Rev. Antônio Francisco Neto

Rev. Antônio Francisco NetoAntônio Francisco Neto nasceu no dia 21 de março de 1909 no Município de Brejo do Cruz, que está distante 420 quilômetros da cidade de João Pessoa, capital do Estado da Paraíba, sendo filho de Francisco Antônio Alves e de Emídia Maria de Melo.
Segundo informações de alguns de seus contemporâneos passou grande parte de sua infância na Fazenda Riacho Escuro, que está localizada na zona rural desse Município:

“O Rev. Antônio Francisco Neto nasceu a uma distância de 30 quilômetros da cidade de Catolé do Rocha… Teve uma infância difícil, pois sendo filho de pais pobres e ainda adolescente perdeu a sua mãe, indo morar em companhia de sua irmã, Sergina Emídia.” (S.N.T, S.D: p. 62)

Por volta de 1929, quando estava de viagem entre os Municípios de Brejo do Cruz e Catolé do Rocha, teve o seu primeiro contato com a confissão reformada através do testemunho de um comerciante chamado José Doroteia Dutra.
Nessa ocasião José Doroteia o convidou a participar, posteriormente, de um culto em sua residência no intuito de ouvirem o Rev. Harry George Briault, um missionário protestante pertencente a UESA, a União Evangélica Sul-americana, que dava assistência espiritual à comunidade protestante estabelecida naquela região:

“Foi convertido em 1930, depois de um sonho no qual viu o verdadeiro caminho, Jesus Cristo, o que fez dedicar-se a evangelização de sua terra.” (S.N.T, S.D: p. 62)

Atendendo ao convite, naquele culto, o jovem Antônio Neto compreendeu a essência da mensagem que foi ensinada pelo Rev. Briault e professou a sua fé diante do público presente naquela reunião.
Algum tempo depois, no dia 4 de outubro de 1931, em um sítio denominado de Cajueiro, mesmo enfrentando forte intolerância religiosa por parte da população, foi batizado pelo Rev. Briault e passou a pertencer ao quadro de membros da Igreja Evangélica Congregacional de Catolé do Rocha:

“Após o batismo tornou-se um dos mais jovens e corajosos cooperadores do trabalho protestante no Sertão do Estado da Paraíba. No início não pensou em ser pastor, mas sim, um evangelista a exemplo de Sinfrônio Costa e José Doroteia Dutra.” (S.N.T, S.D: p. 62)

Logo após a sua conversão, passou a ser uma das principais colunas nos serviços religiosos daquela igreja, que na época era conduzida pelo Rev. Horace M. Murfin que, em 1934, percebendo o seu pendor para o ministério pastoral, levantou fundos e mantenedores no exterior para o seu sustento no Seminário Teológico Congregacional do Nordeste, que atualmente está localizado na Rua Arealva, nº 19, Bairro de Tejipió, na cidade do Recife:

“Diplomou-se em Teologia pelo Seminário Evangélico do Recife, em 1939, e foi ordenado na Igreja Evangélica Congregacional de Jaboatão dos Guararapes, em 17 de janeiro de 1942.” (SYLVESTRE, 2014: p. 140)

Nessa instituição de ensino a sua vida acadêmica foi realizada em vários locais e etapas, pois na época, sem apoio suficiente, esse seminário passava por sérios problemas financeiros.
Na cidade do Recife, quando era estudante, passou por muitas privações, mas isso não o fez desanimar, sempre havia alguma espécie de trabalho que lhe rendia alguns trocados, que imediatamente eram investidos em livros e materiais necessários ao seu aprendizado:

“Como seminarista, cooperou com muitos trabalhos, chegando até a cidade de Sobral, no Estado do Ceará.” (S.N.T, S.D: p. 62)

Depois de muito esforço, nos últimos meses de 1939, conseguiu concluir com louvor o bacharelado em Teologia, preparando-se a partir daí para ser ordenado ministro da UIECB, a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil:

“Convidado a pregar nas comunidades pelo Rev. Horace M. Murfin, que o preparou e depois conseguiu o sustento por meio de duas jovens canadenses, o fê-lo ingressar no Instituto Bíblico de Patos. As canadenses não puderam sustentá-lo [até o fim do curso] e o Rev. Briault, apesar das dificuldades, conseguiu uma bolsa de estudos no Seminário Teológico Congregacional do Nordeste, em Recife, que nessa época funcionava em Beberibe e depois foi transferido para o Bairro de Madalena, onde funcionou em parceria com o Seminário Presbiteriano do Norte.” (S.N.T, S.D: p. 62)

Após a conclusão do curso, ainda como licenciado, foi designado pela denominação a assumir os trabalhos  no campo missionário no Município de Sousa, no Estado da Paraíba, aonde iniciou os trabalhos da Igreja Evangélica Congregacional daquela cidade e foi consagrado presbítero com funções pastorais.
Logo em seguida, foi convidado pelo Rev. Briault a assumir o campo da Igreja Evangélica Congregacional de Catolé do Rocha, a sua igreja de origem, no lugar de seu cunhado, o Rev. Lidônio Fragoso de Almeida.
Nessa mesma época, no dia 22 de julho de 1940, na cidade de Catolé do Rocha, contraiu matrimônio com Celina Freitas de Almeida, irmã do Rev. Lidônio Fragoso de Almeida, com quem gerou duas filhas, sendo que uma delas faleceu com apenas dois meses de idade.
Depois disso, no dia 17 de janeiro de 1942, em uma Convenção Regional de Igrejas Congregacionais do Nordeste, que foi realizada na Igreja Evangélica Congregacional de Jaboatão dos Guararapes, foi ordenado pastor e responsabilizado de assumir a reestruturação do campo evangelístico da Igreja Evangélica Congregacional de Catolé do Rocha, que durante muitos anos vinha sofrendo dura e implacável perseguição:

“As perseguições ainda existiam e muitos crentes fugiram dos impiedosos flagelos produzidos pelos católicos. Dispersando-se pelo nosso país [os crentes] aonde chegavam fundavam trabalhos e em um deles, em Boa Viagem, no Estado do Ceará, o Rev. Antônio Neto esteve a frente até 1957, passando a sua direção ao Licenciado José Borba da Silva Neto.” (S.N.T, S.D: p. 62)

Pouco tempo depois dessa dispersão, alguns desses crentes, quando chegaram ao Município de Boa Viagem, que está localizado no Sertão Central do Estado do Ceará, se estabeleceram em diferentes localidades da zona rural, onde no dia 12 de dezembro de 1941 organizaram a Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira.

Templo da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira.

Imagem do templo da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira.

Nessa ocasião essa comunidade passou a ter assistência pastoral do Rev. Paulo Moody Davidson, que depois de experimentar o auxílio de vários pastores estrangeiros optou em ser pastoreada por um obreiro brasileiro.
No dia 10 de março de 1953, segundo informações existentes no livro de atas da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira, tomou posse de sua provisão pastoral em uma assembleia extraordinária que foi dirigida pelo Rev. Francisco Souto Maior:

“A assembleia foi presidida pelo Rev. Francisco Souto Maior, que foi autorizado pela junta, o qual leu a carta credencial autorizando-o a realizar essa sessão em favor da posse do Rev. Antônio Francisco Neto… que foi apresentado como pastor oficial.”

Nessa reunião estavam presentes os representantes da maioria das congregações dessa igreja, sendo eles: Sebastião Alves da Silva, representando Pitombeira; José dos Santos Filho, representando Lembranças, que atualmente é chamada de Várzea da Tapera; João Fragoso Vieira, que representava a congregação da cidade de Boa Viagem, sendo lida também a carta de Manoel José da Silva, que não pode comparecer e representava Madeira Cortada.
No dia seguinte, às 19 horas, diante de 33 membros, presidiu a sua primeira assembleia nessa igreja, quando organizou o seu corpo de oficiais, diretorias e se comprometeu em organizar os seus estatutos.
Cinco meses depois desses fatos, retornando ao Município de Boa Viagem no dia 19 de agosto, em uma assembleia especial iniciada às 14 horas, apresentou aos membros o tão esperado estatuto da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira, que foi aceito por unanimidade.
Alguns meses depois, sentindo o desejo dessa igreja em ter um pastor residente, conforme ata do dia 17 de fevereiro de 1954, entregou esse pastorado aos cuidados do Rev. Manoel Bernardino de Santana:

“Assembleia especial da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira. No dia 17 de fevereiro de 1954, às 16h30min… sob a presidência do Rev. Antônio Neto… que leu a carta da Junta Regional do Nordeste endereçada à Igreja de Cachoeira… aprovando que o Rev. Manoel Bernardino de Santa fosse escolhido como pastor local integral.”

Em todo o seu ministério, mesmo enfrentando grandes distâncias, sempre foi um homem muito presente nas decisões da denominação.

Imagem do Rev. Souto Maior em uma Convenção Regional das Igreja Congregacionais do Nordeste.

Imagem do Rev. Antônio Francisco Neto, terceiro à esquerda, em uma Convenção Regional das Igrejas Congregacionais do Nordeste.

Poucos dias depois desses fatos, em 3 de maio de 1955, na cidade de Catolé do Rocha, depois de quinze anos de união conjugal, foi surpreendido por uma infeliz surpresa:

“Dona Celina, muito querida por todos os catoleenses, ficou muito abatida após a morte de seus pais e veio a falecer vítima de um enfarto.” (S.N.T, S.D: p. 62)

Em seu período de pastorado a Igreja Evangélica Congregacional de Catolé do Rocha adquiriu algumas propriedades para consolidação de seu patrimônio e em um deles edificou uma casa pastoral e o Instituto de Educação Rev. Harry George Briault:

“Não havia dinheiro, mas Deus sempre enviava provisão, e um amigo lhe emprestou certa quantia em dinheiro, que foi investido na compra de um antigo cinema, que foi transformado em um Instituto de Educação que homenageia uma grande personalidade do evangelho em Catolé do Rocha, o Rev. Briault.” (S.N.T, S.D: p. 62)

Depois disso, no dia 9 de setembro de 1956, contraiu novas núpcias, desta vez com a sua cunhada, Maria Freitas de Almeida, e deu sequência ao seu abençoado e frutífero ministério.
Daí por diante, durante toda a sua vida ministerial, residiu com a sua família na cidade de Catolé do Rocha, local onde conseguiu conquistar a simpatia de todos com um trabalho sério, confessando uma fé firme no Senhor Jesus Cristo, envolvendo-se com o desenvolvimento econômico do Município e conquistando vários amigos:

“O Rev. Antônio Neto, depois de jubilado, passou a pastor emérito da Igreja Congregacional e uma das figuras mais respeitadas e queridas daquela região do Sertão paraibano.” (SYLVESTRE, 2014: 140)

No dia 9 de janeiro de 1957, depois de organizada eclesiasticamente, entregou o pastorado da Igreja Evangélica Congregacional de Boa Viagem aos cuidados do Rev. José Borba da Silva Neto:

“Mesmo nessas lutas não hesitou em estender a sua tenda às cidades de Sousa, Marizópolis e São José de Piranhas, na Paraíba; Almino Afonso, no Rio Grande do Norte e Boa Viagem, no Ceará. Em Boa Viagem, em 24 de junho de 1956, oficiou a organização da Igreja Evangélica Congregacional, com a celebração de uma festa histórica e ficou ali como pastor visitante até a posse do Pastor José Borba da Silva Neto.” (CARNEIRO, 2006: p. 140)

Imagem do templo da Igreja Evangélica Congregacional de Boa Viagem, década de 1970.

Imagem do templo da Igreja Evangélica Congregacional de Boa Viagem, década de 1970.

Na cidade de Catolé do Rocha era comum ver o seu “Tonho”, como era carinhosamente chamado, sair a cavalo e, algum tempo depois, em uma rural willys, realizando trabalhos de evangelismo em diversos locais, dentre eles destacamos: Brejo dos Santos, Olho d’Aguinha, Várzea Nova, Cajazeirinhas, Cajueiro, Várzea Nova, Riacho dos Cavalos, Almino Afonso, Brejo do Cruz, Sítio Bujari, São José de Piranhas e outros.
Nesses locais, com muito esforço, paciência e sabedoria conseguiu desmistificar preconceitos e construir sólidas amizades:

“Em 1929, foi construído o templo de Cajueiro, o primeiro da região… o templo foi inaugurado… os crentes e seus convidados vinham de duas e até três léguas de distância… Assim, em 1932, por meio de uma ação legal, o Pe. Otaviano conseguiu desalojar os crentes e demolir o templo. Novamente os cultos voltaram a ser realizados nas casas dos crentes. O novo templo foi inaugurado muitos anos depois, já no pastorado do Rev. Antônio Francisco Neto.” (FERREIRA & SANTANA FILHO, 2015: p. 116)

No dia 14 de junho de 1998, em consequência de um grave acidente automobilístico, acontecido quase em frente a sua residência, perdeu a sua esposa e depois disso a sua vida perdeu um pouco do brilho.
Depois desse fato, uma tristeza profunda debilitou-lhe aos poucos a saúde e levou-lhe ao falecimento no dia 3 de junho de 2001, com 92 anos de idade, na cidade de Catolé do Rocha, no Estado da Paraíba.

“O seu falecimento consternou a cidade, o prefeito decretou luto oficial, o juiz da Comarca, em plena sessão com conselho de jurados, suspendeu os trabalhos por 72 horas, o comércio cerrou as suas portas, as Igrejas Católicas repicaram os sinos em sinal de luto e os evangélicos da cidade correram para o templo da Igreja Evangélica Congregacional, localizada na Praça Sérgio Maia, para louvar a vida de um príncipe que partia para pátria celestial.” (CARNEIRO, 2006: p. 140)

O seu sepultamento reuniu milhares de pessoas, o seu séquito foi saudado com dezenas de faixas e cartazes, que foram espalhados pelas principais vias da cidade por onde passou.
Em seu velório assim afirmou o Frei Dimas, pároco da Igreja Mariz de Nossa Senhora dos Remédios, da freguesia de Catolé do Rocha, que também esteve presente na solenidade acompanhado da banda de música da paróquia:

“Ler a Bíblia e muito bom, mas, viver a Bíblia como este homem vive, é muito melhor!” (SNT, SD: p. 63)

Depois das despedidas de costume, o seu corpo foi sepultado em um mausoléu pertencente a sua família que está localizado no Cemitério Frei Damião de Bozzano, que está localizado na Rua Sinfrônio Gonçalves, s/nº, no Centro da cidade de Catolé do Rocha.

BIBLIOGRAFIA:

  1. CARNEIRO, Osmar de Lima. Fotografando o Amor! Histórias de uma igreja perseguida. João Pessoa: Editora JRC, 2006.
  2. FERREIRA, J.M; SANTANA FILHO, M.B. Igreja Evangélicas Congregacionais do Brasil. Origens, história e desenvolvimento. Rio de Janeiro: EDIGRÁFICA, 2016.
  3. IBGE. A história de Brejo dos Santos. Disponível em https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pb/brejo-dos-santos/historico. Acesso no dia 24 de fevereiro de 2018.
  4. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  5. SILVA JÚNIOR, Eliel Rafael da. Andarilhos do Sertão: A Chegada e a Instalação do Protestantismo em Boa Viagem. Boa Viagem, CE: PREMIUS, 2015.
  6. SYLVESTRE, Josué. Fatos e Personagens de Perseguições a Evangélicos. Antes que as marcas se apaguem. Curitiba: Editora Mensagem, 1995.

HOMENAGEM PÓSTUMA:

  1. Em sua memória, na gestão do Prefeito José Vieira Filho, o Mazinho, através da lei nº 985, de 19 de dezembro de 2007, uma das ruas do Bairro Osmar Carneiro, na cidade de Boa Viagem, recebeu a sua nomenclatura.