Manoel Bernardino de Santana

Rev.-Manoel-Bernardino-de-Santana-IIManoel Bernardino de Santana nasceu no dia 24 de março de 1914 no Município de Machados, que nessa época pertencia ao Município de Bom Jardim, distante 105 quilômetros da cidade do Recife, capital pernambucana, sendo filho de Bernardino José de Santana e de Maria Francisca da Conceição.
Na época de seu nascimento a divisão política e geográfica dos Municípios pernambucanos não era a que conhecemos hoje.
Em um passado bem recente, graças ao desenvolvimento urbano e econômico dessa região, novas unidades territoriais foram criadas e novos nomes foram surgindo:

“Na época de sua criação o Município de Bom Jardim tinha cerca de 2.268 quilômetros quadrados, incluindo os povoados de Queimadas (Orobó), Surubim e Boa Vista (João Alfredo). Com o crescimento desses Distritos, a lei estadual 1.931, de 11 de setembro de 1928, criou os Municípios de Orobó e Surubim. Mas tarde cedeu terras para a criação doa Municípios de Macaparana e São Vicente Férrer. Também em 1963 perdeu o Distrito de Machados, feito Município.” (S.N.T)

Nascido em um lar profundamente piedoso e cheio de superstições, logo que veio ao mundo, os seus pais, seguindo às tradições da confissão católica e temendo por sua vida, iniciaram-lhe na vida cristã de sua comunidade religiosa através do sacramento do batismo.
Em uma época em que os números da mortalidade infantil eram alarmantes, por conta da seca e das doenças ocasionadas por ela, a mente do sertanejo estava psicologicamente ligada aos ritos executados pela igreja romana e o pedobatismo se constituía em uma forma de alívio da consciência dos pais, que temiam a morte e o futuro destino das almas de seus filhos.
O seu avô paterno, que se chamava Bernardo Jacó, provavelmente um apelido ligado ao nome de um outro ancestral, era agricultor e ao que nos parece não teve muita influência sobre a sua vida, provavelmente por ter falecido antes do seu nascimento ou por ter ficado no interior do Estado convivendo com os rigores da longa estiagem, sem ter a possibilidade financeira de transitar pela capital no intuito de ter uma convivência familiar mais constante com o seu neto.
Quanto aos nomes da sua avó paterna e dos seus avós maternos para nós isso ainda é um mistério, nos fazendo supor que eles também tenham falecido bem antes do seu nascimento, tendo em vista que a morte por problemas no parto também era algo corriqueiro.
Pouco sabemos sobre os primeiros anos de sua infância, mas ainda bem jovem, por conta da seca de 1915, os seus pais decidiram migrar para à cidade do Recife no intuito de conseguir sobreviver com dignidade fugindo desse terrível desastre da natureza.
Nessa época, além das brincadeiras de criança, tinha a grande responsabilidade de alimentar um cavalo, algo que serviu desde cedo para dominar o seu gênio e gerar-lhe um senso de responsabilidade.
Outra função conferida pelos seus pais aos seus ombros foi o dever de paulatinamente cuidar de seus irmãos, que aos poucos chegaram ao número de dez.
Dentre esses cuidados estava o de ensinar a ler e escrever, habilidade aprendida com professores particulares graças ao regrado financiamento de seu pai, que para sobreviver com a sua família passou a ser marchante.
Contemporâneos afirmam que era canhoto e que a sua professora, desde cedo, o forçou a escrever com a mão direita, resultando que com o passar do tempo tornou-lhe ambidestro e dono de uma invejável caligrafia.
Algum tempo depois disso, nos primeiros anos da década de 1920, para entendermos melhor o contexto da sua época, o Estado de São Paulo passava por um acelerado processo de industrialização graças aos lucros gerados por conta da lavoura de café e das articulações da política do café-com-leite com o Estado das Minas Gerais.
No final dessa década, depois de alguns desajustes políticos, juntamente com a Grande Depressão e o movimento tenentista, o pacto entre esses dois Estados parecia não mais vigorar e o país fervia com a possibilidade de uma revolução armada.
Nesse tempo, mesmo com essas notícias sendo constantemente transmitidas nos jornais e emissoras de rádio, não se acovardou fugindo de cumprir o seu dever cívico, algo comum na época:

“No Brasil o serviço militar, com duração de 12 meses, é obrigatório para os cidadãos do sexo masculino que completem 18 anos de idade. Porém, a grande maioria dos alistados é dispensada por excesso de contingência. Ele foi tornado obrigatório através de lei, em janeiro de 1906, durante o governo de Afonso Pena, quando o Marechal Hermes da Fonseca era ministro da guerra. Porém, só foi efetivamente implementado com a entrada do Brasil na I Guerra Mundial.” (S.N.T)

Em 1931, aos 18 anos de idade, no meio dessa crise política de dimensão bélica, sentou praça e rapidamente recebeu instrução militar básica na 7ª Região Militar do Exército brasileiro, região que atualmente é denominada de Matias de Albuquerque.
Poucos meses depois de conscrito, em 9 de julho de 1932, estourou a temida revolução e sob o comando do General de Brigada João Ferreira Johnson recebeu ordens de ficar em prontidão aguardando permissão para seguir para o teatro de guerra na região Sudeste do país:

“A Revolução Constitucionalista de 1932, Revolução de 1932 ou Guerra Paulista, foi o movimento armado ocorrido no Estado de São Paulo entre os meses de julho e outubro de 1932, que tinha por objetivo a derrubada do Governo Provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova Constituição para o Brasil.” (CALMON, 1936: p. 37)

Depois de alguns dias, confirmada autorização do embarque das tropas, seguiu com os seus companheiros de navio para o Estado de São Paulo, onde desembarcou no Porto de Santos:

“Ocorreram ainda batalhas sangrentas na tentativa de forçar a entrada de recursos para São Paulo, já que o Porto de Santos estava sob bloqueio naval governista. O Porto de Santos só fora tomado pelos getulistas no dia 12 de setembro de 1932, mais de dois meses depois do início da luta.” (S.N.T)

Com o fim da Revolução Constitucionalista, encerrado no dia 2 de outubro de 1932, e devido ao seu destacado desempenho no campo de batalha, pouco tempo depois recebeu promoção para o posto de cabo das mãos do General Manoel Rabêlo Mendes, permanecendo engajado na caserna até o ano de 1936.

Soldados pernambucanos da Revolução Constitucionalista de 1932.

Imagem do Soldado Bernardino, primeiro à esquerda na penúltima fila, no contingente pernambucano da Revolução Constitucionalista de 1932.

Logo após a sua dispensa do quartel passou a desenvolver as atividades aprendidas na infância com o seu pai, decidiu comprar e a abater animais, virou marchante em um dos movimentados mercados da cidade.
Pouco tempo depois, em suas caminhadas pela cidade do Recife, teve contato com alguém de confissão protestante e a partir desse diálogo o rumo de sua vida tomou uma nova e inesperada direção.
Conheceu e se afeiçoou à confissão protestante fazendo, pouco tempo depois, a sua profissão de fé e recebendo o batismo pelas mãos do Rev. William Bannister Forsyth no templo da Igreja Evangélica Pernambucana, que está localizada na Rua do Príncipe, nº 328, esquina com a Rua Bispo Cardoso Ayres, no Bairro da Boa Vista.
O que em nossos dias parece algo simples naquela época não era nada fácil de fazer, carecia de uma apurada reflexão, tomar esse tipo de decisão muitas vezes significava ter de enfrentar uma constante zombaria pelas ruas e o insuflado preconceito de uma sociedade religiosamente arbitrária que dava ao catolicismo o monopólio religioso de nosso país:

“Os inimigos iniciaram uma grande e violenta perseguição contra os evangélicos, assassinando-os e mandando trucidar, incendiando e mandando destruir as casas de cultos com apedrejamentos e vilipêndios capitaneados, via de regra, por chefes políticos, descumprindo as principais leis: A Constituição e o Código Civil Brasileiro.” (SOUSA E SILVA, 2012: p. 32-33)

Para alguns, romper com o catolicismo significava quebrar as amarras com o passado, destruir uma tradição milenar que estava ligada ao sangue, quem tomava essa corajosa decisão, tida por muitos como insana, corria até o enorme risco de ter o seu nome afastado do convívio de sua família.
Nessa mesma época, caminhando pelas ruas do Bairro do Espinheiro, avistou em uma de suas janelas a jovem Nair Viana, que era nascida no dia 7 de junho de 1918, sendo filha de Severino Viana com Maria da Conceição, com quem logo procurou um meio de flertar.
Descobriu que o seu futuro sogro era um dos estivadores no porto da cidade e nos momento de folga era um dos companheiros de farra e de folia do famoso “Nascimento Grande”, que também era estivador e ainda hoje é considerado como o mais temido capoeirista que o Estado de Pernambuco já conheceu:

“José Antonio do Nascimento, mais conhecido como ‘Nascimento Grande’, foi um dos valentões mais terríveis de Recife no fim do século XIX. Era alto, forte, usava um chapéu e tinha uma bengala que pesava quinze quilos. Uma ‘bengalada’ e Nascimento Grande mandava o sujeito dormir mais cedo.” (S.N.T)

Logo após conhecer a sua futura consorte, teve também o prazer de descobrir que ela era membro da Igreja Batista da Iputinga, que está localizada na Avenida Professor Joaquim Cavalcanti, nº 616, no Bairro de Caxangá, um feliz presságio para as suas intenções românticas e um ombro familiar de apoio para sua recente decisão religiosa.
Por fim, no dia 31 de janeiro de 1939, no templo da Igreja Evangélica Pernambucana, em uma cerimônia que foi celebrada pelo Rev. Forsyth, contraiu matrimônio com a sua amada, que passou a adotar o nome de Nair Viana de Santana.

Templo da Igreja Evangélica Pernambucana.

Imagem da Igreja Evangélica Pernambucana, em 2010.

De sua união matrimonial foram gerados vinte filhos, dessas gestações quatro foram de gêmeos mas, lamentavelmente, apenas cinco conseguiram chegar à vida adulta, sendo eles: Isac Viana de Santana, Jessé Viana de Santana, Jonas Viana de Santana, Azenete Viana de Santana e Manoel Bernardino de Santana Filho.
Poucos dias depois da celebração de seu casamento, despertada à vocação ao exercício do ministério pastoral, ainda em 1939, passou a cursar Teologia, por recomendação da Igreja Evangélica Pernambucana, no Seminário Presbiteriano do Norte, que está localizado na Rua Demócrito de Souza Filho, nº 208, no Bairro da Madalena:

“O Seminário Presbiteriano do Norte é uma instituição educacional da Igreja Presbiteriana do Brasil comprometida com a Teologia Reformada que foi fundado em 1899 com a finalidade de preparar pessoas para o Sagrado Ministério. O seu início foi em Garanhuns com o Dr. George W. Butler, Rev. Martinho de Oliveira e o Rev. George Henderlite, dando aulas para os primeiros alunos, que vieram a ser também os primeiros ministros formados no Nordeste do Brasil. Em 1921 o Seminário veio para o Recife e funcionava em uma casa alugada na Rua Imperial e algum tempo depois foi transferido para Avenida Ruy Barbosa. Em 1924 foi oficializado pela Assembleia Magna da Igreja Presbiteriana que foi presidida pelo Rev. Erasmo Braga e foi denominado de Seminário Evangélico do Norte. Nessa mesma assembleia, com a ajuda financeira da junta de Nashville, foi aprovada a compra de uma chácara no Bairro da Madalena, onde está até os dias de hoje.” (S.N.T)

Nessa mesma época passou também a servir como evangelista, percorrendo Machados e São José do Siriji, Distritos pertencentes ao Município de Bom Jardim, como também Pirauá, um Distrito do Município de Macaparana, todos localizados na região Norte do Estado de Pernambuco:

“A Igreja Pernambucana pregava o Evangelho numa vasta área interiorana da mata norte, principalmente nos Municípios de Limoeiro, Orobó, Bom Jardim, Timbaúba, Nazaré da Mata, bem como na Fazenda Balanço, hoje Distrito de Itatuba, no Estado da Paraíba.” (SOUSA E SILVA, 2012: p. 43)

Algum tempo depois, permanecendo como evangelista, assumiu os trabalhos evangelísticos em Chã da Cruz, um Distrito do Município de Paudalho, que está distante 37 quilômetros da cidade do Recife.
Ainda nessa época, enfrentando grande dificuldade para conciliar as aulas do curso de Teologia e as responsabilidades no sustento da família, só conseguiu concluir a sua graduação em 1950.

Família Viana de Santana.

Imagem da Família Viana de Santana.

Sobrevivendo com a sua família de forma espartana, a sua manutenção financeira era irregularmente feita pela missão, que nem sempre cumpria as datas de pagamento de seu pequeno soldo.
Alguns de seus contemporâneos nos relataram que foi um homem de fé e vida piedosa, juntamente com a sua família passou por inúmeras provações e de joelhos, habitualmente, entregava esses problemas ao Senhor.
Eles ainda nos afirmaram outra característica marcante de sua personalidade, algo incomum para nossa época, ao passar por uma provação não costumava murmurar em desespero.
Dessas experiências, certo dia, sem ter o que comer com os seus filhos, rogou a Deus por misericórdia para que o Senhor enviasse o sustento da missão para que ele pudesse fazer a feira e como de costume saiu no seu burro para cumprir o seu roteiro de evangelização.
Pouco tempo depois de sua saída, de forma inesperada, um senhor bateu a sua porta com um enorme balaio na cabeça e deixou para sua família uma abundante feira, que fez a sua esposa crer que ele havia recebido o pagamento da missão.
No finalzinho da tarde, horário em que costumava retornar das atividades de evangelismo, foi interpelado pela sua esposa se havia recebido o pagamento da missão e ao mesmo tempo foi comunicado da informação da feira que haviam recebido.
Admirado pelo ocorrido compartilhou com a sua companheira que não havia recebido o seu pagamento e de forma nenhuma tinha como mandar uma feira daquelas para casa, chegando a conclusão de que a feira era uma resposta da oração que havia sido feita logo pela manhã com a sua esposa.
Outro milagre acontecido em sua vida e que lhe garantiu mais anos de existência foi o livramento de uma emboscada ardilosamente tramada pelo Frei Damião de Bozzano, que às escondidas mandou alguns de seus asseclas esperar-lhe no caminho para casa no intuito de dar-lhe uma boa surra.

“Frei Damião de Bozzano foi um frade italiano radicado no Brasil que durante anos residiu no Nordeste. Ele é o autor de um manual de conduta, conhecido como os ‘Dez mandamentos de Frei Damião’, que determinava como os católicos deveriam lidar com os protestantes. Evangélicos do Nordeste acusam-no de discriminar e incentivar perseguições a religiosos de outras denominações cristãs.” (S.N.T)

O inocente missionário, que vinha montado em seu burro, estava cansado pela fatigante viagem e nem imaginava o que lhe aguardava em um caminho mais à frente. Costumeiramente ele dormia em sua montaria, que carinhosamente era conhecido por todos como “evangelista’, pois confiava que o burro sabia do caminho e lhe conduziria ao destino certo.
Por intervenção divina nesse dia o burrinho resolveu mudar de caminho e os salteadores tiveram o seu plano frustrado, algo que foi revelado dias mais tarde por aqueles que estavam envolvidos na diabólica trama.
Em 1952, depois de algum tempo como licenciado, foi ordenado ao ministério pastoral em uma Convenção de Igrejas Congregacionais do Nordeste acontecida na Igreja Evangélica Congregacional de Vitória de Santo Antão, que está localizada na Rua Conselheiro Severino Francisco Alves, nº 10, no Bairro Livramento.

Igreja Evangélica Congregacional de Vitória de Santo Antão.

Imagem da Igreja Evangélica Congregacional de Vitória de Santo Antão.

Logo após a sua ordenação eclesiástica saiu da Igreja Evangélica Congregacional de Pirauá e assumiu a sua primeira experiência pastoral, por um breve período de tempo, na Igreja Evangélica Congregacional de São José do Siriji, comunidade em que já havia prestado valiosos serviços:

“Em 11 de julho de 1946, foi residir ali o evangelista, posteriormente consagrado ao ministério, Manoel Bernardino de Santana, obreiro da Igreja Evangélica Congregacional de Siriji, com a finalidade de iniciar em Machados uma congregação.” (SANTANA FILHO & FERREIRA, 2016: p. 286)

Nessa época, segundo alguns de seus contemporâneos, recebeu forte influência da literatura produzida pelos batistas, principalmente dos textos produzidos pela missionária norte-americana Rosalee Mills Appleby:

“Rosalee Mills Appleby veio para o Brasil em 1924 como missionária, tendo aqui permanecido por 36 anos… O seu ministério foi concentrado em Minas Gerais, principalmente em Belo Horizonte… Tornou-se a pioneira no Brasil na divulgação e implantação das doutrinas relativas ao batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais como realidade para os nossos dias, de forma mais incisiva no seio das igrejas batistas históricas ou conservadoras… nos brindou com inúmeras obras de sua pena, entre as mais conhecidas estão ‘Vida Vitoriosa’, ‘Ouro Incenso e Mirra’ e ‘Florilégio Cristão’.” (PIRES DE SOUZA, 2013)

Algum tempo depois, em uma nova Convenção das Igrejas Congregacionais do Nordeste, acontecida entre os dias 12 e 17 de janeiro de 1954, no templo da Igreja Evangélica Congregacional de Caruaru, recebeu nova designação pastoral, dessa vez para assumir os trabalhos da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira, que nessa época era pastoreada interinamente pelo Rev. Antônio Francisco Neto:

“Na década de 1940 foi trabalhar com a igreja o Evangelista Manoel Bernardino de Santana. Este irmão concluiu o curso teológico no ano de 1950 pelo Seminário Teológico Congregacional do Recife. Sendo ordenado ao ministério continuou trabalhando em Pirauá até o início de 1954, quando assumiu o campo de Cachoeira, no Município de Boa Viagem, no Estado do Ceará.” (SANTANA FILHO & FERREIRA, 2016: p. 377)

Sobre esse assunto, assim nos diz o teor dessa assembleia, que está registrada na página 61 do livro de atas dessa igreja:

“Ata da sessão especial da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira acontecida no dia 17 de fevereiro de 1954, as dezesseis horas e trinta minutos. Estiveram presentes trinta membros, inclusive os oficiais das congregações de Boa Viagem e de Lembranças. A sessão foi presidida pelo Rev. Antônio Francisco Neto, pastor interino dessa igreja. A reunião teve início com uma oração feita pelo Diac. José Santos Filho, a leitura do Salmo 46 e uma breve exposição do senhor presidente. Em seguida foi lida uma carta da Junta Regional do Nordeste endereçada a essa igreja comunicando a indicação do Rev. Manoel Bernardino de Santana como pastor local dessa igreja… Passado o momento para votação foi eleito o Rev. Manoel Bernardino por unanimidade de votos… a igreja resolveu-lhe pagar mensalmente a quantia de CR$ 2.000,00… ficou resolvido ainda que a igreja providenciasse uma casa para acomodar a família do pastor, mas que o pagamento do aluguel fosse descontado de seu ordenado… os transportes de suas viagens para os pontos de pregação deveriam ser custeados pela igreja… quanto as despesas de viagem de Pernambuco para o Ceará a igreja resolveu mandar CR$ 2.000,00 e que a igreja iniciaria os pagamentos de seu salário a partir do dia 1º de março de 1954…”

O templo da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira está localizada na zona rural do Município de Boa Viagem, no Sertão Central do Estado do Ceará, distante 217 quilômetros da cidade de Fortaleza, e nessa época o acesso a sua sede não era dos mais fáceis.

Templo da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira.

Imagem da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira.

Ao receber as informações da aprovação do seu nome em assembleia, assim que pôde, partiu sozinho para conhecer o novo campo e preparar um local adequado para acomodar a sua família.
Nessa época o itinerário entre a cidade do Recife e a cidade de Boa Viagem era feito da seguinte forma: o sujeito teria de sair do Recife de jardineira, misto ou marinete até a cidade de Patos, no Estado da Paraíba, lembrando que nessas viagens, sem nenhum tipo de fiscalização, as pessoas sempre gostavam de levar alguns animais como bagagem.
Na estação da cidade de Patos, quando o horário entre às conduções permitia, tomava um novo trem e seguia até a cidade do Cedro, já no Estado do Ceará, daí, já na estação ferroviária, embarcava em outro trem para cidade do Quixeramobim:

“O misto, palavra utilizada para classificar o heterogêneo, misturado, aglomerado, etc. O misto, que é o tema focado, era um veículo adaptado como transporte terrestre que perdurou com sucesso até o final dos anos 70, já à marinete era o apelido carinhos da antiga rural que costumava fazer horário pelo interior de Pernambuco.” (S.N.T)

Chegando ao Quixeramobim, quando o dia e o horário permitia, tomava condução em um outro veículo, geralmente um misto, que o levaria até o seu destino, a cidade de Boa Viagem.

Caminhão denominado de misto.

Imagem de um caminhão, que também era denominado de misto.

Vale lembrar que no percurso de alguns desses trechos, principalmente nos carroçáveis, a viagens e alguns desses veículos não ofereciam nenhum tipo de conforto para os seus passageiros e que os horários tinham de “bater”, qualquer tipo de atraso significaria a perca da condução seguinte e o fato desagradável de passar horas esperando um novo transporte.
Outro fator de impedimento e transtorno a ser superado era o risco de não encontrar bilhete de passagem, quando isso acontecia, quem tinha dinheiro poderia alugar um pequeno quarto e esperar a sua condução, quem não tinha era obrigado a suportar às horas de espera em algum banco da estação.
Nesse percurso entre a cidade do Recife e a cidade de Boa Viagem o viajante percorria cerca de 850 quilômetros e a viagem durava em média três dias.
Na cidade do Quixeramobim, quando não havia o misto, muitas vezes o veículo não tinha como atravessar o leito dos rios, o viajante que era conhecedor de alguém da cidade poderia dar-se ao luxo de alugar ou tomar por empréstimo uma montaria para seguir viagem, quem não tinha esse privilégio o jeito era enfrentar os 80 quilômetros a pé por estradas desconhecidas e muitas vezes desabitadas.
Segundo às memórias do Rev. Ezequiel Fragoso Vieira, que na época era seminarista e foi quem lhe apresentou o campo de Boa Viagem, o Rev. Manoel Bernardino de Santana realizou esse percurso de viagem a primeira vez sozinho e em seguida, depois de conhecer as congregações da igreja, alugou uma casa para acomodar a sua família e imediatamente voltou ao Recife no intuito de buscar aquilo que lhe era mais precioso.
Confrontando essa preciosa informação com o livro de atas da igreja podemos deduzir que o Rev. Manoel Bernardino saiu do Recife nos últimos dias de março de 1954, conheceu o campo, presidiu a primeira assembleia de membros no dia 2 de maio e poucos dias depois partiu para o Recife para buscar a sua família, voltando ao exercício de seu pastorado entre o fim de junho e os primeiros dias de julho, quando presidiu a segunda assembleia de seu pastorado no dia 4 de julho.
Sobre essa segunda viagem o Rev. Manoel Bernardino de Santana Filho nos relatou que o seu pai, quando vinha do Recife, ao chegar na estação de Quixeramobim com a esposa, um filho de colo e alguma bagagem, logo deparou-se com um grande desafio, não encontrou condução para vir para Boa Viagem e o jeito que teve foi enfrentar os 80 quilômetros de distância entre as duas cidades a pé.
Nesse longo trajeto, logo que anoiteceu e ao encontrar uma casa que havia na beira da estrada, pediu abrigo ao seu morador que, desconfiado ou por ter muitos filhos e pouco espaço dentro da casa, indicou-lhe o alpendre para passar a noite com a sua família e alertou-lhe da existência de onças rodeando a casa.
Essa noite foi terrível, além do cansaço de enfrentar a viagem a pé, carregando nos ombros a bagagem, teve de passar a noite em campana para que nenhum animal surpreendesse a sua pequena e preciosa família:

“A viagem entre a cidade de Boa Viagem e a cidade de Quixeramobim era feita em dois dias.” (CARVALHO, 2008: p. 52)

Logo que chegou ao seu novo domicílio pastoral se estabeleceu com a sua família em uma casa que ainda hoje guarda traços dessa época e está localizada na Rua Antônio Domingues Álvares, nº 285, no Centro da cidade de Boa Viagem.

Residência onde morou o Rev. Manoel Bernardino de Santana em Boa Viagem.

Imagem da residência onde morou o Rev. Manoel Bernardino de Santana na cidade de Boa Viagem.

Finalmente estabelecido iniciou um bom trabalho nessa comunidade, regularmente realizava os atos pastorais na igreja, que ficava a 18 quilômetros distante da cidade de Boa Viagem, diariamente tinha ao seu dispor uma montaria, que era alugada no intuito de percorrer os vários quilômetros pela caatinga visitando os crentes e realizando as atividades de evangelismo.
Durante o seu curto pastorado nessa igreja conseguiu presidir apenas cinco assembleias de membros e delas podemos deduzir quais os seus principais problemas.
O primeiro problema constatado estava relacionado a um casamento sem a permissão dos pais, na qual os jovens resolveram fugir para consumar o seu amor. O nome desse casal, como também a situação, foram expostos na assembleia e em seguida, por unanimidade, foram disciplinados.
O segundo problema estava ligado a ordem doutrinaria, alguns dos membros dessa igreja, que frequentavam uma de suas congregações, resolveram se rebatizar por imersão na Igreja Batista Regular de Madeira Cortada, fato que gerou certo escândalo e por fim novas disciplinas.
O curioso é que essa igreja era uma congregação da Igreja Evangélica Congregacional de Cachoeira e que pouco tempo antes havia passado para o domínio administrativo da Igreja Batista Regular.
Nesse mesmo período, por conta do êxodo rural, havia também o fluxo de membros entre a igreja de Cachoeira e as igrejas das capitais nordestinas, principalmente do Recife e de João Pessoa.
Na mesma época, sem conhecer o verão do Sertão Central, começou a sentir dificuldades com o clima de nossa região e ainda graves problemas de saúde por conta da água até que, no dia 5 de novembro, comunicou em assembleia que não tinha mais como continuar no pastorado de Cachoeira:

“Quanto ao Rev. Manoel Bernadino de Santana, ele resolveu deixar o trabalho neste campo pelo motivo de não suportar o clima do Sertão e deixará de receber o salário de novembro, mas ficará sendo o pastor da igreja até a próxima Convenção de Igrejas.”

Regressando ao Estado de Pernambuco, entre os dias 11 e 16 de janeiro de 1955, esteve presente na Convenção de Igreja Congregacionais do Nordeste, que aconteceu no templo da Igreja Evangélica Congregacional de Pirauá, que lhe recebeu como pastor e ali permaneceu até o fim de 1957.

Imagem do Rev. Souto Maior em uma Convenção Regional das Igreja Congregacionais do Nordeste.

Imagem do Rev. Manoel Bernardino, primeiro à esquerda, em uma Convenção Regional das Igrejas Congregacionais do Nordeste.

Na obra O Pendão Real, que possui um relevante esboço da história da Igreja Evangélica de Monte Alegre, está registrado a lista dos pastores que já assumiram a direção desse trabalho:

“Dentre os pastores que auxiliaram o trabalho da Igreja Evangélica Congregacional de Pirauá, os seguintes obreiros: Rev. Alexander Telford, Rev. Dr. Francisco Antônio de Sousa, Rev. James H. Haldane, Rev. Arthur Pereira Barros, Rev. Manoel Bernardino de Santana, Rev. Antônio Sales da Silva, Rev. Nilson Ferreira Braga, Rev. Leônidas Pereira da Silva, Rev. Hospírio Alves de Sousa, Rev. Paulo Moody Davidson.” (SOUSA E SILVA, 2012: p. 158)

Pouco tempo depois, quando entregou o pastorado da Igreja Evangélica Congregacional de Pirauá para assumir o pastorado da Igreja Evangélica Congregacional de Cupira, assumiu também o pastorado da Igreja Evangélica Congregacional de Maceió, que está localizada na Avenida Siqueira Campos, nº 739, Bairro do Prado, na cidade de Maceió, onde permaneceu até 1959:

“Vários foram os obreiros que cooperaram com a Igreja Evangélica Congregacional de Maceió ao longo de sua história, dentre eles podemos destacar os pastores: Manoel Bernardino de Santana, Euclides Duarte dos Santos, Diocênio Elias Neto, Jaílson Amorim Pereira e outros.” (SANTANA FILHO & FERREIRA, 2016: p. 286)

Antes disso passou a residir na cidade de Cupira, distante 167 quilômetros da cidade do Recife, onde assumiu o pastorado da Igreja Evangélica Congregacional de Cupira, que está localizada na Rua Desembargador Felismino Guedes, nº 7, Centro:

“Aos 8 anos de idade converti-me ao Evangelho reformado na Igreja Evangélica Congregacional de Cupira, minha cidade natal. Essa conversão foi a terceira de nossa família, sucedendo à de papai e à de mamãe. Tudo isso foi resultado do ministério evangelístico e domiciliar do Rev. Manoel Bernardino de Santana, hoje de saudosa memória, que após um curto período de discipulado mandou-nos congregar na referida igreja, da qual ele era pastor jubilado ou licenciado, não me lembro ao certo.” (AMAZONAS, 2009)

Por volta de 1964, sem campo disponível ao pastorado e satisfeito com as condições de vida do Município de Cupira, resolveu tornar-se comerciante explorando uma mercearia e também uma granja.

Igreja Evangélica Congregacional de Cupira.

Imagem da Igreja Evangélica Congregacional de Cupira.

Segundo algumas informações, que foram fornecidas pelo Rev. Maurício Manoel Amazonas dos Santos, era comum ver-lhe pelas ruas da cidade de Cupira conversando com os muitos amigos, quase sempre evangelizando.
Quando a sua esposa pedia-lhe para fazer qualquer compra no Centro da cidade, geralmente alimentos, um dos filhos tinha de buscar essa encomenda, pois quase sempre o pedido não chegava a tempo para preparar a refeição.
Nessas atividades de evangelismo sempre costumava juntar um pequeno público na casa do Sr. Manoel João da Silva, pai do Rev. Maurício Amazonas.
Quando se reuniam previamente era adaptado um púlpito em cima de uma pequena máquina de costura e as pessoas se acomodavam sobre alguns bancos dos automóveis que estavam sendo reparados na oficina de seu anfitrião.
Nessa mesma época, rotineiramente, visitava às igrejas congregacionais existentes na região como preletor e, curiosamente, embora acreditasse na contemporaneidade dos dons, não se envolveu na crise doutrinária e política que acontecia dentro dos quadros da UIECB, a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil:

“O nascimento da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil, a AIECB, se deu nos últimos anos da década de 1960, nesse período, em várias denominações históricas brasileiras, o movimento de Renovação Espiritual causou várias divisões políticas. A União de Igrejas Congregacionais não aceitava a contemporaneidade dos dons espirituais de forma plena e doutrinariamente opunha-se a experiência chamada de ‘Batismo com Espírito Santo’, Plenitude ou Enchimento do Espírito, como decorrência daquele desacordo doutrinário sete pastores foram expulsos da União de Igrejas Congregacionais: Rev. Jonatas Catão, Rev. Isaías Correia, Rev. Raul de Souza, Rev. José Severino de Araújo, Rev. José Quaresma de Araújo, Rev. Roberto de Souza e o Rev. Moisés Francisco, juntou-se a eles também o jovem Osmar de Lima Carneiro que na época era Presidente da Federação de Mocidades do Nordeste, ainda o Rev. Geraldo Batista pediu desligamento do quadro de ministros da UIECB, e a Missionária Lídia Almeida, fundadora do Instituto Betel Brasileiro.” (S.N.T)

Nessa mesma época, fora do pastorado, ingressou na vida pública apoiando as propostas de gestão de um dos candidatos a prefeito do Município, o Sr. Manoel Joaquim da Silva, que era popularmente conhecido como Manoel Totô, que o convidou para assumir a pasta responsável pela educação daquele Município, permanecendo nessa função entre os dias 31 de janeiro de 1969 e 31 de janeiro de 1973.

Rev. Manoel Bernardino ao lado de autoridades políticas.

Imagem do Rev. Manoel Bernardino de Santana, na época secretário da educação do Município de Cupira.

Nessa época, sem muitos recursos investidos na educação, sentiu grande dificuldade em gerir essa pasta, mas conseguiu despertar o Município a dar um pequeno impulso contra o analfabetismo.
Concluída essa gestão, por volta de 1975, assumiu durante dez anos o pastorado de uma pequena congregação existente em São Lázaro, uma vila existente a dez quilômetros da cidade de Panelas.
No dia 23 de abril de 1989, diabético e sofrendo com problemas cardíacos, contando 75 anos de idade, faleceu na cidade de Cupira.
Logo após o seu falecimento, depois das despedidas fúnebres que são de costume, o seu corpo foi sepultado em um mausoléu da família que existe no Cemitério São João Batista, na cidade de Cupira, no Estado de Pernambuco.

BIBLIOGRAFIA:

  1. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  2. SANTANA FILHO, Manoel Bernardino de. Viagem ao Nordeste. O CRISTÃO. Rio de Janeiro, 1996. p. 12.
  3. SILVA JÚNIOR, Eliel Rafael da. Andarilhos do Sertão. A Chegada e a Instalação do Protestantismo em Boa Viagem. Fortaleza: PREMIUS, 2015.

HOMENAGEM PÓSTUMA:

  1. Em sua memória, na gestão do Prefeito Dr. Fernando Antônio Vieira Assef, através da lei nº 1.234, de 17 de abril de 2015, uma das ruas do Bairro Recreio, na cidade de Boa Viagem, recebeu a sua nomenclatura.