Clóvis Monteiro de Sousa

Clóvis Monteiro de Sousa nasceu no dia 27 de dezembro de 1952 no Município de Boa Viagem, que está localizado no Sertão de Canindé, no Estado do Ceará, distante 217 quilômetros da cidade de Fortaleza, sendo filho de Francisco de Deus de Sousa e de
Na época em que nasceu o Município de Boa Viagem não dispunha de uma casa de parto, fato que obrigou aos seus pais a contar com os valiosos serviços de uma parteira na localidade do Recreio, onde passou grande parte de sua infância.

“Filho de Francisco de Deus de Sousa, que trabalhava nas 24 braças de terra que tinha lá mesmo no Recreio. A mãe foi professora por mais de 35 anos. Mesmo aposentada, ela ministra aulas em casa, como voluntária. O casal teve três filhos e duas filhas. Clóvis estudou até a quinta série. A mãe, professora, não o ajudou prosseguir. O que pesou mais forte foi sua vocação para a música.” (CARVALHO, 2018: p. 107)

Desde cede, demonstrou forte inclina para área música, partindo inclusive para fabricação seuw pró

“Aos oito anos, já tocava feito gente grande. Relembra que, aos cinco anos de idade, ‘pegava o violão e cantava a cantiga na corda’. Aos seis anos, veio a rabeca de lata de óleo Pajeú, retangular, com o braço de madeira e as quatro cordas improvisadas. A lata do óleo de caroço de algodão trazia como ilustração a ‘negrinha’ de tranças.”

 

 

 

 

Hoje, nesses
tempos ‘politicamente corretos’ a estampa,
certamente, seria tida como racista.
A vocação musical prevaleceu e hoje Clóvis diz
que, ainda que tenha passado pela roça, é da música
que ele vive. É solteiro, o que talvez explique a
desenvoltura com que viaja, se apresenta em outros
municípios e se preocupe em fazer o que gosta.
Menino ainda começou a tocar em festa, nos
reisados e nas empanadas dos bonecos. “Um
vinha da Independência, outro de Santa Quitéria”,
relembra. Ele fazia a trilha para as cenas engraçadas
de amor ou para a valentia do Casemiro Coco.
O reisado onde tocava era do seu João Ângelo, de
São João da Água Branca, em Monsenhor Tabosa.
Seu João ainda vive e alimenta o sonho de voltar a
organizar o reisado.
Com a rabeca de lata, tocou na Independência,
Boa Viagem, Tamboril e na Serra das Matas, em
Crateús. Relembra que o “microfone debaixo da lata
chega tinia”. A saudade chega com o arrependimento
de ter jogado a rabequinha “no mato”.
Religioso, Clóvis tocou nos leilões das festas
de São José, nas Águas Belas, Boa Viagem e nos
vinte primeiros dias de janeiro, em devoção a
São Sebastião, “duas horas e meia toda noite”. Foi
muito chamado para acompanhar a Dança de São
Gonçalo.
Tocou muito nas festas, mas faz questão de não
lembrar as confusões, ainda que “o povo fosse
armado para a festa”. Ele jura que o arrasta-pé ia,
até de manhã, sem brigas.
Sempre gostou das músicas do Luiz Gonzaga e
do “discípulo” Dominguinhos. No quesito dor de
cotovelo, gosta de Amado Batista e do Roberto
Carlos. Tocou muita valsa e insiste em que tocava
muito a Valsa dos marinheiros. Chegou a compor
“um bocado de som, criei uns forrozinhos bonitos”.
Com sua rabeca comprada em loja de procedência
chinesa, ele toca, com desenvoltura, tanto o profano
das festas e folguedos, como o religioso das devoções
católicas, como o Terço dos homens, devoção que ele
não perde por nada nesse mundo.

 

 

Na época em que nasceu o Município de Boa Viagem não dispunha de uma casa de parto, fato que obrigou aos seus pais a contar com os valiosos serviços de uma parteira na vila do Jacampari, onde passou grande parte de sua infância, passando a residir algum tempo depois em um sítio no território do Distrito do Ibuaçu.

“Durante muitos anos, os únicos profissionais de saúde existentes em nossa região foram às parteiras, mulheres que normalmente recebiam esse aprendizado de forma hereditária, ou seja, a filha de uma parteira acompanhava a sua mãe no atendimento às mulheres em trabalho de parto auxiliando-a de acordo com as necessidades do momento, possibilitando, assim, após algum tempo de prática, o aprendizado para continuidade do ofício.” (SILVA JÚNIOR, 2016: Disponível em https://www.historiadeboaviagem.com.br/saude/. Acesso em 25 de outubro de 2016)

Nessa época, ainda criança, ganhou em sua vizinhança a alcunha de “Brasilino”, herança  de seu avô paterno.
Foi casado com Iracema Venâncio Moraes, nascida no dia 27 de abril de 1958, com quem gerou sete filhos, três homens e quatro mulheres.

“Vive na sede do município desde 1992… Lamenta não ter ido à escola: ‘tenho desgosto de não ter estudado’, declara com certa resignação. Faz muito tempo que toca rabeca: ‘Era rapazinho novo, casei e abandonei, passei quarenta anos sem violino’. Até que comprou uma nova rabeca feita pelo luthier Edmundo Róseo. Ao longo da vida, teve três rabecas, duas das quais feitas pelo conterrâneo Róseo. O primeiro rabequeiro que viu em atuação foi Severiano, das Águas Belas. Abel ficou apaixonado pela rabeca, mas ‘demorei muito a comprar uma, era pobre demais e não tinha dinheiro’, admite. Uma das rabecas foi comprada de uns paraibanos que plantavam batata perto de onde morava e com quem aprendeu a afinar. Os paraibanos tocavam umas marchinhas e com ela tocou nuns forrozinhos pé-de-serra. Não era uma rabeca bem-acabada, mas dava para fazer um som. Com os reisados do Olho d’Água do Bezerril, aprendeu o baião dos caretas. Tocou para animar as funções do Casemiro Coco, quando um rapaz de Quixadá viajava com a empanada e a mala cheia de bonecos. Era a festa das crianças e o Raimundo Quixadá incorporava o topônimo da cidade natal ao nome artístico. Não se lembra de ter tocado para acompanhar a Dança de São Gonçalo, tampouco nos intervalos dos lances dos leilões da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem. Não chegou a compor, mas tocou nas festas do Algodão, Camará e São Jorge. Faz questão de dizer que ‘não tinha briga, mas uma moedinha velha’. Trabalhou até 2006, ‘quando cheguei aqui, ainda plantava’. Hoje, seu Abel colhe o que plantou e faz da sua rabeca uma companheira das horas de lazer e uma volta nostálgica a um passado que sempre parece ter sido feliz.” (CARVALHO, 2018: p. 27)

BIBLIOGRAFIA:

  1. CARVALHO, Gilmar de. Tirinete – Rabecas da tradição. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2018.
  2. FRANCO, G. A. & CAVALCANTE VIEIRA, M. D. Boa Viagem, Conhecer, Amar e Defender. Fortaleza: LCR, 2007.
  3. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.

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