigo raro e posto de saúde parecia miragem em meio ao sertão, o povo recorria a dois caminhos: para os casos mais sérios, pegava a estrada e corria para Quixeramobim ou até Fortaleza; para os mais simples, ou para tudo o que o destino mandasse, havia os farmacêuticos da cidade, figuras tão importantes quanto os padres e os prefeitos.
E entre esses sábios do balcão, nenhum ganhou tanta fama entre os “matutos” quanto o Jacob Carneiro, homem miúdo, de fala rápida e olhar esperto, que o povo batizou sem cerimônia de “Mão Santa”.
Diziam que ele conhecia cada doença pelo nome, pelo jeito de olhar e até pelo suspiro, e que resolvia qualquer coisa, de dor de ouvido a dor de amor, com a mesma autoridade de quem assina sentença.
Certo dia, entrou em sua farmácia uma senhora aflita, vinda da zona rural. Chegou já falando, daquele jeito apressado de quem traz o mundo nas costas: “Seu Jacob… meu marido tá fraco demais. A fraqueza bateu nele de um jeito que eu nunca vi. Eu queria umas vitaminas, um fortificante… qualquer coisa pra dar coragem naquele homem.”
O Jacob, que conhecia o casal como quem conhece receita de bolo, não precisou olhar duas vezes. Sabia que a fraqueza do homem não era doença, era fome. Daquela braba, que deixa o sujeito mole como quiabo escaldado.
Com a sua sabedoria costumeira, e um humor que ninguém sabia se era receita ou remédio, decretou o tratamento em alto e bom som, para quem quisesse ouvir: “Mulher, vá no mercado, compre um corredor de boi, do maior que tiver. Faça um pirão bem quente e taque nos peito dele!
A mulher, obediente como toda paciente que respeita o “doutor” da cidade, saiu decidida. Passou no frigorífico, comprou tudo, voltou pra casa e, sem mesmo tirar o chapéu, preparou o pirão grosso, quente, fumegando… obedecendo rigorosamente ao que mandara o doutor Mão Santa.
No dia seguinte a mesma senhora retorna à farmácia, não para relatar os benefícios do remédio ao Jacob, mas sim a procura de outro medicamento para curar as queimaduras provocadas no peito do marido.
E assim, mais uma história entrou para o folclore do nosso sertão, porque em Boa Viagem sempre existiu remédio para tudo, até para fome, mas nunca houve cura para a criatividade do seu povo!