Pe. Inácio Américo Bezerra

Inácio Américo Bezerra nasceu no dia 12 de outubro de 1905 na zona rural do Município de Independência, que está localizado no Sertão do Estado do Ceará, distante 310 quilômetros da cidade de Fortaleza, sendo filho de Américo Alves da Costa Filho e de Ana Lins Santiago.
Logo que nasceu os seus pais tiveram uma grande alegria por ser o segundo filho homem, tendo em vista que ao primeiro já tinha o destino programado, o privilégio de administrar os bens da família, pois desde cedo já se pensava em ter um sacerdote entre os seus descendentes, como era hábito na época.
Sobre os primeiros anos de sua infância, poucas informações chegaram ao nosso conhecimento para que possamos construir um retrato fidedigno de sua época e do despertamento de sua vocação ao sacerdócio.
No dia 8 de outubro de 1906, prestes a completar um ano de idade, recebeu o sacramento do batismo das mãos do Mons. Joviniano da Costa Barreto, vigário da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Santana, tendo como padrinhos o casal Manuel Alexandre de Oliveira e Maria de Nazaré Oliveira.

“Descendente de família bem conceituada na fé e na retidão de princípios, Padre Inácio nasceu em pleno Sertão, na Fazenda Juazeiro, no Município de Independência, foi o quinto filho do casal Américo Alves da Costa Filho e Ana Lins Santiago, sendo o segundo do sexo masculino.” (ALMEIDA MARTINS, 1997: p. 3)

Os primeiros anos de sua infância foram vividos na Fazenda Juazeiro, propriedade de sua família, onde recebeu instrução formal através de algumas professoras contratadas, logo depois, passou a estudar em uma pequena escola na cidade de Independência.

“Criado em solo hostil, sujeito às intempéries das grandes secas, que tanto tem abalado as populações cearenses, viu-se desde pequeno no meio do drama sertanejo, na luta pela sobrevivência. Pode-se avaliar quanto tais fatos tenham concorrido para a moldagem do seu caráter e formação de sua personalidade.” (ALMEIDA MARTINS, 1997: p. 3)

No dia 4 de setembro de 1922, na igreja matriz da cidade, recebeu o sacramento da Crisma por meio do bispo diocesano, Dom José Tupinambá da Frota.
No ano seguinte, com 18 anos de idade, desejando dar continuidade aos seus estudos, deslocou-se de sua terra natal para à cidade de Fortaleza, onde concluiu o curso ginasial no Colégio Cearense Sagrado Coração, que está localizado na Avenida Duque de Caxias, s/nº, Centro.
Finda etapa dos estudos secundários e fortemente influenciado pelo desejo de sua mãe, ingressou em uma das primeiras turmas do Seminário Diocesano de São José, que está localizado na Avenida da Universidade, nº 30, no Bairro Betânia, na cidade de Sobral.
Depois disso, desejando avançar em seus estudos, foi transferido pelos seus superiores para o Seminário de Nossa Senhora da Graça, que está localizado na Rua Bispo Coutinho, s/nº, no Bairro do Carmo, na cidade de Olinda, no Estado de Pernambuco.
Algum tempo depois foi transferido para o Seminário Episcopal de Fortaleza, o Seminário da Prainha, que está localizado na Rua Tenente Benévolo, nº 201, Centro, onde finalmente concluiu os seus estudos:

“Monsenhor André Viana Camurça se refere a ele como tendo sido um seminarista muito alegre, comunicativo e amigo. Foram contemporâneos no seminário maior da Prainha até a ordenação de ambos.” (ALMEIDA MARTINS, 1997: p. 4)

No dia 21 de setembro de 1935, aos 30 anos de idade, na cidade de Sobral, em uma cerimônia que foi presidida pelo bispo diocesano, Dom José Tupinambá da Frota, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, foi ordenado ao sacerdócio.

Imagem da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, na cidade de Sobral.

Depois dessas festividades foi conduzido para sua terra natal, onde foi recebido pelos seus conterrâneos, celebrando a sua primeira missa no dia 26 de setembro na Igreja Matriz de Santana.
Logo em seguida foi designado vigário cooperador da Paróquia de São Sebastião, na cidade de Ipu, localizada na região Noroeste do Estado do Ceará, onde foi tutorado pelo experiente Mons. Gonçalo de Oliveira Lima.

“Era cooperador da paróquia de Ipu, cujo vigário, era o Reverendíssimo Senhor Monsenhor Gonçalo de Oliveira Lima, homem inteligente, piedoso e zeloso de quem recebi as melhores impressões e bons conselhos. Achava que sendo auxiliar de um santo ancião, bem experimentado na vida paroquial, estaria garantido para o meu apostolado de padre novo e de pouca prática, porém, Deus não quis mais que eu continuasse na companhia daquele venerável homem, cuja vida foi um painel de virtude e de santidade.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 171)

Nessa época a pequena cidade de Ipu vivia ares de tristeza e preocupação, que era ocasionada pela queda na produção do algodão e no lento desmonte da rede ferroviária que vinha da cidade de Sobral. O comércio, que há pouco tempo tinha conhecido o progresso e o desenvolvimento, agora tinha de enfrentar a forte crise de estagnação econômica.

Imagem da Igreja Matriz de Santana, na cidade de Independência.

Os seus dias na cidade do Ipu foram poucos pois, no dia 23 de dezembro de 1936, por decisão da Diocese de Sobral, foi nomeado vigário da Igreja Matriz de São Sebastião da Telha, até então um pequeno Distrito pertencente ao Município de Tamboril, que mais tarde passou a se chamar de Monsenhor Tabosa, onde deu início ao mais longo paroquiato da Serra das Matas.

“No dia 11 de dezembro, chegava a Monsenhor Tabosa, tendo antes uma parada na Fazenda Chupador, de propriedade do Sr. José de Sousa, onde foi muito bem recebido por uma comissão.” (ALMEIDA MARTINS, 1997: p. 4)

Nessa ocasião assumiu a paróquia que estava aos cuidados do Pe. Manuel Vitorino de Oliveira, que havia passado pouco menos de dez meses nessa árdua função.
Depois que tomou posse da Paróquia de São Sebastião procurou conhecer de perto as condições de miséria e sofrimento de seus paroquianos, experiência que valeu o seguinte relato:

“Tive logo a péssima impressão devido não só a ser pequeno como também, as casas pequenas, velhas, desalinhadas, ruas esburacadas e sujas.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 172)

A sua primeira ação frente a esse novo e grande desafio foi tentar organizar a parte burocrática da paróquia, que durante muitos anos não teve pároco residente, bem como registrar em um livro de tombo as suas impressões sobre a comunidade e os bens da Igreja:

“Dos párocos de Monsenhor Tabosa, da fundação da paróquia até o Padre Inácio, ele fora o único que fizera inventário do que encontrara freguesia. Isto é um dos demostrativos de que o Padre Inácio, ao chegar em Monsenhor Tabosa, era um padre organizado, zeloso e cuidadoso com o seu munus sacerdotal e com as suas obrigações de vigário.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 174)

Sobre o seu ministério na freguesia de Monsenhor Tabosa, segundo relatos do Pe. Geraldo Oliveira Lima, podemos afirmar que ele foi dividido em duas fases: Na primeira fase destacou-se como um líder espiritual que reacendeu a chama do povo de sua comunidade pelo amor a igreja e com isso foi rodeado de aliados, já na segunda fase o seu envolvimento com a política partidária local causou-lhe enormes prejuízos e garantiu-lhe uma legião de inimigos.

“O Pe. Inácio Américo Bezerra sempre militou na UDN, tento passado para ARENA após a revolução de 1964, quando os partidos antigos foram extintos. O seu maior adversário político foi o Sr. Honório Teixeira Melo, chefe do PSD, o qual após a revolução também ingressou na ARENA, o mesmo partido que abrigou o padre, entretanto sempre estiveram em sublegendas diferentes… O Pe. Inácio deve o seu declínio a si próprio, pois, apesar de ser um homem dinâmico e muito trabalhador… era bastante desagregador, principalmente quando havia interesse em jogo.” (MESQUITA, 2000: p. 121-122)

Em sua paróquia, logo que chegou, passou a preocupar-se com a juventude fundando, em 15 de agosto de 1937, uma congregação mariana especifica para os jovens da comunidade.

“O Monsenhor José Cândido missionou na Serra das Matas por 28 anos e nunca fizera alusão à seca e à miséria do povo. Da criação da paróquia, 1917, até 1942, tivemos as convencionais secas de 15, 19 e 32, contudo, nesse período de 25 anos, não encontramos na Paróquia nenhum registro destas secas, nem do sofrimento do povo. Padre Inácio não só alude ao fenômeno da estiagem, mas assumiu pessoalmente as agruras de seus paroquianos: reivindicando recursos e abrindo pequenas frentes de serviço. A seu modo e estilo, é verdade, o Padre Inácio viveu em prelúdio o drama social de seu povo antecipando-se, assim, à hierarquia da Igreja em geral.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 178)

Com o passar do tempo passou a perceber a constância do êxodo rural, e que a sua influência como pastor poderia ser benéfica ao povo de sua pequena paróquia, se também se envolvesse na política.

Imagem da Igreja Matriz de São Sebastião, na cidade do Ipu.

Nessa pequena localidade começou a desenvolver um difícil trabalho social e evangélico, tendo em vista o alto índice de pobreza existente nessa comunidade:

“Ao encarar a situação em que encontrou a paróquia, seu primeiro sentimento foi de desânimo, dadas as condições de pobreza da terra e a falta de assistência do poder público.” (ALMEIDA MARTINS, 1997: p. 14)

Assistia, assiduamente, as capelas de Nossa Senhora do Livramento e de Nossa Senhora da Conceição, na vila do Jacampari, Distrito pertencente ao Município de Boa Viagem, onde costumeiramente se fazia acompanhar de um harmônio e de um coro que era dirigido por Zuleide Almeida, que na época havia saído recentemente do internato das religiosas de Canindé.
Sobre as suas ações, nessa paróquia, temos uma pequena noção da diversidade de suas atividades:

“Em 13 de dezembro de 1936 fez um inventário do que encontrou, começando pela Casa Paroquial, cujo quintal – disse – estava em aberto, mas que estava modestamente provida. Um dos itens do inventário foi um cavalo estradeiro, de sete anos. Outro foi a banda de música, com 16 instrumentos, usados; havia prédios para reuniões e a matriz precisava de reparos. Depois disse que, em 1937, conseguiu pagar a imagem do padroeiro e adquiriu um harmônio; em 1938 fez a sacristia da matriz e de Vertentes. e um cemitério em Olinda.” (BARROSO, 2005: p. 145-146)

Registramos ainda que, em 1939, iniciou as obras de construção do cemitério da vila de Jacampari e benzeu a capela de Massapê dos Paés, capela que fora construída com o objetivo precípuo de contrapor o nascimento de um núcleo protestante que estava em fase de ativação naquela localidade. Sobre esse polêmico assunto ele escreveu o seguinte:

“Aos 11 dias do mês de agosto de 1946, com licença do Exmo. e Revmo. Snr. Bispo benzi a capela de Massapê, concluída no ano passado, sendo padroeiro São Vicente de Paulo. Esta capela foi feita com autorização do Exmo. e Revmo. Snr. Bispo com o objetivo principal de combater um núcleo de crentes que estava fazendo sua propaganda todos os dias e tenho a dizer que o número de adeptos está reduzidíssimo.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 181)

Nessa época a CNBB, Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, cúpula da Igreja Católica Apostólica Romana em nosso pais, através de seus vigários, faziam a população crer que havia um monopólio religioso privativo da confissão romana, acreditava-se no Sertão que o nosso país era domínio religioso exclusivo da Santa Sé.

“Época boa era aquela. Todos eram católicos. Crente apenas o Quincas Brandão e, mesmo assim, calado. Nada de igrejas, nada de cultos. Uma determinada igreja ou seita, resolveu através de um adepto, se instalar nas Vertentes, terra de seus antepassados. Neste afã, começou a construção de um templo, mas não foi longe. A ira de Deus, era assim que chamavam a reação aos não católicos, se apoderou do vigário, o qual, acompanhado de sua banda de música e de outros católicos da povoação, destruíram tudo, na base da pedra.” (MESQUITA, 2000: p. 25)

Esse monopólio ideológico não se estendia apenas aos outros credos, se estendia também à fundação de lojas maçônicas, ou a qualquer entidade ligada a ela, onde a Igreja romana tinha o seu raio de influência reduzida:

“Ainda em 1946, a Paróquia de Monsenhor Tabosa, como as demais freguesias da diocese, recebeu ofício circular combatendo a fundação de lojas maçônicas na sede da diocese e nas paróquias.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 183)

A comunidade residente do Distrito de Telha, futura Monsenhor Tabosa, tornou-se desde cedo para ele a sua querida pátria, defendia ardentemente o seu bem estar e progresso. Considerava-se um eterno inconformado com as suas conquistas, mal tinha concluído uma tarefa e já estava programando uma atividade ainda mais desafiadora no intuito de projetar a vila no cenário político do Estado do Ceará.
A busca desenfreada pelo progresso e o desenvolvimento de Telha fazia parte da maioria de suas ambições políticas, isso justificava as suas muitas ações, que eram até mal compreendidas pelo populacho.

“Padre Inácio, ao chegar em Monsenhor Tabosa, era um pároco zeloso e cuidadoso com o arquivo paroquial e cumpridor de seus deveres sacerdotais, não correspondendo à imagem negativa que lhe imputaram ao final de seu longo, profícuo e tormentoso paroquiato.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 175)

Ainda nessa época, auxiliado pela Diocese de Sobral, assumiu a responsabilidade pela construção e reforma de várias estradas vicinais que ligariam a vila para as cidades vizinhas. A mais importante delas, que dá acesso a cidade de Santa Quitéria, contou com a importante ajuda do Cel. Artur Timóteo, que nessa época residia na cidade de Fortaleza:

“Aos oito dias de fevereiro foi inaugurada a estrada carroçável desta paróquia para a de Santa Quitéria, ligando assim essa localidade a Fortaleza, capital do Estado. Esse serviço foi iniciado pelo vigário da freguesia com o auxílio de particulares aos quatro dias de novembro de mil novecentos e quarenta e concluída aos 19 de janeiro de mil novecentos e quarenta e um.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 177)

Abertamente assumiu as responsabilidades pertinentes ao Governo do Estado, reformando praças e adquirindo instrumentos musicais para a formação de uma pequena banda marcial para o Distrito.
Em 1942, ano de uma grande estiagem, realizou uma importante obra de assistência social socorrendo a população faminta do Distrito com gêneros alimentícios: feijão, farinha, carne de charque e outros alimentos, que serviram para saciar a fome daquela população faminta.

Imagem do Pe. Inácio Américo, ao lado direto de Dom José Tupinambá da Frota.

Como afirmamos anteriormente, nessa época, sem um líder político local forte para resolver as situações conflituosas do cotidiano, foi obrigado a desenvolver atividades que estavam fora da jurisdição de sua batina. Embora sem formação, ou nomeação legal, em alguns momentos foi constrangido a ser delegado, juiz, prefeito, médico, caminhoneiro, agricultor, fazendeiro e até empresário:

“Dinâmico, trabalhador e efeito às lutas agropecuárias….. em breve transformou-se em um homem rico do lugar. Casa na cidade, propriedades e gado eram-lhe bases de sua estrutura econômica. Tornou-se líder inconteste de Monsenhor Tabosa, sombreando em muito os seus pares. Daí o passo para a política foi rápido. Anexou o ‘munus sacerdotal’ ao centro do poder temporal….. mas essa guinada para o status econômico e político terminou por levá-lo ao estuário do desgaste face a seus paroquianos e consequentemente frente ao seu bispo, Dom José Tupinambá da Frota.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 185)

Tudo o que acontecia de mais polêmico na comunidade de Telha era, muitas vezes, resolvido por ele, chegando ao ponto de até achar necessário andar munido com uma arma de fogo por baixo de sua batina, absorvia problemas que estavam fora do seu campo de ministério.
Nessa época o seu maior intento social foi ter conseguido, junto ao governador do Estado, Dr. Raul Barbosa, através da lei nº 1.153, de 22 de novembro de 1951, proposta do Deputado Estadual Dr. Raimundo Aristides Ribeiro, a tão sonhada autonomia política para Monsenhor Tabosa.

Imagem da Igreja Matriz de São Sebastião, na cidade de Monsenhor Tabosa.

A partir dessa data, com pouco mais de cinco mil habitantes, os moradores de Monsenhor Tabosa conheceram a sua autonomia administrativa, começando nesse momento as disputas e querelas nos bastidores pelo comando do novo Município e a constante tentativa da oposição, muitas vezes frustadas, de tirar o Pe. Inácio do comando da paróquia taboense:

“Nessa época, quando da criação do Município, da qual fora o mentor e principal líder, mandou chamar o seu irmão mais moço, candidatou-o a prefeito de Monsenhor Tabosa, elegendo-o a seguir.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 213)

O Pe. Inácio Américo Bezerra, devido a sua forte amizade com o Deputado Gentil Barreira, político de grande influência da região, e a sua performance dentro da Paróquia de São Sebastião, considerada heterodoxa para os padrões sertanejos, não agradava a elite local, que desejava a todo custo ver a sua influência totalmente anulada.

“Usou de sua influência para melhorar as precárias condições de saúde, tendo sido nomeado o primeiro médico do Município o jovem filho da terra, Dr. Jonas Marinho de Araújo. Por convite e estimulo do Padre Inácio, também o dentista, Dr. Geraldo Milfont transferiu-se para Monsenhor Tabosa, onde passou a exercer a sua profissão, fixando residência em uma casa de propriedade do padre.” (ALMEIDA MARTINS, 1997: p. 41)

Isso ficou bem claro quando, na primeira eleição para o Governo Municipal, conseguiu impor a sua vontade elegendo o nome de seu irmão, Joaquim Américo Bezerra, praticamente um desconhecido daquela comunidade, como o primeiro prefeito do Município.
Sobre os envolvidos nesse pleito eleitoral o jornal Folha do Sertão Cearense, ano V, nº 51, página 11, matéria assinada pelo jornalista Ulisses Lima, edição de maio de 2013, no diz o seguinte:

“Joaquim Américo Bezerra nasceu na cidade de Independência no dia 28 de agosto de 1928. Quando seu irmão, Pe. Inácio, foi designado vigário para a paróquia da localidade, mudou-se para o então Distrito de Tamboril e juntos desenvolveram ações para a emancipação da localidade. A primeira eleição de Monsenhor Tabosa, para prefeito e vereadores, foi realizada em 4 de outubro de 1954, com posse dos eleitos em 25 de março de 1955. Nessa época, Monsenhor Tabosa, desligava-se definitivamente de Tamboril, e passava a ter as suas leis e vida própria.”

O seu profano envolvimento político partidário custou caro ao seu ministério sacerdotal, havia um constante clima de insatisfação dentro da comunidade movido por seus adversários políticos, desagrado que se estendia até aos ouvidos do bispo diocesano.

“Desse modo, quando chegaram os anos 50, o paroquiato de Padre Inácio, antes zeloso e apostólico, se encontrava já em vertiginosa e franca detestabilidade. Choveram denúncias a Dom José Tupinambá pedindo pedindo a exoneração do Pe. Inácio.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 185)

Os seus adversários políticos teciam, de várias as formas, planos para transferir o Pe. Inácio Américo da Paróquia de São Sebastião, essas “denúncias”, inicialmente, só não surtiam efeito graças a sua forte amizade com o Pe. José de Palhano Sabóia, que também nutria intenções políticas partidárias e era secretário do bispado.

“Este, sendo muito amigo do Pe. Inácio, neutralizava Dom José Tupinambá para não tomar nenhuma atitude contra o vigário de Monsenhor Tabosa. Padre Palhano transferia vigários que lhe eram adversos e mantinha outros, de sua amizade, em paróquias cujas situações, às vezes, eram insustentáveis. Nas devidas proporções e miniaturas, Padre Palhano esteve para Dom José como o Cardeal Richelieu para Luís XIII e o Marques de Pombal para D. José I, de Portugal.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 186)

A partir do dia 25 de setembro de 1959, com a morte do bispo diocesano, Dom José Tupinambá da Frota, essa imunidade eclesiástica finalmente chegou ao fim, tornando-se um valioso presente concedido aos seus adversários políticos:

“Tendo caído o pedestal do Pe. Palhano, pelo desaparecimento de Dom José, e não tendo mais um pistolão na diocese que o mantivesse na paróquia de Monsenhor Tabosa, às duras penas, Padre Inácio opta pelo supremo ato de renúncia, evitando, talvez, uma possível cassação temporária de suas ordens sacras.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 189)

Em 1959, com 54 anos de idade, já com a saúde bastante debilitada, após 24 anos como pároco da freguesia de Monsenhor Tabosa, antes que recebesse algum tipo de censura eclesiástica, decidiu renunciar ao seu pastoreio, quando em seu lugar assumiu o Mons. Francisco das Chagas Martins.
Depois dessa dificílima decisão se recolheu à vida privada na Fazenda Juazeiro, local de seu nascimento, mesmo assim não largou a sua militância política:

“Padre Inácio já tinha um pretérito de militância política. Militara na ex-UDN ao lado de Gentil Barreiras, opondo-se em Monsenhor Tabosa, ao seu êmulo principal, Sr. Honório Teixeira Melo, este agregado à ala do PSD.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 213)

Quando chegaram as eleições municipais de 1962 o Pe. Inácio já não possuía mais a mesma estrutura que fizera eleger o seu irmão, o sua imagem estava bastante desgastada e já não surtia a mesma influência sobre a comunidade como fazia anos antes.
Nesse pleito, acontecido no dia 7 de outubro, colocou o seu nome na disputa pela UDN, União Democrática Nacional, tendo ao seu lado o nome do Sr. Expedito Almeida Costa.
A outra chapa era formada pelo PTB, Partido Trabalhista Brasileiro, com o irrestrito apoio do PSD, Partido Social Democrático, e tinha os nomes de Luís Alves de Mesquita e Luís Ferreira de Farias na disputa.
Não podemos esquecer ainda que, nessa época, a eleição para prefeito era desvinculada, o candidato majoritário eleito de uma coligação poderia ter o vice da outra chapa.
Nessa eleição o resultado deu-se da seguinte forma: o candidato Luís Alves de Mesquita recebeu a confiança de 1235 eleitores, enquanto o Pe. Inácio de apenas 969, já Luís Ferreira de Farias conseguiu 1105 votos, enquanto Expedito Almeida Costa apenas 1064.

“Apuradas as eleições, saiu vitorioso, por 262 votos, o Sr. Luís Alves de Mesquita, tendo o vice, Luís Farias, ganhado por uma diferença de apenas 49 votos.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 218)

Essa derrota nas urnas sepultou de vez as pretensões políticas do Pe. Inácio Américo, entretanto ele não admitia isso, embora não sendo mais o pároco da comunidade taboense permanecia rodeando o seu antigo protetorado sem permitir que as pessoas esquecessem o seu nome.
Mudou-se para uma fazenda de sua propriedade que se localizava dento do Município de Independência, onde celebrava todos os domingos na Capela de Ematuba e quinzenalmente estava em Monsenhor Tabosa fazendo as suas visitas.

“Essa dualidade de residências significava que o vigário resignatário de Monsenhor Tabosa continuava umbilicalmente preso a sua ex-paróquia.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 229)

Pensava o Pe. Inácio que embora a batalha estivesse perdida ainda havia uma longa guerra a se vencer, não deu por encerada a sua carreira política e candidatou-se a deputado estadual nas eleições de 1966.
Compondo nesse pleito os quadros políticos da ARENA, Aliança Renovadora Nacional, partido da base governista, novamente não logrou êxito, embora tenha conseguido uma expressiva votação em Monsenhor Tabosa:

“Padre Inácio obtivera no Município de Monsenhor Tabosa, num colégio eleitoral de 2380 votantes, o cômputo de 780 sufrágios.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 232)

Levando em consideração o desgaste político e eclesiástico dos últimos anos, e não tendo mais o comando de sua antiga paróquia, que era a sua maior base de apoio, a sua votação não foi tão ruim, poderia até ter sido eleito, se a legenda de seu partido não fosse tão alta.

“Conheci o Padre Inácio em Monsenhor Tabosa já em situação de declínio sócio-político, econômico e moral….. Perdera toda a sua influência política….. O seu conceito moral perante a opinião pública era de descredito. O seu prestígio perante o povo já não existia. Economicamente era um fracasso, já não tinha tino para gerenciar os seus bens. Pouco a pouco ia vendendo o que tinha. Infelizmente, nos seus últimos anos de vida, destruiu todo o conceito que construiu diante de seus paroquianos.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 230)

Finalmente, depois desse episódio, ameaçado de ter a suspensão em suas ordens eclesiásticas, já debilitado pela doença que o levaria a morte, passou a residir na cidade de Fortaleza até que, no dia 21 de março de 1982, com 77 anos de idade, veio a óbito.

“Por ocasião de um retiro do clero, eu disse a ele que, levando em conta o que se dizia sobre ele, na Fazenda, eu ia pedir ao Santo Padre sua redução ao estado de leigo. Chorou convulsivamente. E, trêmulo, disse: ‘Sr. Bispo, eu amo a minha batina. Eu tenho fé, Quero continuar como padre’. Não tive a coragem de forçar a situação.” (OLIVEIRA LIMA, 1994: p. 231)

A sua despedida fúnebre foi oficiada sem as pompas fúnebres merecidas pelos sacerdotes e o pior, bem distante de sua querida Monsenhor Tabosa. O oficiante foi o bispo da diocese de Crateús, Dom Antônio Batista Fragoso, no Cemitério Parque da Paz, que está localizado na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, nº 4.454, no Bairro do Passaré, na cidade de Fortaleza.

Imagem do busto erigido em homenagem ao Pe. Inácio Américo Bezerra.

BIBLIOGRAFIA:

  1. ALMEIDA MARTINS, Laís. De Telha a Monsenhor Tabosa. Fortaleza: Alcance, 1997.
  2. BARROSO, Francisco Andrade. Igrejas do Ceará. Crônicas Histórico-Descritivas. 3º vol. Fortaleza: PREMIUS, 2005.
  3. MESQUITA, José Helder de. Monsenhor Tabosa e suas histórias. Fortaleza: MULTIGRAF, 2000.
  4. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  5. OLIVEIRA LIMA, Geraldo. Gênese da Paróquia de Monsenhor Tabosa. Fortaleza: Marques Saraiva, 1994.

HOMENAGEM PÓSTUMA:

  1. Em sua memória, na administração do Prefeito Valdemar Dias Cavalcante, em 1985, na cidade de Monsenhor Tabosa, um busto foi colocado em uma das principais praças em sua homenagem;
  2. Em sua memória, na gestão do Prefeito José Vieira Filho, o Mazinho, através da lei nº 459, de 21 de março de 1988, uma das ruas do Bairro Boaviaginha, na cidade de Boa Viagem, recebeu a sua nomenclatura.