Promessa de bêbado.

Eliel Rafael da Silva Júnior

No sertão, a madrugada só termina quando o povo decide, especialmente quando existe uma festa. E naquela noite de sábado, lá pelos idos de 1990, foi exatamente assim.
Na antiga Esquina do Calboy, ponto clássico da cidade de Boa Viagem naquela época, ali na margem da BR-020 com a Rua Coronel Luís Amaro Bezerra, fervia uma seresta animada pelo inconfundível Elmo Doth. O seu teclado chorava, o povo cantava, dançava, bebia e a madrugada, coitada, com os olhos cansados já tinha pedido arrego.
Por volta das três da manhã, ninguém queria saber de cama. O povo queria era mais música, mais animação, mais um gole de alegria. No meio daquela animação toda estava Benjamin Alves da Silva, o prefeito do Município, homem conhecido pela boa prosa e por um humor que só quem conviveu sabe explicar.
Os amigos e eleitores apertavam pra cima dele, pediam mais uma horinha de seresta. O povo queria cantar até o galo desmaiar de sono. E como política e festa no sertão têm uma ligação que ninguém consegue decifrar, não demorou muito para que um recado do prefeito chegasse sutilmente ao pé do ouvido do cantor: “Elmo, pode tocar, tem uma caixinha garantida. Vá segunda-feira, no gabinete.”
Elmo, que não era besta nem nada, abriu um sorriso que iluminou a calçada. Tocou mais uma, mais duas, e a madrugada foi indo, levando junto qualquer noção de horário e cansaço.
Segunda-feira, o sol mal tinha se espreguiçado e Elmo já marchava rumo à prefeitura, animado feito menino com pirulito novo. Entrou no gabinete e disse, com toda educação que Deus lhe deu: “Bom dia, meu prefeito. Vim receber aquela caixinha que o senhor me prometeu.”
Benjamin, sentado como quem já estava no segundo cigarro do dia, ergueu o olhar, sorriu daquele jeito que só ele sabia, e respondeu: “Elmo… e desde quando tu acredita em promessa de bêbado?”
A frase bateu no ar e os dois caíram na risada, por conta da piada. Risada boa, daquelas que selam amizades. Cada qual seguiu seu caminho, certos de que naquela segunda-feira ninguém ficaria rico, mas todo mundo continuaria amigo.
E foi assim. A seresta acabou, o dinheiro não veio, mas a história… ah, essa ficou pra bons e longos anos.

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