Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes

Francisco Ignácio da Costa Mendes nasceu no dia 14 de maio de 1842 no Município de Quixeramobim, que está localizado no Sertão Central do Estado do Ceará, distante 203 quilômetros da cidade de Fortaleza, sendo filho de Ignácio Mendes Guerreiro e de Joana Gomes da Silva.
Os seus avós paternos se chamavam José da Silva Bezerra e Joanna Baptista Guerreiro, já os maternos eram Luciano Alves da Costa e Anna Alves da Costa.
Pouco tempo depois do seu nascimento, seguindo os sacramentos da confissão religiosa de seus pais, foi batizado no dia 30 de julho pelo Pe. Inácio Antônio Lobo na Fazenda Poço d’Água.
Na época de seu nascimento, veio ao mundo pelas mãos de uma parteira na vila de Boa Viagem, que também era conhecida pela alcunha de “Cavalo Morto” e era apenas um pequeno povoado existente dentro dos limites geográficos do Município de Quixeramobim.

“Distrito criado com a denominação de Boa Viagem, ex-povoado de Cavalo Morto, pela lei provincial nº 1.025, de 18 de novembro de 1862. Elevado à categoria de vila com a denominação de Boa Viagem, pela lei provincial nº 1.128, de 21 de novembro de 1864, desmembrado de Quixeramobim.” (IBGE, 2010: Histórico de Boa Viagem. Disponível em http://cidades.ibge.gov.br/painel/historico.php?lang=&codmun=230240&search=ceara|boa-viagem|infograficos:-historico. Acesso no dia 13 de julho de 2017)

Sabemos pouca coisa de sua infância e que, no dia 20 de janeiro de 1857, depois de algum tempo de estudos, foi indicado pelo Prof. Manuel Hortêncio Damasceno ao Dr. Thomaz Pompeu de Sousa Brasil, diretor de instrução pública da Província do Ceará, como seu professor substituto na vila de Boa Viagem.
Pouco tempo depois, ainda bem jovem, sentindo-se vocacionado ao exercício do sacerdócio, foi encaminhado por sua paróquia aos estudos teológicos no Seminário Episcopal do Ceará, atual Seminário da Prainha, que está localizado na Rua Tenente Benévolo, nº 201, Centro, na cidade de Fortaleza.
Algum tempo depois, no dia 30 de novembro de 1867, aos 25 anos de idade, concluído os seus estudos, foi finalmente ordenado sacerdote romano pelo bispo diocesano, D. Luís Antônio dos Santos.
Depois disso, no dia 8 dezembro, cantou a sua primeira missa para os seus conterrâneos e no dia 18 de dezembro, conforme as informações publicadas no dia 11 de janeiro de 1868 pelo periódico O Cearense, ano XXII, nº 2.538, 1ª página, foi nomeado vigário coadjutor da Paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem:

“Foram nomeados: para Lavras o Rev. Antônio Alexandrino de Alencar, para Boa Viagem o Rev. Francisco Ignácio da Costa Mendes…, todos filhos do seminário desta cidade e ordenados em dezembro do ano passado.”

Alguns meses depois, no dia 5 de abril de 1868, obedecendo as ordens do bispo, assumiu os trabalhos da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem no lugar do Pe. João Antônio Nascimento e Sá, que havia sido nomeado vigário da freguesia Nossa Senhora da Glória, em Maria Pereira, atual Município de Mombaça:

“Ofício de 24 de dezembro de 1867 – O bispo da Diocese de Fortaleza, D. Luís Antônio dos Santos, comunica ao presidente da Província do Ceará, Pedro Leão Veloso, que o Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes foi nomeado coadjutor de Boa Viagem.” (MOTA, APEC: p. 215)

Algum tempo depois de sua posse, no dia 9 de julho de 1874, enquanto a igreja matriz passava por uma reforma, um fato desagradável aconteceu causando grande desconforto na opinião pública da comunidade boa-viagense:

“Na vila de Boa Viagem, no dia 9 do mesmo mês, as imagens da respectiva matriz apareceram despojadas dos seguintes objetos de ouro: um rosário com angélica, três varas de colar fino, um resplendor, vara e meia de cordão fino e um par de brincos. A igreja estava em consertos e não foram descobertos os autores desse crime.” (MELO, 2012: p. 78)

Nessa mesma época, residindo na sede dessa freguesia, conseguiu construir uma imponente casa na Rua Joaquim Rabêlo e Silva, s/nº, Centro, provavelmente utilizando a mão de obra que estava ociosa por conta da seca iniciada em 1877.

Imagem da residência do Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes, por volta de 1950.

Imagem da residência do Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes, por volta de 1950.

Alguns anos mais tarde, depois de sua definitiva saída dessa paróquia, essa casa foi negociada com o coletor de rendas do Município, Joaquim Rabêlo e Silva:

“A casa do alto, como era conhecido o casarão de tijolo edificado no século XIX pelo Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes, filho de Boa Viagem. Situava-se no local do atual prédio da EMATERCE. Foi demolido na primeira gestão do Prefeito Benjamim Alves da Silva. O saudoso casarão, que foi propriedade do coletor federal, Joaquim Rabêlo e Silva, serviu também para abrigar muitas pessoas portadoras de tuberculose.” (NASCIMENTO, 2002: p. 39)

Nessa paróquia, enfrentou tempos difíceis e o seu trabalho pastoral foi seriamente prejudicado por problemas em sua saúde, provavelmente tuberculose, que o afastaram temporariamente de suas atividades no dia 13 de janeiro de 1879:

“Ofício de 13 de março de 1868 – O bispo da Diocese de Fortaleza, D. Luís Antônio dos Santos, comunica ao presidente da Província do Ceará, Pedro Leão Veloso, que o Pe. João Antônio do Nascimento e Sá foi transferido da vigaria de Boa Viagem para a de Maria Pereira e o Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes, dispensado da coadjutoria de Boa Viagem, foi nomeado vigário da mesma freguesia e o Pe. João Antônio do Nascimento e Sá, dispensado da vigaria de Maria Pereira, foi nomeado coadjutor da mesma freguesia.” (MOTA, APEC: p. 215)

Enquanto esteve no Município de Boa Viagem, respondeu pelos serviços cartoriais sob a sua responsabilidade mantendo intensa comunicação com o Governo da Província:

“Ofício de 1º de julho de 1872 – O vigário de Boa Viagem, Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes comunica ao secretário de governo que brevemente mandará os mapas do movimento paroquial de conformidade com o novo modelo.
Ofício de 26 de dezembro de 1876 – O vigário de Boa Viagem, Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes, presta informações ao presidente da Província do Ceará, Francisco de Farias Lemos, sobre os livros em que são feitos os registros dos nascimentos e óbitos dos filhos livres da mulheres escravas.
Ofício de 26 de março de 1877 – O vigário de Boa Viagem, Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes, presta informações ao presidente da Província do Ceará, Caetano Estelita Cavalcanti Pessoa, que, de 28 de setembro de 1871 a 31 de dezembro de 1876 foram batizados 97 filhos livres de mulheres escravas e faleceram 11.
Ofício de 16 de maio de 1878 – O vigário de Boa Viagem, Pe. Francisco Ignácio a Costa Mendes, presta informações ao presidente da Província do Ceará, Francisco de Assis Oliveira Maciel, sobre as urgentes necessidades de sua Matriz e capelas filiais.” (MOTA, APEC: p. 216)

Ainda nessa época, na vila de Boa Viagem, os seus paroquianos sofriam com os sérios prejuízos deixados pela longa e impiedosa estiagem que se abateu sobre a região entre os anos de 1877 a 1879, a famosa e terrível “seca dos mil dias”.

“As cartas enviadas do Cariri, dos Inhamuns e do Sertão Central não deixam dúvidas: o período de julho a dezembro de 1877 seria horrendo para os sertanejos. O retrato do interior, nesse período, era de desolação total: o comércio morto, não funcionamento dos serviços públicos, destruição da força pública e, até mesmo, abandono das paróquias pelos seus vigários. Em toda a parte reinava a imagem de humanos esqueléticos, figuras tétricas e dantescas. O Sertão do Ceará passou a viver de esmolas, não só de alimentos ou de remédios. As autoridades municipais pediam roupas para os pobres. Comunicação de setembro dava conta que os indigentes viviam ‘completamente nus’ e isso era generalizado em todo o Sertão.” (FERREIRA NETO, 2006: p. 97)

O Pe. Costa Mendes, como era conhecido, por conta da fome produzida pela seca, assistiu o impiedoso surgimento de uma doença que vitimou muitos dos habitantes de nossa região, o beribéri.

Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes.

Imagem do Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes.

Essa terrível doença, que é provocada pela falta da vitamina B1 no organismo, provocava fraqueza muscular e dificuldades respiratórias, o que levou ao túmulo muitas de suas ovelhas:

“A correspondência limoeirense refere-se ao beribéri que, no segundo semestre de 1877, tornou-se uma das doenças mais comuns entre os indigentes. Relatório oficial menciona a situação crítica nos Municípios de Russas, Limoeiro, Aracati, Quixeramobim, Boa Viagem, Tamboril, Sobral e Santa Quitéria.” (FERREIRA NETO, 2006: p. 97)

No dia 3 de novembro de 1874, juntamente com os seus familiares, partilhou da dura perda de um de seus irmãos, o Prof. João de Araújo da Costa Mendes, que foi um dos fundadores do Ateneu Cearense.
Depois disso, no dia 8 de março de 1881, recebeu Carta Comendatícia de seu superior e passou uma curta temporada residindo na cidade de Codó, na Província do Maranhão, onde vigariava na Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia:

“O Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes vigariou as paróquias de Boa Viagem, Camocim, Ibiapina e Meruoca, neste Estado, e Codó, no Maranhão. Também exerceu, por algum tempo, seu apostolado no Amazonas.” (BRAGA, 1967: p. 101)

Mais tarde, no dia 1º de março de 1884, depois de alguns anos em tratamento e após melhorias em seu quadro clinico, foi designado pároco da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, na cidade de Camocim, localizada no litoral cearense, que na época estava ligada à Paróquia de Granja, no lugar do Pe. Leandro Teixeira Pequeno, que havia sido transferido para o Município de Maria Pereira, atual Mombaça.

“Desde 13 de fevereiro de 1878 esse sacerdote se retirou enfermo da freguesia, passando esta a ser regida pelo vigário da Paróquia de Pedra Branca. Ao ser dispensado, definitivamente, o Pe. Francisco Ignácio, a freguesia permaneceu sem vigário até 1882, ficando, entretanto, sob os encargos dos vigários de Quixeramobim e de Pedra Branca.” (NASCIMENTO, 2002: p. 82)

De acordo com as informações publicadas no jornal Gazeta do Norte, nº 287, página 1, edição do dia 19 de outubro de 1886, no dia 5 de março de 1886 foi provisionado vigário encomendado da Paróquia do Bom Jesus dos Navegantes, em Camocim, no litoral da Província, no lugar do Pe. Leandro Teixeira Pequeno.

“O Pe. Leandro Teixeira Pequeno, primeiro vigário, empossado a 2 de março de 1883… e que retornou para o período de 17 de outubro de 1895 a março de 1903 como vigário de Granja, nem o seu substituto para o intervalo, Pe. Francisco Inácio da Costa Mendes, deixaram qualquer anotação relativa à vida da paróquia ou da igreja.” (BARROSO, 2005: p. 186)

Em seu paroquiato deu grande incentivo para reforma de algumas capelas da região, que sofriam por conta do soterramento das dunas, entre elas a de Lagoa Amarela, por volta de 1888.
Algum tempo depois, no dia 21 de janeiro de 1891, na cidade de Fortaleza, outra perda familiar lhe atingiu, faleceu um de seus outros irmãos, o Prof. Manuel Teófilo da Costa Mendes. Depois disso, passou alguns meses na Região Norte do país, provavelmente no Amazonas, sem deixar de ser o vigário de Camocim nessa temporada.
No dia 10 de maio de 1892, devido aos sérios problemas com a justiça envolvendo o nome do Pe. Antônio Thomaz Teixeira Galvão, foi nomeado pela diocese para acumular a função de administrador interino da Paróquia de São José, em Granja.

“Durante o impedimento do vigário Antônio Thomaz Teixeira Galvão, administraram interinamente a paróquia… 3º) Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes, natural de Quixeramobim, [vila de Boa Viagem], que administrou-a no caráter de pró-pároco, desde 10 de maio de 1892 até o dia 27 de outubro de 1895, pois já se achar impossibilitado pela idade e enfermidades o vigário colado Pe. Teixeira Galvão; 4º) Pe. Leandro Teixeira Pequeno, no caráter de pro-pároco, que chegou três dias depois de ter deixado a administração o Pe. Costa Mendes, e regeu-a até o dia 5 de maio de 1897, dia em que faleceu o Rev. Teixeira Galvão.” (S.N.T)

Permaneceu com essas responsabilidades até o dia 22 de outubro de 1895, quando foi designado pároco da Igreja Matriz de São Pedro, no Município de Ibiapina, que está localizado na região Noroeste do Estado do Ceará.

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Imagem do Pe. Francisco Ignácio da Costa Mendes.

Ao sair da freguesia de Camocim, por coincidência, deixou os seus trabalhos nas mãos do Pe. Leandro Teixeira Pequeno, de quem os recebeu. Já na freguesia de Ibiapina, deu continuidade aos trabalhos deixados pelo Pe. José Alves de Carvalho.
Nessa mesma época, por provisão do dia 22 de outubro de 1895, assumiu também a responsabilidade de prestar assistência pastoral ao Curato de Sant’Ana, na povoação de Barrocão, atual sede do Município de Tianguá.
Permaneceu com essas funções até o dia 20 de março de 1896, deixando essas atividades aos cuidados do Pe. Francisco Cândido de Vasconcelos.
Pouco tempo depois, no dia 22 de fevereiro de 1897, foi designado vigário da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, no Município de Meruoca, que está localizado na região Noroeste do Estado do Ceará, distante 248 quilômetros da cidade de Fortaleza.
Na freguesia de Meruoca, depois de pouco tempo à frente dessa paróquia, repentinamente desfaleceu de suas forças e finalmente veio a óbito no dia 10 de junho de 1900, com apenas 58 anos de idade, provavelmente vítima da mesma doença que o afligiu desde o início do seu sacerdócio.

BIBLIOGRAFIA:

  1. LIRA, João Mendes. Subsídios para a História Eclesiástica e Política do Ceará. Fortaleza: Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1984.
  2. BARROSO, Francisco de Andrade. Igrejas do Ceará. Crônicas Histórico-Descritivas. 3º v. Fortaleza: PREMIUS, 2005.
  3. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  4. SILVEIRA, Aureliano Diamantino. Ungidos do Senhor na Evangelização do Ceará (1700-2004). 1º Vol. Fortaleza: PREMIUS, 2004.
  5. STUDART, Guilherme. ANTONIO CUNHA MENDES In: Dicionário Bibliográfico Cearense. 1º v. Edição Fac-simile. Fortaleza: SECULT, 2012, p. 72.
  6. STUDART, Guilherme. JOÃO DE ARAÚJO DA COSTA MENDES In: Dicionário Bibliográfico Cearense. 1º v. Edição Fac-simile. Fortaleza: SECULT, 2012, p. 450 – 451.

HOMENAGEM PÓSTUMA:

  1. Em sua memória, na gestão do Prefeito Dr. Fernando Antônio Vieira Assef, através da lei nº 818, de 12 de dezembro de 2002, uma das ruas do Bairro Alto da Queiroz, na cidade de Boa Viagem, recebeu a sua nomenclatura.

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