História do Distrito de Olho d’Água do Bezerril

A FORMAÇÃO HISTÓRICA E POLÍTICA DO DISTRITO:

O Distrito de Olho d’Água do Bezerril é o conjunto de cinco comunidades rurais que anteriormente pertenciam aos Distritos de Guia, Ibuaçu, Jacampari e Águas Belas, tendo sido criado na gestão do Prefeito Dr. Fernando Antônio Vieira Assef através da lei municipal nº 1.003, de 2 de outubro de 2008.

Imagem da vila que dá nome ao Distrito, em 2018.

Com a criação desse Distrito o povoado de Olho d’Água do Bezerril, por sua maior capacidade de desenvolvimento econômico e social, foi elevado à condição de vila e deu nome ao Distrito.
Sobre os primeiros habitantes dessa localidade, que posteriormente deu nome ao Distrito, o Pe. Neri Feitosa registra em um pequeno artigo, denominado de a “História do Povoado de Olho d’Água do Bezerril”, importantes informações que nos faz compreender a gênese de algumas famílias ainda existentes nessa região:

“Em 1975, este nome, Olho d’Água do Bezerril despertou-me a atenção porque Bezerril é um ramo da família Feitosa dos Inhamuns. Disseram-me que este lugar teve o nome de um Feitosa que cometeu um crime horroroso nos Inhamuns e veio esconder-se aqui, no ano de 1839.” (FEITOSA, 2004: p. 2)

Ainda nesse texto, conforme o Pe. Neri Feitosa, compreendemos que esse crime teve uma motivação torpe, que foi originada por uma crise de ciúmes do Capitão José Custódio Bezerril contra a sua esposa, que se chamava Matilde Alves Cavalcante:

“O casal Vicente Pereira e Francisca Alves Cavalcante, Feitosas dos Inhamuns, era muito rico e morreram os dois, deixando três filhos órfãos, portanto menores: João Evangelista, Matilde e Maria Alves Cavalcante. O Capitão José Custódio Bezerril, sobrinho de Vicente Pereira, foi nomeado tutor dos três primos órfãos e muito ricos. Logo que Matilde atingiu a idade de casamento, o Capitão José Custódio Bezerril, bem mais velho, casou com ela. No tempo do noivado, o capitão deu uma linda aliança de ouro a Matilde. Quando já tinha dois filhos deu-se um casamento… Já ia alta a noite e Dona Matilde ficou conversando com a noiva e outras moças para os lados do curral. O capitão, sem nenhuma razão, levou isto a mal e começou a enciumar-se.” (FEITOSA, 2004: p. 2)

O texto do Pe. Neri Feitosa nos mostra claramente ainda que o capitão, que era bem mais velho do que a sua prima, imaginou que as moças traziam algum tipo de recado para Dona Matilde e depois desse episódio, mesmo com as explicações de sua esposa, o capitão não se convenceu da traição e arquitetou uma forma de lavar a sua honra, que depois originou outros crimes.

“O capitão aproveitou a ocasião e combinou o crime… Espalhada a notícia da morte de Dona Matilde, morte trágica de uma inocente, o Capitão Antônio Alves de Castro, irmão do Capitão José Custódio Bezerril, saiu de sua fazenda… e convidou Joaquim Murici, o cabra que matou Dona Matilde asfixiada… Antes contratou o serviço de José Holanda Cavalcante, tio de Dona Matilde, para ele entrincheira-se… e forneceu a ele um bacamarte do papo amarelo, apelidado de canário. Quando ia passando no rochedo… botou Joaquim Murici abaixo… Hoje, a gente chamaria o assassinato de Murici de queima de arquivo.”  (FEITOSA, 2004: p. 3)

Depois desses bárbaros crimes o Capitão José Custódio Bezerril passou a ser um fugitivo da justiça e durante algum tempo se escondeu com algumas pessoas de sua confiança dentro dos limites geográficos do Município de Boa Viagem, que na época pertencia ao Município de Quixeramobim.

“O Capitão José Custódio Bezerril, o mandante e arquiteto do crime, em vez de ir ao Ico… veio juntamente com alguns pagens parentes para o Município de Boa Viagem, que naquela época era chamado de Cavalo Morto e escondeu-se no lugar que passaria a ser chamado de Olho d’Água do Bezerril, então ermo e de acesso difícil.”  (FEITOSA, 2004: p. 4)

Enquanto esteve nessa região o Capitão José Custódio Bezerril mantinha uma equipe de prontidão para garantir-lhe a segurança, que estavam em localidades ainda existentes em nossos dias:

“Os seus agregados não ficaram juntos num só lugar, mas em pontos estratégicos de proteção ao olho d’água, onde se fixou… Silvestre Martins Chaves ficou ao poente, no pé da Serra do Jacampari, onde havia acesso para o Município de Crateús e deu nome ao lugar de Cachoeira do Silvestre; outro olheiro deve ter ficado onde hoje é o lugar denominado de Conceição, onde havia acesso ao lugar Cavalo Morto – Nossa Senhora da Conceição, padroeira da vila do Cococi, era a devoção dos Feitosas… Outro olheiro ficou no lugar Socorro, hoje vila do Ibuaçu, passagem para Várzea Queimada, hoje cidade de Madalena, com acesso aos Município de Canindé e Quixeramobim. No Ibuaçu também prevaleceram os Martins. Ao Sul o capitão estava protegido pela Serra da Guia… Tudo leva a crer que na cidade de Madalena o capitão tinha dois olheiros: Antônio e Joaquim de Pinho… Os olheiros ficavam a serviço do patrão protegido. Em qualquer aparência de diligência policial, era logo furtivamente comunicado.”  (FEITOSA, 2004: p. 4-5)

Depois de algum tempo, graças ao seu prestígio, o Capitão José Custódio Bezerril retornou para sua propriedade nos Inhamuns e contraiu um novo matrimônio.

“Se  hoje a justiça é lenta, naquele tempo ainda era mais. O processo rolou, muita gente teve de depor; todos sabem que, sobretudo naquele tempo, o processo seguia rumo determinado pelo coronel regional. Terminou que preso mesmo só foi João Evangelista: O Muricí não teve tempo de falar e revelar os mandantes. Passado o perigo de prisão, o Capitão José Custódio Bezerril retornou à Fazenda Riacho dos Cavalos. Casou de novo, com uma filha de Bernardo Freire de Castro Jucá, sua parenta, chamada Eufrásia e teve mais seis filhos.” (FEITOSA, 2004: p. 7)

A ETIMOLOGIA DE SEU TOPÔNIMO:

O topônimo que designa o nome desse Distrito é fruto da junção de dois termos. O primeiro está relacionado à existência de uma fonte d’água nas proximidades do Riacho dos Coqueiros que, no passado, abastecia os animais e os moradores dessa região, já o segundo refere-se ao sobrenome do Capitão José Custódio Bezerril, que durante algum tempo se refugiou nesse local.

BIBLIOGRAFIA:

  1. BRAGA, Renato. Dicionário Histórico e Geográfico do Estado do Ceará. v. 1º. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.
  2. FEITOSA, Neri. História do Povoado de Olho d’Água do Bezerril. Canindé: Instituto Memorial de Canindé, 2004.
  3. FRANCO, G. A.; CAVALCANTE VIEIRA, M. D. Boa Viagem, Conhecer, Amar e Defender. Fortaleza: LCR, 2007.
  4. NASCIMENTO, Cícero Pinto do. Memórias de Minha Terra. Fortaleza: Encaixe, 2002.
  5. PELOSI FALCÃO, Marlio Fábio. Dicionário Toponímico, Histórico e Geográfico do Nordeste. Fortaleza: Artlaser, 2005.