José Felix de Araújo

José Felix de Araújo nasceu no dia 26 de julho de 1920 no Município de Boa Viagem, que está localizado no Sertão de Canindé, no Estado do Ceará, distante 217 quilômetros da cidade de Fortaleza, sendo filho de Felix Antônio de Araújo e de Francisca Delfina da Conceição.
Os seus avós paternos se chamavam Antônio Balbino de Araújo e Joana Francisca de Araújo, já os maternos ainda nos são desconhecidos.
Na época em que nasceu o Município de Boa Viagem não dispunha de uma casa de parto, fato que obrigou aos seus pais a contar com os valiosos serviços de uma parteira na localidade de Várzea Redonda, onde passou grande parte de sua infância.

“Durante muitos anos, os únicos profissionais de saúde existentes em nossa região foram às parteiras, mulheres que normalmente recebiam esse aprendizado de forma hereditária, ou seja, a filha de uma parteira acompanhava a sua mãe no atendimento às mulheres em trabalho de parto auxiliando-a de acordo com as necessidades do momento, possibilitando, assim, após algum tempo de prática, o aprendizado para continuidade do ofício.” (SILVA JÚNIOR, 2016: Disponível em http://www.historiadeboaviagem.com.br/saude/. Acesso em 23 de novembro de 2020)

Em sua juventude, por volta dos primeiros anos da década de 1940, todos assistiam perplexos através dos jornais e dos poucos rádios existentes, às notícias da II Guerra Mundial, que parecia aos brasileiros algo muito distante:

“No dia 28 de janeiro de 1942 o Governo Brasileiro atende a resolução nº 15 da Segunda Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas e rompe relações diplomáticas com os países do Eixo.” (S.N.T)

Depois dessa movimentação diplomática alguns submarinos alemães passaram a torpedear as embarcações civis brasileiras que navegavam pelo litoral, o que tornava a neutralidade brasileira apenas teórica.
Diante desse fato o Brasil passou a organizar a sua força expedicionária, que inicialmente foi protelada por um ano até que, em julho de 1944, os soldados brasileiros passaram a ser enviados para à frente de batalha:

“Devido à pressão popular, após meses de torpedeamento de navios mercantes brasileiros, finalmente o Brasil declarou guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista, em agosto de 1942. Sendo na época, um país com uma população majoritariamente analfabeta, vivendo no campo, com uma economia com foco principal voltado para exportação de commodities, uma política internacional tradicionalmente isolacionista com eventuais alinhamentos automáticos contra ‘perturbadores da ordem e do comércio internacionais’, sem uma infraestrutura industrial-médico-educacional que pudesse servir de sustentação material e humana ao esforço de guerra que aquele conflito exigia, o Brasil não apenas se viu impedido de seguir uma linha de ação autônoma no conflito como encontrou dificuldades em assumir mesmo um modesto papel.” (S.N.T.)

Nessa época, depois da declaração formal de guerra, o Ministério da Defesa passou a organizar a estrutura para o desafio da convocação. O Brasil não dispunha de equipamento bélico apropriado para o tipo de guerra que iria enfrentar e os seus militares mais experientes não possuíam táticas de guerra modernas:

“Entre o Brasil declarar guerra e conseguir enviar um contingente para lutar nos campos de batalha na Europa houve um longo intervalo de tempo. Os obstáculos eram muitos. Dentre outras razões, o material bélico de que o país dispunha já era obsoleto na época. Não bastasse isso, os militares brasileiros ainda seguiam uma organização e uma doutrina que remontavam à Primeira Guerra Mundial, nos moldes da escola militar francesa. Ou seja, os militares brasileiros seguiam um modelo criado na França, país que, desde junho de 1940, estava sob ocupação militar da Alemanha nazista. Uma das razões para a França ter sido ocupada pelos nazistas foi o fato de que a maioria dos estrategistas franceses apostava que a Segunda Guerra seria uma guerra de trincheiras, tal como havia sido a Primeira Guerra, subestimando a tática da blitzkrieg, a ‘guerra-relâmpago’ adotada pela Alemanha, que consistia num ataque maciço utilizando armamentos modernos, principalmente tanques de guerra. O modelo militar francês que ainda era adotado no Brasil também pecava por táticas militares fundadas em regras muito rígidas que, em determinadas circunstâncias, podiam ser totalmente inúteis ou inaplicáveis. Por exemplo, o modelo militar francês ditava que um pelotão de fuzileiros deveria sempre assaltar em ataques frontais as resistências inimigas. Tal regra podia ser adequada em terrenos planos, mas totalmente ineficaz num terreno montanhoso. Como se vê, o modelo francês era bastante inapropriado e nada flexível.” (VILELA, 2013: Disponível em https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/brasil-na-segunda-guerra-surge-a-feb-dificuldades-para-criar-uma-forca-expedicionaria.htm. Acesso no dia 15 de março de 2015)

Diante dessas grandes dificuldades o Brasil precisou do auxílio dos militares norte-americanos, que já estavam bastante qualificados para esse tipo de guerra graças aos acordos diplomáticos com os ingleses.
Para selar o acordo os dois presidentes, Roosevelt e Vargas, encontraram-se dentro do destroier norte-americano Jouett, que estava ancorado no Rio Potengi, no Estado do Rio Grande do Norte. ocasião em que os dois presidentes, em francês, ajustaram a criação da FEB – a Força Expedicionária Brasileira, e o auxílio militar:

“Para se modernizar e estar preparado para a guerra, o Brasil precisou da ajuda dos Estados Unidos. No dia 27 de janeiro, Vargas e Roosevelt encontraram-se em Natal para firmar os termos da cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos. No esforço de modernizar as forças armadas brasileiras, alguns oficiais brasileiros foram mandados aos Estados Unidos para realizar cursos e estágios. Assim, aos poucos, os então obsoletos modelos militares franceses passaram a ser substituídos pelos modernos modelos norte-americanos.” (VILELA, 2013: Disponível em https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/brasil-na-segunda-guerra-surge-a-feb-dificuldades-para-criar-uma-forca-expedicionaria.htm. Acesso no dia 15 de março de 2015)

Depois de tudo isso a notícia chegou ao Município de Boa Viagem e não tardou muito para que o Exército convocasse os seus novos recrutas, que foram aos poucos sendo chamados a formaram um pequeno contingente de 45 recrutas. Esse pequeno contingente formado no Município foi fruto da exigente comissão de médicos, que selecionava os futuros combatentes:

“Outro problema enfrentado pelo Brasil foi a dificuldade para encontrar gente qualificada para serviços essenciais nas Forças Armadas: eletricistas, motoristas, mecânicos de automóveis, radiotelegrafistas, profissionais especializados em conserto de rádios, etc. Havia também um número insuficiente de oficiais da ativa, especialmente capitães e tenentes. A solução encontrada foi convocar reservistas, ex-alunos do CPOR – o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva. A maioria desses reservistas era formada por profissionais liberais (médicos, advogados, engenheiros, professores…) que, de uma hora para outra, se tornaram oficiais combatentes. Os reservistas transformados em oficiais combatentes ajudaram a desenhar um novo perfil para o exército brasileiro. Muitos oficiais graduados, que estavam servindo por mais tempo, tratavam os subordinados de maneira excessivamente ríspida. Esses subordinados costumavam sofrer prisões disciplinares por motivos insignificantes. Os novos oficiais, vindos do CPOR, adotavam uma postura diferente e mais sensata: como sabiam que a confiança mútua seria essencial em situações de combate, preferiam tratar os subordinados de maneira mais amigável e respeitosa. Tal tratamento era feito sem sacrifício da disciplina e da hierarquia. Outro obstáculo foi recrutar homens fisicamente aptos para prestar o serviço militar. Por razões médicas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, um grande número de brasileiros foi dispensado. Entre os motivos da dispensa médica, os mais frequentes eram problemas de dentição, subnutrição, doenças sexualmente transmissíveis, verminoses e outras infecções. Parecia quase impossível que o Brasil conseguisse formar um contingente para lutar na guerra. Os mais céticos diziam, em tom de deboche, que era mais fácil ‘ensinar uma cobra a fumar’ do que o Brasil conseguir formar uma força expedicionária para enfrentar os alemães.” (VILELA, 2013: Disponível em https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/brasil-na-segunda-guerra-surge-a-feb-dificuldades-para-criar-uma-forca-expedicionaria.htm. Acesso no dia 15 de março de 2015)

Nessa mesma época, no dia 5 de setembro de 1940, segundo informações existentes no livro B-10, pertencente à secretaria da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem, tombo nº 56, página 23, diante do Mons. José Gaspar de Oliveira, contraiu matrimônio religioso com Maria Evangelista de Araújo, que era nascida no dia 23 de novembro de 1918, sendo filha de Raimundo Evangelista Torres e de Maria Raimunda de Sousa.
No mesmo dia, conforme informações existentes no livro B-07, pertencentes ao Cartório Geraldina, 1º Ofício, tombo nº 481, folha 161, diante do Dr. Otacílio Pereira de Alencar, confirmou os seus votos de matrimônio em uma cerimônia civil.
Desse matrimônio foram gerados onze filhos, três homens e oito mulheres,  dentre eles citamos: Osvaldo Félix de Araújo, Maria Ilca de Araújo, Antônia  Felix de Araújo, Maria José de Araújo, Maria Socorro de Araújo, Geralda Felix de Araújo, Francisca Maria de Araújo, Francisca Ivonete de Araújo, Manuel Felix de Araújo, Romélia Felix de Araújo e Sebastião Vitor de Araújo.
Alguns meses depois, mesmo já estando casado, diante do fato do Brasil ter declarado guerra aos países do Eixo, ocorreu a sua convocação, sendo uma das primeiras a ocorrer em nossa região.

Imagem dele entre os companheiros de caserna (5º da esquerda para direita, o 1º em pé), em Fortaleza, no dia 1º de julho de 1942.

Antes disso, na hora da partida, conta-se que muitas famílias choravam na Praça Dr. João Tomé de Sabóia e Silva, atual Praça Antônio de Queiroz Marinho, na despedida dos futuros pracinhas de Boa Viagem que seguiriam para o treinamento e posteriormente para o conflito.
Da cidade de Boa Viagem esses e outros recrutas foram conduzidos em um caminhão para a cidade de Quixeramobim, onde de trem seguiram para cidade de Fortaleza:

“Tendo sido enviados cerca de 25 000 homens, de um total inicial previsto de 100.000. Mesmo com problemas na preparação e no envio, já na Itália, treinada e equipada pelos americanos, a FEB cumpriu as principais missões que lhe foram atribuídas pelo comando aliado.” (S.N.T)

Na cidade de Fortaleza, já engajado na caserna, com o número 789, compunha a 1ª Cia do 23º BC – o Batalhão de Caçadores, onde depois de alguns meses no treinamento preparatório recebeu instrução militar no regimento de artilharia, sendo destacado por seus superiores para fazer a vigilância do paiol existente no Pirambu.
Nesse serviço permaneceu até agosto de 1945 e quando a sua turma se preparava para ser embarcada para o front a temida guerra chegou ao fim:

“Em 15 de agosto de 1945 o Japão se rende, sendo os documentos de rendição finalmente assinados a bordo do convés do navio de guerra americano USS Missouri em 2 de setembro de 1945, o que pôs fim à guerra.” (S.N.T)

Faltando apenas nove dias para o embarque o conflito chegou ao fim, mesmo assim, por ordem do comando, os soldados de seu regimento ficaram de prontidão aguardando qualquer surpresa dos países do Eixo.
Depois do encerramento do conflito mundial permaneceu como soldado do Exército Brasileiro por alguns meses, quando foi dispensado e imediatamente retornou para sua esposa.
Depois disso, já em Boa Viagem, retomou as suas atividades de agricultor, passando uma pequena temporada na localidade de Tocantins, em seguida se estabeleceu em uma propriedade denominada de Sítio, onde serviu durante alguns anos como capataz da propriedade.
Mais tarde, por volta de 1964, desejando dar oportunidade de estudo para os seus filhos, decidiu se estabelecer na cidade de Boa Viagem na Rua 26 de junho, nº 445, Centro, onde permaneceu até o fim de seus dias.
Segundo informações existentes no livro C-06, pertencente ao Cartório Geraldina, tombo nº 4.750, página 221, faleceu na noite do dia 6 de junho de 2006, aos 85 anos de idade.
Depois do seu falecimento, logo após as despedidas fúnebres que são de costume, o seu corpo foi sepultado por seus familiares em um túmulo existente no Cemitério Parque da Saudade, que está localizado na Rua Joaquim Rabêlo e Silva, nº 295, no Centro da cidade de Boa Viagem.

Imagem do túmulo da Família Carvalho, em 2013.

BIBLIOGRAFIA:

  1. AZEVEDO, Stênio & NOBRE, Geraldo. O Ceará na Segunda Guerra Mundial. Fortaleza: ABC Editora, 1998.
  2. FRANCO, G. A. & CAVALCANTE VIEIRA, M. D. Boa Viagem, Conhecer, Amar e Defender. Fortaleza: LCR, 2007.
  3. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  4. PARÓQUIA DE NOSSA SENHORA DA BOA VIAGEM. Livro de registro dos casamentos. 1939-1943. Livro B-10. Tombo nº 56. Página 23.
  5. SILVA JÚNIOR, Eliel Rafael da. A História da Saúde no Município de Boa Viagem. Disponível em http://www.historiadeboaviagem.com.br/saude/. Acesso em 25 de outubro de 2016.
  6. VILELA, Túlio. Brasil na Segunda Guerra – Surge a FEB – Dificuldades para criar uma Força Expedicionária Brasileira. Disponível em https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/brasil-na-segunda-guerra-surge-a-feb-dificuldades-para-criar-uma-forca-expedicionaria.htm. Acesso no dia 15 de março de 2015.

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