Cachoeira dos Fragoso

AS INFORMAÇÕES BÁSICAS:

A Cachoeira dos Fragoso, que também é conhecida como a Cachoeira dos Crentes, é uma localidade existente na zona rural do Município de Boa Viagem, distante pouco mais de 20 quilômetros do Centro da cidade de Boa Viagem, no Estado do Ceará.

Imagem da Cachoeira dos Crentes, em 2020.

Dentro da divisão politico-geográfica, em relação ao Marco Zero, essa localidade está na região oeste do Município, dentro dos limites geográficos do território do Distrito de Boa Viagem.

A ORIGEM DE SEU TOPÔNIMO:

Designação toponímica classificada como complexa, a sua nomenclatura está relacionada a uma das pequenas quedas d’água existentes nessa região, que em nossos dias é conhecida como Cachoeirão dos Ferreiras, hoje dentro da localidade de Varzinha, estando no curso do Rio Juazeiro, um importante tributário do Rio Quixeramobim.

Imagem do Cachoeirão dos Ferreiras, em 2006.

Quanto ao segundo termo, que é um complemento de posse, é o que lhe diferencia das demais cachoeiras, que anteriormente era conhecida como Cachoeira do Tenente José Filipe Ribeiro da Silva.
O nome de Cachoeira dos Fragoso passou a ser utilizado nos últimos anos da década de 1930, quando pessoas da família Fragoso, de confissão protestante, ao virem do Estado da Paraíba, se estabeleceram nessa região.

AS SUAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS:

Em um passado distante essa localidade já possuía algumas casas distantes umas das outras, servindo às famílias dos trabalhadores rurais que eram moradoras das várias fazendas existentes na região, que desde essa época já viviam da criação extensiva de gado e do plantio de culturas como milho, feijão, algodão, mandioca e outras em terras irrigadas por pequenos riachos que são tributários do Rio Juazeiro.
Sobre um de seus primeiros proprietários a tradição oral ainda guarda preciosas informações sobre a sua existência nessa região, onde construiu uma casa de alvenaria:

“O casarão da Cachoeira dos Fragoso, mais conhecido como Casarão do Tenente Zé Filipe, era feito de barro e tijolos, hoje está demolido. Segundo o Sr. Bernardino Fragoso Vieira, conhecido por Dedê, a casa era grande, virada para o nascente, tendo 35 palmos de altura e 60 de largura, não tinha alpendre e o mais interessante é que o final da casa era da altura de um homem de no máximo 1,90m… O Tenente José Filipe era um homem muito orgulhoso. Há comentários de que o mesmo, ao cumprimentar alguém de posição social inferior a dele, lavava as mãos em seguida… Em 1939, o terreno passou a pertencer a Raimundo Nonato Uchôa. O mesmo falou que o tenente, ex-proprietário, falava que, em 1938, a casa havia completado 100 anos…” (FRANCO, G. A.; CAVALCANTE VIEIRA, M. D., 2007: p. 125-126)

Nessa época a propriedade ainda dispunha de um forno de pedra para o beneficiamento de cal, possivelmente construído em 1850, que os mais antigos afirmam ter sido manipulado por mão-de-obra escrava.

“O forno de cal tem por volta de 156 anos, foi feito por escravos em 1850… o forno tem 25 palmos de largura, isso é equivalente a 5 metros, 62,5cm. Ele afirma que era feito de pedra. ‘Eu vi o forno funcionar por muito tempo, mas não na época dos escravos, os mais velhos iam buscar pedra de cal na pedreira e as traziam nos jumentos, colocavam no forno para cozer e tacavam fogo no forno. As pedras ficavam cozinhando por 8 dias e 8 noite. Depois as pedras eram retiradas e levadas por uma laje grande onde seriam aguadas com água até derreter e virarem pó, deixavam secar e catavam as pedrinhas que ficavam espessas no cal’, diz o Sr. Dedê. Atualmente o forno está quase intacto, mas ao passar dos anos um pé de algaroba nasceu próximo dele e o está destruindo aos poucos. É realmente um forno muito velho e já foi de muita utilidade e fonte de renda.” (FRANCO, G. A.; CAVALCANTE VIEIRA, M. D., 2007: p. 126-127)

Como foi dito o referido forno ainda existe, mas a ação do tempo aos poucos o vem destruindo.

Imagem do velho forno de cal, em 2012.

Mais tarde, desejando conquistar melhorias em vida, essa localidade serviu de assentamento para família do Agropecuarista Manoel Maria de Jesus, um paraibano que constituiu um dos primeiros núcleos de confissão cristã protestante na região, algo que serviu, anos mais tarde, para influenciar na mudança do perfil religioso e econômico do Município.

“Cícero e Pompeu estavam prestes a voltar para o Sítio Jacu com as mãos vazias, quando passaram pela casa de um primo de seu pai, Martins José da Silva, na Fazenda Pitombeira, que era irmão de Manoel José da Silva, dono da Fazenda Madeira Cortada. E lá tomaram conhecimento do interesse da venda de uma propriedade, de 1.000 ha., a 20 km da sede do Município, pertencente a Raimundo Nonato Uchôa (*1886 †1967), no valor de 21 mil contos de réis. Essa propriedade se chamava Cachoeira e no passado pertenceu ao Tenente José Filipe Ribeiro e Silva, um agropecuarista que possuía patente da Guarda Nacional, e se envolveu com o movimento antiescravagista, criando com outros, no dia 1º de julho de 1883, a Sociedade Libertadora de Boa Viagem.” (SILVA JÚNIOR, 2015: p. 182)

Ao se estabelecerem nessa região passaram a habitar no velho casarão do Tenente José Filipe, sendo esse um dos primeiros locais a celebrarem de forma rotineira os cultos religiosos de confissão protestante no Município de Boa Viagem.

Imagem da base em pedra do velho casarão entre os arbustos, em 2021.

Pouco tempo depois, com a morte de seu patriarca, ocorrida em 1943, esse casarão virou alvo de disputas familiares, que para evitar dissensão, nos últimos anos da década de 1960, foi demolido para servir de material para construção da casa de alguns dos seus herdeiros.

“Vale lembrar que foi no salão dessa casa que foi feito o primeiro culto em 25 de dezembro de 1941, às 19 horas, num domingo, onde se reuniram 5 famílias… Com sua morte, a casa passou a ser de seis herdeiros: Pompeu Fragoso Vieira e sua esposa, Maura Antônia do Nascimento; Francisco Fragoso Vieira e sua esposa Maria Vieira da Silva; Cícero Fragoso Vieira e sua esposa, Maria Vieira de Andrade; Maria Fragoso Vieira; Daniel Fragoso Vieira e sua esposa, Francisca Raquel de Freitas; Manoel Cucas de Andrade e sua esposa, Esmeraldina Fragoso Vieira. Todos os herdeiros queriam morar na casa e com isso começou um grande conflito dentro da família. Não tinha como todos morarem na casa, daí decidiram fazer uma eleição, a a decisão que predominou foi ‘total destruição’, que a casa e o seu material fosse dividido entre os herdeiros. Então, em 1968, com maioria de votos, a casa foi destruída e, conforme o trato, o material foi dividido. ‘Eu mesmo fui um dos que votou para demolição, afinal, não há nada melhor que a união de uma família, nem mesmo aquele casarão centenário’, disse Bernardino Fragoso Vieira.” (FRANCO, G. A.; CAVALCANTE VIEIRA, M. D., 2007: p. 126)

Antes de sua morte, por volta de 1942, necessitando de uma reserva hídrica permanente, investiu com os seus herdeiros na construção de um açude, que logo recebeu o nome de “Açude Grande”.

Imagem da Cachoeira dos Crentes, em 2021.

Depois de sua morte, como foi dito, possuindo uma grande família, essa propriedade foi paulatinamente sendo dividida entre os seus herdeiros ou negociada com outros proprietários.
Já nessa época, diante do êxodo rural ocasionado por conta das secas, muitos de seus descendentes aos poucos foram migrando para cidade, onde se estabeleceram como comerciantes ou profissionais liberais.

“Os protestantes que para aqui vieram, em diferentes épocas, ficaram divididos em diversas partes da zona rural: Marmilona, Cachoeira, Pitombeira, Santa Cruz, Olho d’Água dos Facundos, Pedra Branca, Madeira Costada, Lembranças, dentre outros. Este fato parece que os deixaram desapercebidos, pelo menos por algum tempo. Esses migrantes involuntários trouxeram como parte de sua bagagem as marcas de sua fé, e os seus lares se constituíram em pequenas igrejas, pequenos núcleos de resistência que passaram a influenciar em diversos setores da vida social, política e econômica da vida social do Município de Boa Viagem.” (SILVA JÚNIOR, 2015: p. 171)

Mais tarde, nos primeiros meses de 1986, na gestão do Prefeito José Vieira Filho – o Mazinho, existindo um grande número de crianças em idade escolar que recebiam instrução formal em um local adaptado, os moradores dessa região foram beneficiados com sua unidade escolar.
No presente os moradores dessa localidade já dispõem de energia elétrica e do serviço de internet via rádio.
Ao longo de sua história, tendo raízes nessa localidade, algumas pessoas se destacaram no campo da política, sendo eles: João Fragoso Vieira, Sidônio Fragoso Vieira, Misrain Fragoso VieiraEsaú Fragoso da Silva e Ismael Fragoso da Silva.

AS LOCALIDADES DE SUA VIZINHANÇA:

O acesso para localidade de Cachoeira dos Fragoso, saindo da cidade de Boa Viagem, é feito por via terrestre por meio da CE-266, a Rodovia Estadual Senador Fernandes Távora, seguindo também por algumas rodovias municipais, que lamentavelmente não possuem nomenclatura que facilitem a sua identificação.

Imagem do mapa da região.

A Cachoeira dos Fragoso tem em sua vizinhança as seguintes localidades: Barbatão, Carobas, Olho d’Água, Relógio e Tamanduá.

OS EQUIPAMENTOS EXISTENTES NA LOCALIDADE:

Na localidade de Cachoeira dos Fragoso os seus habitantes possuem alguns equipamentos para facilitar as suas vidas, bem como a dos moradores de sua vizinhança, sendo eles:

  1. Escola de Ensino Fundamental Manoel Maria de Jesus;
  2. A Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira;
  3. O Açude Grande.

BIBLIOGRAFIA:

  1. BRAGA, Renato. Dicionário Histórico e Geográfico do Estado do Ceará. v. 1º. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.
  2. FRANCO, G. A. & CAVALCANTE VIEIRA, M. D. Boa Viagem, Conhecer, Amar e Defender. Fortaleza: LCR, 2007.
  3. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  4. SILVA JÚNIOR, Eliel Rafael da. Andarilhos do Sertão: A Chegada e a Instalação do Protestantismo em Boa Viagem. Boa Viagem, CE: PREMIUS, 2015.

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